Crítica | Habitantes – Eles Estão Aqui (2015): interessante, mas ruim

Ficha técnica no IMDb

A premiada documentarista Annie Curtis e seu marido, Neil, embarcam no documentário “30 Days of Clean Living”, instalando câmeras por toda a casa para documentar, via Internet, seus novos hábitos alimentares. Ao fazer isso, metade de suas câmeras capturam uma versão paralela deles mesmos, versão esta que, por fim, revela e ameaça sua própria existência.

É recorrente que filmes de terror se tratem como documentários e insiram, no início, um texto contextualizador da situação. Esse texto às vezes diz que os personagens sumiram ou algo que também seja revelador do desfecho da obra. Isso tira o peso do final e desanima, pois qual é a graça de ver algo que eu mais ou menos já sei como termina?

Com seu texto inicial, Habitantes – Eles Estão Aqui dá a entender que tudo deu errado, sem ser totalmente claro. É ruim, mas não tanto quanto poderia.

O casal protagonista quer gravar 30 dias de sua rotina para documentar o decorrer de uma dieta vegana. Segundo a Annie, a mudança na alimentação limpa o organismo e os eleva em nível espiritual, conexão com o universo ou algo do tipo, justificando as “aparições”. É uma das justificativas mais ridículas que já vi para o terror de um filme. É besta, preguiçoso e eu não duvido que a origem da ideia tenha sido numa piada.

Quando a mistura das realidades surge, ela é misteriosa, não assustadora. Isto não é uma crítica, só um esclarecimento. Não dá para assisti-lo esperando sustos, ou então você se decepciona.

Um pesquisador está tentando entender a situação e pergunta para a Annie onde ela conseguiu as câmeras e o Neil o interrompe dizendo que quer respostas, que quer saber o motivo de aquilo acontecer com eles. Não faz o mínimo sentido ele praticamente brigar com o pesquisador sendo que ele está fazendo justamente o que o Neil quer: tentando entender o motivo de aquilo acontecer com o casal. Fora que o Neil reclama como se a captação das imagens do mundo paralelo fosse um problema.

A Annie pergunta se a situação é perigosa, o pesquisador responde que sem interferir não há perigo e ela pergunta como interferir. Ela tem titica de galinha no lugar de cérebro? O casal só não é a dupla mais burra que já vi porque eu assisti Olhos Famintos, mas o páreo é duro.

Depois do esclarecedor (ou nem tanto) papo com o pesquisador, o Neil começa a ver depoimentos e temos uma espécie de captura de tela da máquina que ele está usando. O problema é que ao mesmo tempo ouvimos os depoimentos e o diálogo do casal. Acaba que um mistura no outro, eu não entendo nenhum e acabo me desconectando do filme.

Em Amizade Desfeita essa duplicidade no envio de informações torna a obra interessante e até desafiadora de compreender, mas, neste filme, é só confuso e chato. No mesmo sentido, o filme tem uma edição moderninha com texto na tela, a qual gera uma overdose de informação que atrapalha a compreensão, ainda que seja uma boa ideia.

O casal vê o outro casal meio emburrado na sala de jantar e conclui que eles são infelizes. Parabéns por deduzirem, a partir de uma fração do tempo total de vida, o grau de felicidade de um casal. Uma visão simplista e quase ofensiva, vindo de um casal que não parece muito jovem.

Encontrar o brinco do outro mundo é uma ação interessante o suficiente para quebrar a chatisse do filme, dando um passo adiante no terror. Não há motivo para desespero, mas também não há motivo para empolgação. A Annie é claramente uma descontrolada.

Do desconforto à paixão, finalmente chegando ao aborto induzido. A história do casal de lá é envolvente e, por mais que o casal de cá seja sem sal, o possível reflexo das atitudes é assustador e apreensivo. É a pérola no meio da lavagem.

A Annie querer passar o recado faz sentido, mas se o papel só dizia “lembra do chá?” como a outra Annie entenderia? Ela não deveria sacar de bate-pronto que foi sabotada. A primeira reação devia ser confusão, afinal, aquele papel brotou ali magicamente. A outra Annie estava tentando entender como estavam conseguindo vigiar a casa e desconfiava do marido, mas a burra da Annie queria que ela saísse de casa imediatamente. Essa protagonista é pior que uma toupeira.

O remédio da outra Annie é forte, hein? Três comprimidos desmaiaram o outro Neil em 15 segundos. Uma possível vingança coerente.

O filme fez questão de mostrar a gravação da outra Annie, sendo que eu já sei o que ela fez. Não faz sentido.

Ênfase no sensacional momento em que o casal quer saber como romper o vínculo e o pesquisador diz: “bem, terremotos, tsunamis e vulcões historicamente fecham vínculos”. Na hora eu pensei “ata pô, o casal vai tirar um terremoto do bolso e resolver tudo”. O pesquisador podia ter resumido essa explicação em vez de bancar o dramático.

A outra Annie incendiar o outro Neil e a casa foi surpreendente e uma saída bem legal para encerrar a trama. Aí eu te pergunto: por que raios o diretor resolveu não fechar nesse ponto e fazer a outra Annie misteriosamente conseguir viajar entre os mundos e liquidar o casal? Só para ter final trágico?

Assim eu não posso passar pano para a burrice roteirística de fazer a outra Annie, por motivo nenhum, querer atacar a Annie. Podia ser o outro Neil os atacando, podia até ser a outra Annie atacando o Neil, o que conversaria com aquela questão de os outros agirem como eles.

Indo além, por mais que eu tenha gostado da trama do outro mundo, o roteiro escolheu o bom, quando podia escolher o ótimo, que seria fazer o Neil atacar a Annie, refletindo a personalidade do outro Neil.

É positivo o modo com que a filmagem amplia progressivamente a cobertura do mundo de lá em detrimento do mundo de cá. Torna mais ou menos consistente a evolução da trama, sem parecer forçado ou estranho.

Eu não costumo criticar atuação e assisti à versão dublada do filme, mas é nítido como os atores são ruins. O que interpreta o Neil é praticamente amador e ambos são extremamente artificiais. Com o roteiro ruim eles ficam ainda piores. É duro continuar vendo Habitantes – Eles Estão Aqui até o final.

Habitantes – Eles Estão Aqui é um filme interessante pelo mundo de lá, apesar de o mundo de cá ser chato, inconveniente e talvez desnecessário.

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