Crítica | O Jogo da Tortura (2019): bom? Não. Ruim? Tampouco

Ficha técnica no IMDb

Uma mulher se inscreve em um jogo clandestino de resistência à dor na esperança de ganhar o prêmio de um milhão de dólares.

É interessante que o filme já começa no jogo e a gente que se vire para entender. É bem corajoso e animador, pois passa a mensagem de que O Jogo da Tortura não tem o compromisso de ser didático. Assim a experiência adquire um nível superior de qualidade.

De quebra, não há aquele trecho de personagens fazendo irrelevâncias antes do “terror” aparecer. Com isso, O Jogo da Tortura é um filme quase que completamente aproveitável, sem que eu possa separá-lo em pedaços com essa ou aquela característica.

A estrutura narrativa do filme é composta pelo entrelaçamento de cenas de papo com cenas das rodadas de tortura. Apesar de termos consciência do mundo exterior, o fato de ser uma sala com duas pessoas quase o tempo todo torna tudo meio solitário e intimista.

Essa ambientação ajuda a fluir o papo do mediador com a jogadora, mas, em vários momentos, os diálogos ficam lentos demais, arrastados e forçados. Não é ruim o suficiente para desconectar o espectador da trama, mas é sensivelmente incômodo.

A parte da tortura é um pouco decepcionante. Não por falta de cenas explícitas, mas por não ser um choque tão grande quanto o que se espera de um jogo assim. As parafusadas têm peso, mas o caixote as esconde. Por quê?

O início do filme parte do papo para a rodada da vela num corte brusco, pulando o início do desafio, o que me surpreendeu negativamente. É como se O Jogo da Tortura quisesse terminar a parte explícita o mais rápido possível (como podemos notar pelo desnecessariamente extenso desafio final).

O que fecha a rodada é três competidores desistirem, uma regra tão específica que me surpreendeu. Outra surpresa minha foi o grau de envolvimento do mediador com a jogadora. Se é um jogo de resistência, os participantes não deviam interagir socialmente com o mediador. Jogos injustos vão muito além da minha suspensão de descrença.

Depois da mão na vela vem o rato no pé, os parafusos no outro pé e a cabeça embaixo d’água. Nesta, o lírico misturado à ausência de som fortalece a angústia diante da situação. Quando descobrimos que a jogadora engoliu a bala, dá para entender a não desistência. É surpreendente e até legal. Mostra o empenho dela e seu autoconhecimento.

A fase seguinte é cortar os dedos da mão esquerda, o que é um salto. A partir daqui, não basta um curativo e um beijinho para sarar. Não que eu queira ver dedos sendo cortados, mas é muito anticlimático cortar os cortes (perdão pelo trocadilho). Cheira a falta de recursos para efeitos visuais.

O último desafio é uma roleta russa. É até tenso, mas como eu sei que ela é a protagonista e não há meio termo, ou nada acontece ou ela explode a própria cabeça, fica evidente que nada vai acontecer ou será breve. Foi uma escolha frustrante.

O roteiro avança, assim como os desafios. O laço vai evoluindo para um flerte e fica até romântico. Então o comportamento do mediador fica mais psicopático e a jogadora perde parte do interesse. O choque maior vem quando ele acaricia os seios dela, ela evita e ele a golpeia no rosto. É assustador, mesmo no contexto das torturas. A cereja do bolo é o beijo.

A maluquice do mediador após o corte dos dedos é interessante, mas a má relação dos dois é menos legal que a boa relação. Não gostei desse rumo, mesmo que ele seja coerente com a situação e com os personagens. Não que eu vislumbrasse um futuro com eles se dando bem, acho que de qualquer jeito eu iria desgostar.

O Jogo da Tortura recupera o fôlego quando sai das puxadas de gatilho e traz a possibilidade de o mediador estar mentindo. A jogadora pode já ter vencido, podem haver mais competidores e pode não haver nenhum competidor além dela. Isso é bem assustador, interessante e parece uma sacada brilhante para um plot twist. O duro é aturar mais de dez rodadas de roleta russa sem a arma disparar. Isso fica cansativo e irreal.

No momento em que o mediador disse que o que interessa aos superiores é ver sangue, independente de quem, eu saquei que a chave para a vitória era atirar nele. Gostei da ideia, mas o filme enrolou demais no papo antes dos tiros e não fazia sentido a jogadora demorar para atirar em vez de descarregar a arma imediatamente. Claramente era a única chance dela.

O confronto seguinte me pareceu sem graça, especialmente pelo uso do clichê do objeto ao alcance da mão que uma esticada de braço permite usá-lo para acertar o vilão. A vitória é satisfatória, mas não incrível. Podia ser um final de explodir a cabeça, mas a falta de timing o tornou bom e coerente. Apenas isso.

O Jogo da Tortura é um filme meio lento e meio maçante que consegue ser legal em alguns momentos, principalmente em decorrência das ações do mediador. O filme não é gráfico o suficiente para agradar aos fãs de Jogos Mortais e Premonição, então é difícil definir qual público deve gostar mais dele. Francamente, não recomendo a experiência.

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