Crítica | Lembranças Macabras (2008): maníaco no covil do maníaco

Ficha técnica no IMDb

Janine é uma mulher que se acidenta, é resgatada e mantida em cativeiro por um homem de poucas palavras.

O título dito no filme é Lembranças Macabras, mas o que está escrito no Looke é Lembrança. Uma das várias perguntas erguidas por Lembranças Macabras é: por que há a palavra “lembrança” em seu título?

O uso dessa palavra me levou a considerar que o mundo lírico era o futuro e o cativeiro era uma lembrança, o que não foi o caso. Por mais que exista a menção ao trauma da Janine, essa lembrança é bem pouco relevante. Só me serviu para escorar a minha teoria acerca do final do filme.

Há filmes com uma fotografia tão boa que é um espetáculo à parte, como o ruim Midsommar, que é belíssimo. Outros filmes não possuem uma fotografia incrível, mas extremamente funcional para seu propósito, como o competente Miss Violence.

No surpreendentemente regular Lembranças Macabras, a fotografia é uma ruindade à parte. O filme tem muitas cenas escuras que dificultam a compreensão de momentos relevantes e, pior que isso, seu estilo de filmagem inclui uma câmera tremida que fez o subgênero found footage não parecer tão ruim quanto minhas lembranças indicam.

O resultado é que vários momentos da trama são confusos e extremamente incômodos. Tudo bem a câmera se mover em cenas de ação, para acompanhar os personagens, mas há diversas cenas em que os movimentos não casam com o sentimento evocado pela situação. Assim, cenas tensas como a do primeiro banho acabam ficando ridículas.

Lembranças Macabras é um filme meio vazio. Ele é muito mais uma experiência do que uma história com começo, meio e fim. Isso se deve a duas escolhas do roteiro. A primeira é registrar praticamente apenas o cativeiro. A segunda é ter um vilão mudo.

Você pode já ter lido textos meus nos quais eu digo que ser vazio é um defeito, mas, neste filme, não passa de uma característica modificadora da experiência. E há um bônus de tensão. Como o vilão não fala, tanto o espectador quanto a personagem não sabem o que ele fará e não é automático entender o que ele pretende.

A garota muda que começa a falar no fim do filme (?) também encaixa nessa tensão. A falta de informação alimenta muito o suspense. Isso torna a experiência bem significativa e, ironicamente, reduz o significado do filme, sua temática. Em Lembranças Macabras você não aprende nada, apenas vê ações se desenrolarem.

Por mais que o cativeiro em si sustente com eficiência a qualidade do filme, a falta de informação sobre a situação joga contra. O vilão diz que em 30 dias a Janine deverá/irá mostrar. Mostrar o quê? Por que ele matou a segunda vítima? Ele mantinha várias mulheres em casa? E qual era a daquela pessoa enjaulada? O que ele tinha com a muda?

Essas lacunas pesam um pouco na balança, mas um salto narrativo funciona como âncora. Ele interrompe o fluxo positivo da trama e ergue uma gigantesca interrogação: por que a Janine atacou a muda?

O que ela fez com o vilão é uma retaliação ao cativeiro, mas a muda não fez nada contra ela. Eu até revi alguns momentos para ter certeza. Por mais que ela chame a muda de “vadia falsa”, não encontrei absolutamente nada que indicasse que a muda fez algo ruim para ela.

O fato de a Janine ser uma maníaca é um plot twist surpreendente que resgata a tal “lembrança” e dá um propósito narrativo mais concreto ao mundo lírico. Já vi alguns filmes que conjugam essa ideia, como Noite das Bruxas Macabra, mas Lembranças Macabras foi um bocado superior.

A minha teoria é que aconteceu com a Janine o mesmo que aconteceu com a Shiro (Deadman Wonderland) e com a Carrie (Carrie, a Estranha, 2002). Diante do sofrimento, ela criou uma segunda personalidade que reunia apenas ódio e suportava toda a dor. Gosto muito dessa ideia.

A fotografia é bem ruim e a narrativa é bem boa. O que sela tudo e deixa Lembranças Macabras mais para baixo do que para cima é a falta de justificativa para a Janine atacar a muda. No mínimo, este é um filme interessante.

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