Crítica | As Loucuras de Dick e Jane (2005): comédia das boas

Ficha técnica no IMDb

Dick Harper é um executivo que trabalha na Globodyne. Certo dia, ele é chamado por um superior e recebe uma promoção. Dick já ensaiava sua mudança de vida, quando, em uma entrevista, tudo vira de ponta-cabeça.

As Loucuras de Dick e Jane começa com uma narração que torna a ambientação mais divertida, havendo ênfase no trabalho e no gramado como a consolidação da felicidade.

Quando o Dick está no elevador, rumo à promoção, a transição da seriedade para a felicidade e depois a seriedade novamente é humana e engraçada. Não é preciso obviedades para fazer humor. Nem de um texto excepcional, como podemos ver na cena em que o Dick vai cumprimentar o Frank e ambos ficam vários segundos com o braço esticado antes de a distância permitir o aperto de mão.

A emoção da promoção do Dick é subvertida com a entrevista na TV. O que parecia positivo fica subitamente suspeito e parece que o Dick foi usado como escudo, lançado aos leões sem aviso prévio. Além de um pouco assustador, o momento caminha para a tristeza. Isto principalmente pela habilidade do filme em me fazer simpatizar pelo protagonista.

Por outro lado, a dramática situação do executivo que se descobre desempregado e que incentivou a mulher a largar o emprego é aliviada pela intenção do filme de fazer mais humor que drama. Acaba sendo uma autossabotagem, mas não é um erro, pois As Loucuras de Dick e Jane é uma comédia, não um drama.

O Jim Carrey é muito bom em fazer humor com as reações dele e, neste filme, senti que estava mais no ponto certo, sem exagerar demais no humor corporal.

Podemos notar a sutileza de um bom roteiro em a Jane ver a grama sendo retirada sob o olhar de vizinhos e decidir fingir que a retirada é uma decisão dela, não resultado da falta de pagamento. Essa atitude demonstra o apego dela pelas aparências e é uma boa piada.

Outro exemplo de elevada qualidade e cuidado na produção do roteiro é a piada com a polícia da imigração. As Loucuras de Dick e Jane construiu com naturalidade a presença de uma mulher hispânica como babá do guri e fez o Dick perder a carteira caindo de uma caminhonete. Juntando esses dois detalhes, o roteiro conseguiu fazer a piada ser mais consistente e coerente, não soando gratuita.

O mais legal é que a piada funcionaria apenas com o inchaço na boca, mas o roteiro fez questão de torná-la mais robusta. O atravessar da fronteira foi muito exagero, mas gostei da piada o suficiente para apreciar o exagero.

Um elemento interessante do filme é o orgulho do Dick. Por orgulho ele não aceitou um cargo abaixo de vice-presidente e deixou as finanças da família piorarem. Gradativamente, o orgulho vai sendo deixado de lado, conforme vemos na sequência de readequação financeira. Desde os empregos inapropriados para o casal até o banho no sprinkler.

A loucura da piada com a imigração e o cenário econômico justificam bem a tentativa do Dick de trazer um pouco de felicidade para a família restaurando parcialmente o jardim com pedaços de grama roubados. Esse momento tragicômico torna menos estranha a decisão do casal de fazer aquilo que a sinopse não deveria revelar: assaltar.

A primeira tentativa é tensa e engraçada, ainda que não faça sentido a arma ficar presa no bolso do Dick. Aqui destaca-se o bom trabalho da trilha sonora em compor o clima do tenso ao aventuresco engraçadinho. Na segunda tentativa, temos um belo humor constrangedor. A terceira não tem graça e a quarta é artificial demais.

O Jim Carrey é muito bom, embora deslize. Ele até parece um lunático, mas não um comediante. A Téa Leoni é engraçada, mas soa muito artificial, como se ela fosse uma comediante, não uma pessoa comum.

Ocorre que a partir do ponto em que o casal assalta, a artificialidade da Jane contamina o Dick e, por mais que seja engraçada, a sequência de vinganças do casal me tirou a imersão. O filme não era tão descompromissado e de repente enfiou o pé na jaca. O pior momento do Jim Carrey é a cena em que ele brinca com o modificador vocal durante um assalto.

O que quebra esse lado demasiadamente açucarado é a prisão do outro ex-funcionário da Globodyne. É um lembrete de que a diversão dos protagonistas poderia acabar daquele jeito. O rumo natural é a realização de um super roubo, que se torna mais significativo por vitimar o Jack, presidente picareta da Globodyne.

A sequência do plano é empolgante, engraçada e fantasticamente dramática no trecho do cheque. Eu sinto a dor do Dick, compreendo sua atitude e quase choro com ele. A ideia do uso da assinatura é satisfatória e resulta num desfecho surpreendente.

Surpreende porque o espectador tende a supor que o casal irá arranjar dinheiro para si, mas eles apenas devolvem aquilo que as pessoas perderam com as ações da Globodyne. É até um final bonito, considerando que o filme retrata a história de ladrões.

As Loucuras de Dick e Jane é um filme divertido, ainda que seu exagero o desqualifique, e possui pitadas dramáticas legais, compondo assim uma experiência recomendável. Bom filme.

Observação: alguém entendeu o que significa a última cena do filme? Parecia ser impactante, mas eu não captei a sacada.

Observação 2: na hora em que o Dick está escondido no teto e cai de cara no chão eu imaginei que fosse uma queda real. Além desse, o tombo da Jane no café também foi real e a atriz machucou o ombro. Ser acidental deve ter tornado a cena mais engraçada.

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