Crítica | Fratura (2019): suspense bem executado

Ficha técnica no IMDb

Dirigindo pelo país, Ray e sua esposa param em uma área de descanso na estrada, onde sua filha acaba caindo e quebrando o braço. O pai vai para o check-in da emergência mais próxima, enquanto a esposa leva a filha para fazer uma ressonância magnética. Ray, exausto, adormece no saguão. Quando ele acorda, o pesadelo começa.

Fratura é um filme parecido com Busca Alucinante. Ambos tratam de um misterioso desaparecimento hospitalar. Curiosamente, Busca Alucinante contém uma solução ruim, porém é mais bem executado que Fratura, um filme com uma solução muito superior.

Pode parecer estranho ao mesmo tempo eu dizer que Fratura é um suspense bem executado e não tão bem executado. Isso se deve a execuções distintas. O argumento do filme é bem desenvolvido, mas é simplório e possui erros que afetam a experiência.

Eu não posso dizer que o plot twist é ruim ou sem sentido, mas achei boa parte do filme chata, graças a alguns detalhes que foram inseridos de maneira equivocada.

Busca Alucinante é composto por dois blocos, um de suspense sólido e um de resolução desagradável. Fratura também é composto por dois: familiar e suspense. O familiar é bom, mas o suspense é esburacado.

Bloco familiar

A dinâmica da família Monroe é factível. Eu comprei a ideia de que eles eram uma família comum em viagem. Os atritos são humanos e conduzidos de modo natural. É um pedaço tão certinho que poderia facilmente ser encaixado num filme dramático sem grandes dificuldades.

O ambiente repleto de cores frias é depressivo e combina com a dificuldade enfrentada pelo protagonista na recepção inicial. Por mais que eu entenda a situação, as pessoas interagem com ele como se algo estivesse errado. A postura da recepcionista não significa nada, mas compõe bem o panorama geral de Fratura.

Bloco de suspense

É comum filmes de mistério deixarem pistas para a compreensão da realidade. Isso é importante para que possamos revê-los e ter a sensação de que aquela sempre foi a história. Do contrário, o plot twist pode parecer uma explicação súbita e conveniente de um roteiro pouco inteligente.

No período anterior ao desaparecimento, nos é informado que houve um acidente de carro e que machucados na cabeça podem gerar confusão. Considerando o acidente mostrado na TV, a conclusão imediata é que o protagonista sofreu um acidente de carro, bateu a cabeça e ficou confuso.

Com pouco mais de meia hora de filme, eu já supunha com certeza o plot twist. A pergunta restante era se a família era real ou não. Com a informação da esposa morta anos antes e a foto, imaginei que a mistura das duas coisas compusesse a realidade.

De fato, o plot twist mistura ambas, só que de um jeito confuso que praticamente engana o espectador para tornar a virada realmente surpreendente.

O problema central da experiência de assistir Fratura é que o filme oferece pouco conteúdo e entrega antes da metade indicações claras de qual será a revelação. Isso faz com que o espectador ache chato o período entre a formulação da teoria e a explicação final.

A chatice aumentou para mim devido à confusão gerada pelas menções a um acidente de carro. Eu entendo a lógica da mistura, mas achei muito frustrante a verdade sobre a família não envolver um acidente de carro.

Além da frustração, é até pouco compreensível. Se o protagonista não atacou a filha, por que derrubou a esposa? Apenas pela confusão causada pela queda? A falta de intenção deixa a resolução meio sem graça. Ainda mais depois de todos os absurdos que o personagem fez para buscar a verdade.

E esse trajeto é bom. A condução da investigação é bem agradável e aceitável, inclusive a atuação do hospital no caso. Existem apenas quatro problemas: os policiais ouviram o protagonista mencionar duas vezes a ida da esposa ao subsolo, mas não consideraram a possibilidade de descerem; o protagonista conseguiu roubar a arma da policial e o guarda derrubou o protagonista e não se apressou para pegar a arma.

De resto, o trajeto não fica devendo em nada. Faz sentido tanto os policiais investigarem quanto desconfiarem do protagonista. A participação da psiquiatra foi muito legal e fiquei surpreso com o sangue no local da queda.

Eu gosto tanto de certos detalhes de Fratura que fico receoso de dar um veredito. O argumento do filme é interessante, mas foi diluído a níveis incômodos com a adição das menções ao acidente de carro.

Se o roteiro segurasse por mais tempo a ausência de pistas e não indicasse conexão com o acidente do passado, Fratura seria um filme muito bom.

O diretor preferiu entregar ao espectador uma dúvida sobre o real plot twist e descartou a possibilidade de trabalhar uma história consistente com um final alucinante de explodir a cabeça.

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