Crítica | Histórias Estranhas (2018): não entendi quase nada

Histórias Estranhas é uma antologia brasileira de oito contos. Ela tem uma abertura psicodélica incômoda e o maior problema é que o áudio das falas é terrivelmente baixo, mais do que o resto do áudio. Parece que a captação de áudio foi feita de modo que vários trechos são difíceis de compreender.

Ninguém

Um homem acorda num carro em um lugar sem pessoas. Ele está com fome, sai correndo por motivo nenhum, invade uma casa, mata os donos e come a janta deles. Eu revi alguns trechos para verificar se não havia algo interessante no enredo, mas não há nada. A história não tem explicação e o que há de curioso, que é a ausência de pessoas, é jogado fora sem ter algum significado à vista.

Em uma parede estava escrito “mate por prazer”, então isso poderia ter incentivado um morador de rua com fome a cometer crimes para se saciar. A falta de pessoas conversa com a solidão de um mendigo, mas não explica a fuga, as roupas ou a foto. A analogia com o mendigo é meio óbvia e, se for o caso, foi mal trabalhada.

O trecho inicial do conto me incomodou pelo cenário parado, como se fosse uma fotografia, e, principalmente, pela falta de sons. É tempo demais sem trilha sonora, falas ou mesmo som ambiente. O jogo de câmeras do ataque é amadoramente truncado e o efeito visual do sangue é insatisfatório. O som do golpe e o respingo na lente pode ser legal no excelente final de God of War 3, mas não neste conto.

A Mão

Gastei mais tempo do que gostaria tentando regular o volume do vídeo neste conto. Como o anterior praticamente não tinha som, imaginei que o objetivo deste fosse indicar que o papo era desinteressante, mas o homem começou a falar e eu precisei aumentar muito para que ficasse entendível. Com aquele chiado do final da fala da mulher a situação ficou ainda mais desagradável.

É bizarro o jeito que o homem insere o cilindro na testa, mas achei meio tosco o choro preto. O ataque do monstro no carro foi assustador e bem executado, só foi difícil apreciar, pois eu estava confuso com a história. Sem maiores explicações, o conto sugere que o homem caça pessoas das quais pode extrair o cilindro e o homem do óculos conseguiu desenvolver o aparelho para enxergá-los. E daí?

Esse parecia promissor. Não entendi nem o título “a mão”. Os cilindros são cinco e o quebrado pareceu um pouco um dedo, fora que o homem estava com as mãos tremendo, mas e daí?

Mulher LTDA

Um trabalhador maluco acorda cadáveres de mulheres para criar uma empresa que vende empregadas domésticas. Finalmente o filme apresentou uma ideia completa. É bem interessante e o visual dele é incrível, embora o excesso de cor o faça parecer bobo. O uso da trilha sonora na sequência da TV é muito bom.

A discussão sugerida pela história quanto aos cadáveres terem ou não direitos, não podendo ser, suponho eu, escravizados pela mulher ltda, é bem instigante e poderia ser desenvolvida devidamente em uma história mais longa. Não que tenha ficado ruim do jeito que foi.

Este conto é esmagadoramente superior aos anteriores. Esmagadoramente talvez não, mas também supera seus sucessores.

No trovão, na chuva ou na tempestade

Um homem leva um cadáver para três mulheres bizarras provavelmente se alimentarem. Elas pedem o olho dele e ele entrega. Tirando a câmera tremida que detesto, não tem nada nesse conto que valha comentário.

O título foi o que mais me intrigou. O final do conto indica que a frase é da peça Macbeth, porém eu não a conheço, então não sei se é só uma referência vazia ou se ela contribuiu para o significado da história. Se você conhece a peça, comente se ela agrega ao que vimos no conto.

Os Enamorados

Teatro e psicodelia. Pelo que pesquisei, o texto sobre “sigilo” somado ao fato de vermos um casal e insinuações sexuais indica que o homem queria fazer uma magia usando um espírito, o orgasmo do casal energizou o espírito e ele controlou o homem, em vez do contrário.

Me é uma explicação satisfatória. Não que eu tenha gostado, mas ver uma ideia mais completa torna a experiência melhor. Se você entende desse papo sobre sigilo e magia, explique nos comentários se esse conto faz sentido.

Invisível

Um homem vê um vídeo de seu falecido pai: um homem invisível. A cena da menina oferecendo um pão para o invisível sugere que a invisibilidade é uma metáfora para alguma condição indesejada que é propositalmente ignorada. É um ponto bem interessante.

Por outro lado, não entendi o final, o motivo para a frase não ter sido completada. Talvez o filho tenha se tornado invisível, mas não é como se isso significasse algo dentro do que o conto mostrou. No mais, é uma boa história.

Sete minutos para a meia-noite

Um casal provavelmente fez um acordo para gerar um demônio. É o conto menos simbólico e menos interessante, mas não é desagradável ou de aparência amadora. Este e o próximo podem ser um sinal amarelo para cristãos, mas não achei ofensivo.

Apóstolos

Um ser rouba cabeças e, assim, toma identidades. O trajeto de vilania é suficientemente interessante para que o conto não seja qualquer coisa. A cena final parece existir apenas para que o título do conto faça sentido. No geral, podia ter sido melhor, mas não foi ruim. A insinuação sexual aqui tem propósito narrativo, mas existe.

O todo

Histórias Estranhas é uma antologia mais interessante e menos irritante que umas três ou quatro antologias estrangeiras que assisti. Isso não quer dizer que ela seja boa, apenas que antologias geralmente são ruins.

Invisível e Mulher LTDA funcionam de forma satisfatória como histórias completas, mas esta coletânea sofre com a falta de histórias que sustentem as ideias estranhas e interessantes apresentadas.

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