Crítica | O Duplo (2013): uma experiência psicológica

Ficha técnica no IMDb

Um funcionário de uma agência governamental descobre que sua vida toma um rumo terrível com a chegada de um novo colega de trabalho que é tanto seu duplo físico exato quanto seu oposto: confiante, carismático e sedutor com as mulheres.

Quando assimilei que o protagonista era um rapaz retraído, pensei na sinopse do filme e imaginei que a lógica seria como em Clube da Luta. É possível que a previsibilidade atrapalhe a experiência fílmica, especialmente quando o mote da obra é seu plot twist. No caso de O Duplo, a facilidade desse pedaço do entendimento auxilia a imersão, o que torna a obra mais impactante emocionalmente. Deixar o espectador digerindo a ideia por 1h é benéfico para o peso temático.

Fiquei chocado com o suicídio inicial porque achei que aquele indivíduo fosse alucinação do protagonista. Me chocou também o Simon usar aquela ocasião para começar um relacionamento com a Hannah. Ousado e sem noção demais para alguém tímido.

É particularmente engraçado o momento em que a Hannah relata o quanto desgostou de ter um perseguidor, sendo que nós e o Simon sabemos que ele agia de modo parecido. É como um lembrete ao protagonista de que ele não poderia ter um relacionamento com aquela mulher.

Vi O Duplo ser classificado como uma comédia e não sei se isso é bom ou ruim. Ele acabou me chocando muito porque eu não esperava o drama que ele oferece, o que me inclina a concluir que ele não é uma comédia. Por outro lado, há muito humor no filme.

O Duplo é recheado de humor por vergonha alheia, mas não é engraçado a ponto de fazer rir. Me senti assistindo a uma comédia pastelona, como esquetes ou algo protagonizado pelo Mr. Bean. A base desse humor é o comportamento inseguro do Simon e o jeito que o mundo zomba dele.

A presença do James traz um reforço a esse humor com o extremo oposto. Simon mal consegue fazer um pedido no restaurante, enquanto James é ríspido e recebe exatamente o que queria, mesmo não estando de acordo com o horário do estabelecimento.

Esse tipo de humor me lembrou de um trecho de Turma da Mônica em que a avó do Xaveco não o reconhece, mas, em seguida, reconhece o Cebolinha. O Simon é o Xaveco, um personagem escanteado pelo mundo. É interessante ver a dualidade Simon/James, mas o humor serve muito mais para embasá-la do que para fazer rir.

O Duplo tem uma ambientação que me remeteu a um Estado totalitário, mas é algo bem lateral, apenas menções a deveres. A aparência do filme é sempre meio suja e escura, como uma ambientação industrial. A escuridão não é como a chatisse usada em filmes de terror, que recorrentemente dificulta a compreensão das cenas, pois utiliza sombras.

É comum ver o rosto do Simon parcialmente iluminado e isso tem a ver com a personalidade apagada que ele cultivava. Essa parte da iluminação colabora com a sensação de que há algum significado ali além da mera exposição de ações. Não só pelas sombras, mas também pelo uso do amarelo e do azul.

O jeito que os diálogos são acelerados e difíceis de acompanhar, bem como os aplausos ao beijo do James na Hannah, indica que o que vemos no filme não é real, apenas a fantasia do Simon. Mais um ponto que reforça a obviedade da revelação.

Quando chegou a parte em que o Simon pergunta para a Hannah como foi o encontro dela com o James, eu cansei dos diálogos rápidos e da vergonha alheia. A partir daí eu despertei e passei a achar O Duplo meio chato.

O estranhamento inicial do Simon em relação ao James é plausível e a amizade que se inicia entre eles é artificial. O laço evoluiu para um auxílio social e o jogo virou, com o James se envolvendo com a Hannah. Nesse momento, o sentimento do Simon muda.

É interessante a inveja demonstrada por ele quando sabota a noite do James com a aluna. A consequência de sua ação é a tentativa de suicídio da Hannah. Eu não esperava por um diálogo tão pesado quanto o que há entre ela e o Simon sobre ele impedi-la. O humor bobo acaba fortalecendo essa reviravolta.

Outra cena legal é aquela em que o Simon soca o James e ele próprio sangra. Esse seria o momento da revelação, já que o filme não apresenta a verdade de forma clara. Inclusive, expõe detalhes que me pareceram incoerentes com a revelação óbvia. Não encontrei explicação para a aparição do James machucado no final.

Imaginei que o final poderia se assemelhar ao começo, com o suicídio, mas não achei que isso aconteceria, pois não senti que teria a ver com o enredo. Em parte tem, mas não é como se explicasse o suicídio inicial, então ficou meio avulsa essa repetição. Não é ruim, mas eu esperava que significasse algo.

O filme é mais uma experiência do que uma história. A trama não é robusta e não há muito de relevante para comentar em termos de narrativa. O que torna O Duplo relevante é o jeito que ele retrata a mente de um homem inseguro, com dificuldades de socialização e que se sente apagado (lembra do excesso de sombras no filme?), mas que gostaria de ser diferente.


O sentimento criou uma segunda personalidade, a qual catalisou todos os sentimentos negativos do Simon e os tornou maiores. Ele passou a enxergar com uma proximidade maior a pequenez dele mesmo diante do que poderia ser. Essa rotina acentuou sua insatisfação e culminou no suicídio. Confesso que não esperava por esse desfecho, ainda mais num filme tão metido a engraçadinho, mas a execução da ideia foi mais que eficiente.

Li de outras pessoas interpretações diferentes. Há quem diga que o Simon matou o James no final, algo que não me pareceu ter qualquer fundamento. Acredito que isso também se deva às características intimistas e de experiência que o filme contém. Talvez o resultado seja projetarmos os nossos pensamentos naquela situação e, assim, tirarmos nossas conclusões.

Essa perspectiva encaixa na minha percepção de que o filme é mais experiência do que narrativa. Minha visão está um pouco viciada, pois gosto de histórias sobre aceitação, como Coringa e Suicide Room, mas O Duplo acena claramente no sentido da fantasia que enfrenta a dor (como o que é feito em Carrie, A Estranha).

Embora durante a experiência eu visse o duplo como os monstros ID de Turma da Mônica Jovem, puro desejo sem freio, eu enxergava o Simon como o “eu” original. Pensando agora, a cena em que ele puxa papo após o suicídio é tão ousada e maluca que parece digna do James.

Assim como o duplo é o pólo positivo, o Simon é o polo negativo. O que vemos no filme não é apenas um homem retraído que fantasia com o que ele deseja ser, mas a luta entre dois lados de um homem: James, o orgulho, e Simon, a falta de amor próprio. É como a lógica do anjinho e do diabinho tentando convencer uma pessoa a agir de determinada maneira.

Considerando a interessante experiência psicológica propiciada pelo filme, O Duplo é uma obra que vale a pena conferir.

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