Crítica | Anatomia (2000): fraco por ser inconsistente

Ficha técnica no IMDb

Uma estudante de medicina inicia um curso de verão na Universidade de Heidelberg. David está em sua mesa de dissecação. Ela o conheceu um dia antes no trem. Algo está errado.

Anatomia tem um começo com pinceladas de humor funcional. A maior parte desse humor está concentrado na Gretchen, a mulher que fica o tempo todo falando de homem, mas que ficou em primeiro lugar no exame de admissão, enquanto a protagonista ficou em segundo.

Essa é uma agradável fuga do clichê “loira burra” e torna o humor mais robusto. Não é nada muito bom, porém, é notável. Além deste, existem detalhes bacanas de Anatomia que o tornam um filme interessante e feito com esmero. Parcialmente, pelo menos.

Como o doente do coração teve um momento dramático no trem e criou um laço com a Paula, eu passei a me importar com ele o suficiente para considerá-lo um personagem relevante. Assim, fiquei naturalmente apreensivo com a ameaça que a seita representava para ele e torci enquanto ele reagia. Filmes inteligentes não criam momentos fortes com personagens irrelevantes para o público.

O fim dele também é a ampliação do terror do homem que acordou no meio da cirurgia e viu sua mão retalhada. A mesma mão que vemos na estátua. Um toque de terror um pouco mais sutil e que só existe para nós, não para os personagens do filme.

O doente serve de escada para que a Paula fareje o rastro da seita. Uma seita que atua numa universidade em que o avô dela trabalhou. A relação dela com o avô é legal por si só, com bons diálogos, mas era óbvio que ele estava envolvido com a seita.

Ser óbvio não é ruim, pois a execução foi adequada. Especialmente porque, ao que parece, o pai da Paula não o visitava no hospital justamente por discordar da visão da seita. É uma trama familiar lateral, mas interessante o suficiente para contar como ponto positivo.

Anatomia demonstra a inteligência da Paula na pegadinha do trio de novatas. Imaginei que fosse uma piada, mas não usaram o jeito simples padrão de jumpscares idiotas. Em vez de ser uma pessoa se fingindo de morta, o corpo estava sendo eletrocutado e isso o fazia se mexer.

Como a trama envolve uma sociedade secreta, é muito empolgante ver que a protagonista é uma pessoa inteligente. Ela percebe que há algo de errado com o sangue do doente, pede a um amigo para analisar e descobre a existência dos anti-hipocráticos. Só isso mesmo.

A inteligência da Paula acaba a partir do ponto em que ela descobre que determinada droga ajuda a produzir estátuas anatômicas. Depois disso ela não avança em nada e não elabora nenhum plano de ação para lidar com a seita, embora seja explicitamente ameaçada por eles.

Pior que o término precoce da investigação é a postura que a Paula assume assim que o Franz, o maluco do filme, entrega o dedo da Gretchen para ela. Na hora ela o chama de psicopata e repete algumas vezes, como se isso pudesse resolver o problema.

Vale ressaltar que, mesmo após saber que a seita a havia marcado, a Paula falava sobre a situação com outras pessoas sem temer que a seita soubesse exatamente o quanto ela sabia e decidisse eliminá-la.

Além disso, ela saiu perguntando pela Gretchen, como se o Franz tivesse motivo para mentir ou cortar o dedo da Gretchen e soltá-la como se estivesse tudo bem. A Paula não apenas deixa de tornar o filme interessante como trabalha ativamente para que ele se torne chato.

Outra ilha de chatice é quando Anatomia resolve ser um slasher e coloca o Franz para correr atrás da Paula. Toda a meticulosidade interessante fortalecida pela ambientação do filme vai por água abaixo numa perseguição que parece feita num prédio abandonado, não na universidade de outrora.

O desfecho da perseguição é o vilão aparentemente estar derrotado, retornar e tomar um golpe que, pela perspectiva, põe em dúvida quem foi atingido. Se esforçaram para deixar o final irritantemente clichê.

O fim do filme finge que Anatomia é um romance e coloca a protagonista e seu namoradinho para darem uns amassos. Eu estava achando horrível esse desfecho, por não esclarecer o que ocorreu com a seita e com a Paula, mas algumas respostas vieram depois.

A cena pós-créditos revela que a polícia chegou à universidade, mas a sociedade secreta continua existindo. E a novata que conhecemos quando o corpo se mexe faz parte, sendo este um pequeno capricho do roteiro. Corrige o problema da falta de resolução para a trama, mas o faz de maneira dissociada da protagonista, piorando a Paula ainda mais.

Além das burrices que já mencionei, um momento muito estranho da Paula é quando ela está preocupada procurando pela Gretchen, vê o paquera e faz sexo com ele. Houve momento mais adequado para isso e ela não quis, o que torna tudo mais esquisito.

A cena provavelmente só existe para ela ver os papéis da seita e achar que o paquera fazia parte, dedução que poderia existir com uma simples xeretada padrão de filme de terror. Achei a revelação previsível e gostei. A contra-revelação me surpreendeu e soou aceitável.

Um ponto legal de Anatomia é o julgamento do Franz. Por mais que os anti-hipocráticos matem pessoas para pesquisar, eles possuem regras e não saem matando qualquer um, como o Franz fez. É um conflito vilanesco interessante.

Tirando a guinada slasher, Anatomia é interessante e possui poucos detalhes desagradáveis, além da infeliz escolha do terço final da obra. Ao término do filme resta o gostinho amargo do que era legal e deixou de ser.

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