Crítica | A Bela e a Fera (2017): bonito e convincente

Ficha técnica no IMDb

É possível dividir parcialmente A Bela e a Fera em quatro partes: narrativa, musical, cores e romance. Elas se misturam e se impactam, mas são perceptíveis dentro das especificidades de cada uma. Um estudioso de cinema diria que isso é básico, mas nem sempre essas relações são facilmente identificadas pelo público. A parte musical é a que se destaca de modo mais gritante e faz valer a menção às demais partes.

Narrativa

O filme inicia com uma narração que resume a história. A narração até cabe num conto de fadas, mas a revelação do que rompe o feitiço me pareceu um tiro no pé, pois poderia ser descoberta ao longo do filme. Senti que isso deixou o começo expositivo demais. Alguém pode dizer que todo mundo conhece essa história, então não faz sentido criar mistério, mas filmes precisam fazer sentido com ou sem conhecimento prévio do público (a não ser que seja uma franquia).

A falta de hospitalidade da Fera custou sua aparência e a lembrança das pessoas, pois a feiticeira fez os outros se esquecerem dele. É uma punição interessante que funciona como lição de moral para o espectador, isso nos primeiros momentos do filme. E a reflexão sobre o comportamento das pessoas é um tema sutil de A Bela e a Fera.

A Bela é apresentada agindo e falando de forma arrogante. Estranhei essa aura por parecer incompatível com o posto de “princesa” ocupado por ela, mas o resto da ambientação da aldeia justificou a postura e a tornou válida. As piadas com o Gaston aparentando ser burro ganham um ar positivo por causa do humor que ele carrega enquanto pretendente chato, mas existe uma carga de seriedade chamativa no momento em que duas pessoas reprovam o fato de a Bela estar ensinando uma garota a ler.

É possível perceber apenas a leveza, mas existe ali uma burrice generalizada que valoriza a burrice e rechaça tentativas de progresso. Não falo sobre a bobagem do culto à livros, sendo que livros ruins e rasos em conhecimento existem, mas a alfabetização em si. Não ter essa habilidade limita o potencial de aprendizado e de interação com o mundo. Ir contra essa ferramenta é como querer impedir as pessoas de acessarem um novo nível básico de intelectualidade.

O filme praticamente não explora esse ponto tão sensível que é o analfabetismo, mas abordou o suficiente para eu gostar. Pinceladas temáticas, se bem feitas, podem ser positivas.

A cena dos lobos perseguindo o pai da Bela e a pouca aparição da Fera são suficientemente assustadoras para contrapor a alegria do lado amarelo do filme. A Fera convence enquanto ameaça e é crível a visionária Bela escolher ficar presa no lugar do pai. No fim das contas, ele foi capturado por roubar a rosa que ela queria. E não é como se ela quisesse continuar vivendo na aldeia, então tudo bem.

O castelo estar cheio de objetos falantes colabora com a aura de fantasia e rende o bom momento em que a Bela pergunta para uma simples escova qual é o nome dela. É uma reação natural e uma boa piada, o que eu espero de alguém naquela situação. O filme tem outras piadinhas, geralmente bobas. Uma que se destaca é aquela em que a Bela joga uma bola de neve na Fera e recebe uma bolada tão grande que a derruba no chão. Eu ri de verdade com essa.

O que move o lado da Bela com a Fera é a saga do lumière e do relógio para fazê-los se apaixonarem. Os objetos saberem que a única chance de quebrar o feitiço e viver como antes é esse laço existir justifica a jornada, mas cria alguns problemas no romance, os quais abordarei depois.

A crueldade do Gaston de deixar o pai da Bela para morrer foi um exagero inesperado. Ciente disso, o roteiro fez o amigo dele questionar a escolha por deixá-lo como comida de lobo. É satisfatório ver que o que me parece absurdo também parece absurdo para um personagem do filme. Assim eu consigo levar a história mais à sério.

Tem todo o miolo do filme que tem mais a ver com o romance, o que preferi comentar separadamente. No geral, parece que o problema do pai da Bela com o Gaston existe para dar dinamismo ao filme e evitar que ele fique chato, sendo apenas a estadia da Bela no castelo.

Isso é consequência de a Fera não ser uma ameaça. Sem um “outro lado” para movimentar a trama, o risco seria o espectador sentir que é tudo morno e fácil demais. Histórias sem desafios tendem a entediar as pessoas.

Partindo para o final, é surpreendentemente romântico quando a Fera diz que a Bela pode ficar com o espelho e que assim poderá olhar para ele. É uma fala que pode ser vista como narcisismo, mas eu interpretei mais como uma sugestão de que o espelho manteria o laço deles, os manteria unidos. Fora que é coerente e bacana a Fera deixar a Bela ir ver o pai, que está em apuros.

Isso reflete bondade e confiança, pois a Fera não sabia se a Bela voltaria e não teria como localizá-la sem o espelho. É uma competente demonstração de humanidade e de sentimentalismo real, pois o verdadeiro amor não aprisiona. E se é preciso aprisionar, então o amor não existe. Ou pelo menos não é recíproco.

O sensacional é que o espelho também serve para a Bela provar a existência da Fera e para o Gaston virar o povo contra a Bela. O espelho é um objeto que serve para propósitos narrativos e temáticos. Filme bem pensado é outro nível. Fiquei super empolgado com os apuros enfrentados pela Bela e a iminência de um ataque covarde à Fera.

Nessa parte a Bela diz que a Fera é gentil e eu percebi o óbvio: a crueldade do Gaston com o pai da Bela é uma demonstração de que ele é um monstro por dentro. O mesmo monstro que as pessoas veem na aparência da Fera. É uma dualidade óbvia, porém boa. Outra dualidade boa é a do azul com o amarelo, que comentarei mais a fundo em tópico específico.

Como aprendi a me importar com tudo dentro do castelo, especialmente por causa dos objetos falantes, fiquei bem tenso com a tentativa de invasão. A luta no salão e a subida do Gaston são um momento épico e empolgante. A coreografia é legal e os objetos usam suas armas, como o bule jogando chá quente e o guarda-roupa vestindo 3 homens. Rola uma piada com 2 deles desgostando das roupas e 1 gostando, a qual não sei dizer se é engraçada ou boba.

O que atrapalha a ação é a escuridão da noite, mas multidões com tochas aumentam o clima de terror.

No ápice da batalha, a Fera poupa o Gaston por não ser um monstro. Por outro lado, o Gaston atira na Fera pelas costas por ser um monstro. Gostei da sequência e senti o drama, mas achei preguiçoso terem eliminado o Gaston com o desmoronamento em seguida. É um jeito muito fácil e conveniente de eliminar o vilão sem que o herói precise sujar as mãos.

A noite da invasão era também, convenientemente, a última noite antes da maldição ficar inquebrável. É muito triste e bem detalhada a cena em que os objetos viram apenas objetos. O bule mãe com a xícara filho é de partir o coração e eu aprendi a gostar da amizade do lumière com o relógio. Os musicais me ajudaram a sentir esse momento.

Acho conveniente também a feiticeira estar lá bem na hora da declaração da Bela, mas ela devia estar no castelo por ser o último dia da possibilidade de reversão da magia, então é aceitável. A conveniência anterior é perdoável pelo peso dramático e esta pela necessidade narrativa.

A feiticeira vê que a condição para a quebra do feitiço foi cumprida e todos vivem felizes para sempre… pouco após tentarem destroçar pessoas importantes para eles na invasão do castelo. Isso faz os reencontros serem, ao mesmo tempo, bonitos e assustadores.

Final com dança e música é justo para um filme tão musical. Só estranhei que o Príncipe estava de azul, mas a Bela não estava de amarelo. Seria o final perfeito para uma narrativa redonda.

Musical

Eu não gosto de musical porque me incomoda a ideia de colocar personagens para cantar sem motivo. Uma coisa é música e coreografia na cena inicial do príncipe, que é uma festa. Outra coisa é o pessoal da vila cantar e meio que dançar sem motivo. Eu desgosto em essência, mas é bem executado e o clima alegre combina com a paleta amarelada e quente, com um toque fantasioso.

Se por um lado me incomodou o tempo gasto com musical, pelo outro eu gostei do jeito que caracterizaram a Bela como leitora, insatisfeita em estar naquele lugar e uma pessoa que os demais estranham, chegando a desgostar. Isso reforça aquele detalhe do analfabetismo.

Conste nos autos que é legal quando todo mundo para e só a Bela continua se movendo no musical da primeira aparição do Gaston.

Musical com propósito: o amigo do Gaston vê que ele está deprimido e começa um musical para lembrá-lo do quanto ele é incrível. Descobrimos que ele é um grande caçador e rola uma piada com o amigo não saber soletrar o nome do Gaston, detalhe que tem a ver com o sutil tema do analfabetismo.

Continuo não gostando e tempo demais gasto com musical reduz a qualidade da minha experiência, mas pelo menos o filme trabalha as características principais dos personagens e detalhes de ambientação em alguns deles. Ele planta a condição de caçador do Gaston para colher, no final, a caçada à Fera.

O musical gigante do jantar me incomodou demais pela longa duração e falta de conteúdo. Ele é bonito, bem colorido e revela que há anos o castelo não tem uma convidada. Isso justifica, de certo modo, o empenho deles em servi-la. Não é o suficiente para eu achar válido, no entanto.

Ter musicais dizendo que algo está mudando e que a Bela está sentindo algo estranho sabota o romance. A verbalização tira a escalada sutil que é essencial para que o laço seja convincente.

Do mesmo modo, o amigo do Gaston sugerir que ele está se tornando um monstro é o tipo de obviedade que atrapalha a qualidade da sacada. Sendo sutil fica melhor. Principalmente porque a sutileza seria só não dizer com todas as letras, pois o Gaston claramente é um monstro.

Cores

A cena inicial do filme tem uma transição interessante entre uma paleta de cores mais quente durante a dança e uma mais fria quando a feiticeira chega. Essa variação entre bem-estar e mal-estar funcionou pra mim.

Quando assisti Turma da Mônica – Laços, saltou aos meus olhos a onipresença do amarelo. O impacto mais forte que guardei desse amarelo foi a alegria fantasiosa, a qual captei também na parte da aldeia em A Bela e a Fera. O resto do visual contribui para essa percepção, mas quando a Fera pegou o pai da Bela eu vi uma oposição óbvia entre o azulado sombrio da noite e o amarelo alegre do dia.

Devido a isso, decidi chamar o lado da Bela de “amarelo” e o lado da Fera de “azul”, embora o dia no castelo seja mais branco do que azul. Os lindos trajes de ambos no baile me fizeram perceber que essa era a intenção da direção de arte. Eu não sou ligado em Disney e não sabia que ambos teriam tais cores, então foi uma surpresa positiva.

Há alguns momentos de destaque para esse contraste. Quando a Bela sai do castelo para ver o pai está com o vestido e é um ponto amarelo na imensidão azulada. No fim do filme, a magia amarela da feiticeira substitui o azul do castelo e desfaz a maldição.

Romance

Com a premissa que tem, é evidente que o romance é um elemento importante do filme. Se considerarmos que o amor proposital não é real, faz todo sentido os objetos esconderem da Bela o jeito de quebrar o feitiço. O problema é que a Fera sabe, o que torna o romance proposital e o enfraquece. Enfraquece pensando na lógica da mudança interior que valida a quebra do feitiço e enfraquece a visão de A Bela e a Fera como um romance.

A Fera protege a Bela no ataque dos lobos,  atendendo ao interesse que possui no amor dela. Quando a Bela o ajuda e tenta cuidar de seus ferimentos está sendo grata à proteção que recebeu. É um primeiro movimento coerente e válido. Um jeito funcional de iniciar o laço entre eles.

Em dado momento, depois de 1h de filme, a Bela recita Shakespeare aleatoriamente. Por ser uma fala relacionada a amor, achei muito precipitado, pois ela ainda devia estar distante desse sentimento. A Fera entende a referência e o papo leva ambos à biblioteca imensa dele. Em 1h de filme eu imergi o suficiente na perspectiva da Bela, uma ávida leitora em um mundo que rejeita bruscamente a leitura, para sentir o peso emocional do papo sobre literatura e a entrada na biblioteca. Para um romance ser convincente, os pontos de virada emocionais precisam ser bons e este é.

No final do filme, a declaração de amor da Bela pode ser real porque foi uma noite de fortes emoções para ela (pelo desejo de proteger o pai e de proteger a Fera). Os dois sentimentos se misturam, se potencializam com a perda da Fera e ela passa a gostar verdadeiramente dele. É plausível e eu gostei muito.

O miolo do romance é um pouco apressado, a música sobre “algo estar mudando” é uma explicitude burra e a Fera saber como quebrar a maldição é outro problema do lado romântico, mas o desfecho é muito bom e natural, bem como os pontos de virada citados.

Considerações finais

Não sei até que ponto eu super interpretei o uso do amarelo e do azul, mas isso melhorou muito a minha experiência. O que o filme tem de negativo são os detalhes mencionados no parágrafo anterior e o fim convenientemente acidental do Gaston. No mais, eu gostei muito do filme.

A Bela e a Fera é uma história de romance e fantasia que sabe pontuar o romance de modo que ele seja consistente e convincente. Sem deixar a peteca cair, o filme permanece interessante com o perigo representado pelo Gaston e sustenta habilmente a ambientação fantasiosa com sua direção de arte e seus musicais (ainda que eu desgoste de musicais).

Observação: o final do filme me lembrou do final de Shrek Para Sempre, o qual me marcou muito. Pelo que me lembro, é um desfecho mais romântico que o de A Bela e a Fera.

Observação 2: seria melhor se o efeito do amor fosse automático, sem a feiticeira estar lá observando. Tornaria ainda mais convincente.

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