Crítica | Um Clássico Filme de Terror (2021): feito de qualquer jeito

Um grupo de pessoas está viajando para algum lugar quando, de repente, o trailer bate em uma árvore e os personagens acordam no meio do nada, sem sinal de celular e perto de uma casa abandonada.

Desde a primeira vez em que li o título do filme senti que era demasiado prepotente. É claro que existe uma lógica interna para a frase, mas, antes de assistir, o que fica é a impressão de que o filme se autoelogia. Isso aumenta a expectativa e a exigência de qualidade.

Um Clássico Filme de Terror tem a clara intenção de ser um filme de terror metalinguístico. O problema é que ele faz isso de qualquer jeito com uma trama jogada que depois ele finge que não existe.

No afã de ser metalinguístico, o roteiro descarta elementos interessantes e faz uso de outros de forma incompleta, o que é perfeitamente exemplificado pela cena final da protagonista, a qual não significa nada para o filme e sequer possui justificativa.

O Blog do Kira já analisou o filme Circus Kane, o qual eu elogiei pela proposta metalinguística que justifica adequadamente os defeitos de execução do filme, pois um bom plot twist me fez gostar da obra.

Outro filme metalinguístico, este ainda não analisado por mim, é O Segredo da Cabana. Ele embasa tão fantasticamente o terror metalinguístico que está entre os meus filmes preferidos, mais ou menos como A Hora do Pesadelo 7. Um se constrói bem e o outro se vale de uma franquia consolidada para brincar com os elementos da obra e os atores.

E não é preciso ser um filme sobre os bastidores ou sobre a construção dos clichês para beirar a metalinguagem. Uma Noite Maldita é um dos meus filmes preferidos e reúne diversos elementos recorrentes do cinema de terror em uma história legal bem conduzida até seu desfecho.

Vale citar o Bandersnatch, o filme interativo de Black Mirror que trabalha a ilusão do poder de escolha do espectador. Esta lista de filmes metalinguísticos (ou quase) é uma demonstração de que é possível fazer um bom filme com essa proposta de brincar com os clichês do gênero e que a própria Netflix já criou algo incrível com metalinguagem.

Dito isto, considerando a sua proposta, Um Clássico Filme de Terror é bem ruim. A única parte boa dele é a cena final que estabelece que o que vimos é um filme para a Bloodflix, a Netflix da deep web.

O problema central do filme é que ele usa um caminho todo torto para chegar a essa boa cena, o que acaba prejudicando a experiência e o sabotando.

É gigantesco o banho de água fria que vem com a revelação de que era tudo um filme. Toda a ambientação sobrenatural, o fato de eles estarem numa dimensão paralela de espíritos e servirem de sacrifício era instigante. Eu queria entender a lógica do lugar, como eles poderiam sair e como exatamente eles foram parar lá.

Além de a metalinguagem arrebentar a tensão, entrega respostas pouco satisfatórias para as interessantes questões que o enredo havia suscitado. Não somente o sobrenatural que era tudo armação (especialmente decepcionante considerando o looping espacial que eu tanto gostei em Vivarium, Coraline e o Mundo Secreto e El Incidente), mas a cena inicial também.

O clichê da demonstração genérica do terror não faz sentido se tudo durante a trama é armação. E, obviamente, o filme contém clichês. O mais irritante deles é a história dos cavaleiros que o motorista conta num péssimo diálogo expositivo.

Ele tem uma cena em que a protagonista está numa cadeira junto com pessoas que estão almoçando ao ar livre num dia de sol. É uma união das ruins cenas de jantar da franquia O Massacre da Serra Elétrica com a ambientação do ruim Midsommar.

Só que a cena consegue ser ainda pior que os originais, pois, na franquia dos canibais, as vítimas serão comidas futuramente pelos vilões. Já em Midsommar a ideia é desenvolver a estadia de um grupo de amigos numa tribo excêntrica. Em Um Clássico Filme de Terror não há qualquer significado além da mera referência.

E o filme não é simplesmente um filme genérico devido a essa união de elementos de filmes slasher, filmes mais psicológicos e outros mais cabeçudos. O resultado é uma salada de conceitos amarrada pelo mistério sobre o lugar em que os personagens estão e como eles sairão de lá.

Quando a garota escreve para a protagonista que aquilo não é uma floresta, eu já supunha que era uma dimensão paralela. Além da explicação imbecil de que era tudo armado, ou seja, eles realmente foram levados a andar em círculos pelo motorista, há o problema óbvio de a garota não explicar o que é o lugar e a protagonista não se importar em falar com os demais sobre essa informação.

Os personagens não são conduzidos bem o suficiente para eu me importar a fundo com eles, o que fez eu me desconectar emocionalmente da cena em que eles conversam sobre suas vidas (sem ter um bom motivo para tal).

Nessa cena, o doutor fala uns detalhes de vida irrelevantes, a secundária fala algo interessante e o motorista conta uma piada que brinca com ele ser mafioso. No fim, aparentemente, ele realmente era um mafioso, o que torna a piada mais engraçada. Poucas coisas são positivas no filme.

E a lógica também atrapalha o desempenho da justificativa. É difícil acreditar que, a qualquer momento, bastava alguém do grupo ignorar o motorista e andar em linha reta que iria conseguir sair de lá.

Não faz o mínimo sentido o motorista conseguir regular com tamanha perfeição a batida do trailer para que eles ficassem desacordados pelo tempo necessário sem morrer e bebesse também a quantidade necessária. Não que seja incoerente, mas é muito tirado da cartola só para fazer o plot twist metalinguístico.

Se o motorista os tivesse levado como oferenda teria sido muito melhor.

Um problema advindo da guinada metalinguística é a mudança do tom do filme. O motorista fica histérico sem motivo e tem um diálogo expositivo chato pra chuchu com a protagonista sobre o plano dele. O pior desse diálogo é que ele só serve para explicar a história para o espectador, pois aquilo é irrelevante para ambos os personagens.

E essa é a tônica do filme. Um monte de coisa que é feita de qualquer jeito só para fazer o plot twist de “era um filme o tempo todo”. Twist tal que justifica o jeito fácil que a protagonista se livrou da cadeira e matou os diretores. Ser justificado não o exime de ser ruim e estava na cara que a ideia era encerrar mostrando aquilo como parte do filme, o que torna tudo pior.

E a cereja estragada do bolo de lixo é a protagonista começar a seguir um garoto por motivo nenhum, chegar a uma praia e ser intensamente filmada pelos banhistas e se jogar na água, provavelmente se suicidando. Não tem motivo, não tem lógica, é só completamente jogado.

E eu achando que o aborto dela teria algo a ver com a trama sobrenatural.

Nesta crítica eu citei muitos filmes, mais do que de costume. O fiz não apenas por terem características similares às do filme analisado, mas também porque, enquanto eu o assistia, tinha a impressão de que outras obras, mesmo as que digo que são ruins, usaram as mesmas ideias de forma mais interessante e honesta com o público.

O presunçoso Um Clássico Filme de Terror é um punhado de roteiro irrelevante usado para embasar um twist ruim que desemboca numa cena final legal. No geral, um dos piores filmes que já assisti. A ruindade dele não é só incompetência, é desleixo e prepotência.

Observação: foi muito imbecil a inserção da máfia no final. Há tempos eu não me irritava tanto com um filme.

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