Crítica | O Último Dia (2016): nem tem tempestade

Ficha técnica no IMDb

O nome original do filme é Heimatland e é possível encontrá-lo como Wonderland. Muitas vezes, quando pretendo escrever sobre filmes do Prime Vídeo, acontece de eu descobrir que o título no Prime é diferente do título real do filme. Além deste problema, O Último Dia contém outra dificuldade propiciada pelo Prime Vídeo: a sinopse.

Entre sinopses incorretas e que revelam demais sobre a obra, destacam-se as que enganam o espectador, fazendo-o supor que o filme é de um jeito, sendo que ele é de outro. 

Eis a sinopse no Prime Vídeo: uma tempestade apocalíptica ameaça devastar um país inteiro. É decretado estado de emergência enquanto o caos estiver instaurado.

Com uma descrição dessas e classificado como “ação”, associei O Último Dia a grandes filmes de desastres naturais, como 2012 e Skyfire. Minha expectativa destruiu a experiência e acabei detestando o filme. Teria sido diferente se eu tivesse lido a sinopse do IMDb.

Eis a sinopse certeira: dez diretores de uma nova geração de cineastas contam como as pessoas na Suíça lidam de maneira diferente com o pior desastre imaginável, o fato de ser dependente de outros países.

Diferente da outra, que sugere ação, esta sugere uma metáfora para o povo suíço. Tudo aquilo que não me interessa e que eu não entendi talvez seja apreciado por quem conhece a Suíça o suficiente para captar a mensagem. Não necessariamente o filme é ruim sob este prisma, mas, sob o prisma da diversão, ele é um fracasso. Ou, sendo devidamente específico, um fracasso para mim.

Esse problema da sinopse e da expectativa deturpou demais a minha visão da obra, mas toda esta experiência é relevante e tem a ver com problemas similares que muitos enfrentam em algum momento. Há quem diga que a Netflix também vacila em suas sinopses.

A cena de abertura do filme parece ser um passeio pela região atingida pela tempestade. Isso ampliou minha expectativa, mas tive a impressão de que o ambiente não condizia com os efeitos causados por uma tempestade. No fim das contas, a cena ficou com esse gostinho incondizente.

Eu estava tão empolgado com a premissa de um filme sobre uma tempestade apocalíptica que continuei a assistir, mesmo após a segunda cena ter sexo. Não é sempre que ignoro meu incômodo com tais cenas. Mais tarde, o foco volta para provavelmente o mesmo casal despido, com direito a nu frontal masculino. A única serventia dessas cenas é ter uma ligação com o final do casal, mas não é o suficiente para que tenham valor.

Em seguida, a conversa do motorista com o passageiro tem um tom pessimista inesperado. Depois desse momento eu comecei a me irritar com as trocas de núcleos. A princípio achei legal o jeito que o filme colocou um monte de gente que eu não conheço fazendo coisas que eu não ligo entre as cenas que sugerem que a tempestade vem aí.

Só que a cavalgada narrativa torna os personagens pouco importantes e dificulta a imersão na história. A Alice e a mulher eu não entendi a interação e parece que elas somem, assim como o núcleo da empresa, que imaginei ser o principal. O resultado é uma salada de personagens irrelevantes com alguns pontos interessantes aqui e ali.

No supermercado, é interessantemente sutil a demonstração de que há uma regra do tipo “quem pegou primeiro leva”. Isso, somado à escassez e à correria, fundamenta a sensação de desespero. O golpe no rosto do homem que se recusou a sair do mercado é acompanhado pela evolução da tensão do funcionário.

O filme constrói bem a expectativa quanto à tempestade, mas o fato de eu não conhecer os personagens faz com que eu não me importe com as situações, as quais geralmente são confusas.

Há uma cena com um discurso efusivo em alemão que cativa uma multidão, exalta a pátria e sugere que estrangeiros são potenciais inimigos. Qualquer semelhança disso com o nazismo não deve ser mera coincidência. Eu preferiria que tivesse ficado como um discurso religioso, como o que há em O Nevoeiro. Esse trecho embasa a bem executada e confusa perseguição de carro.

Há muitos momentos silenciosos longos que capricham na atmosfera pesada de desesperança. Outros momentos são mais frenéticos, de bagunça e correria. Essa balança fica satisfatoriamente equilibrada durante a maior parte do tempo, como uma eficiente preparação. Preparação que é permeada com menções à tempestade.

Vemos as pessoas observando a nuvem, estudiosos discutindo os impactos da tempestade, os moradores se preparando para lidar com ela e recebemos a bizarra informação de que a nuvem misteriosa cobriu apenas a Suíça. Eu queria uma explicação melhor do que “o filme é uma metáfora sobre a vida na Suíça”.

Apesar de esperar uma explicação que não veio, o mistério é até cativante. Por isso a descoberta sobre o propósito do filme é tão frustrante.

Há um momento em que a policial encontra um sujeito no subsolo de algum lugar e eu não fazia ideia de quem ele era. Me perguntei se tinha deixado passar algo ou se o filme seguia jogando informações sem contexto. O desfecho da alucinação foi óbvio, porém interessante, e se ligou ao final da policial.

Surgem umas pessoas passando lama no corpo. Quem são? Por que o fazem? Nem tenho ideia.

Numa sequência bem curiosa, o passageiro do começo ajuda o motorista na fuga do país, mas a fronteira é fechada para suíços e eles se separam, pois os não-suíços continuam podendo passar para o lado seguro. Mais um ponto interessante que eu esperava ser concluído de forma concreta com a chegada da tempestade.

Com a tempestade se aproximando, o filme faz uma amarração de parte do que havia mostrado. Há pessoas que foram para a orgia, outras que foram para a igreja e uma se suicidou. Eu não me importava com os personagens o suficiente para me importar com essa amarração, mas ela é pelo menos coerente com o que foi apresentado deles.

A cena final tem uma estrada e algo parecido com um paredão. Nenhuma explicação aparente.

Na metade do filme eu imaginei que a tempestade viria só no final. Tudo bem que a intenção do filme é apenas retratar o último dia da Suíça, mas se era para não mostrar a tempestade nem explicá-la, podia pelo menos ter usado os personagens de modo mais interessante. O Último Dia larga o lado corporativo que dava a entender ser o núcleo principal e não faz nada minimamente relevante com os demais.

Ele pode ser eficiente em mostrar o pré-apocalipse, com aquela sensação de desesperança, mas é uma péssima experiência cinematográfica. A pior parte dele é ter sido classificado como o gênero “ação” no Prime Vídeo. Se o gênero fosse drama, o choque não seria tão grande para mim.

A sinopse no IMDb explica a falta de história e a leitura prévia dela faria a experiência não ser tão ruim, mas o problema da grande quantidade de personagens mal utilizados se manteria. Babel é um filme com vários núcleos igualmente relevantes e não é essa bagunça.

O Último Dia é tempo perdido. E nem tem tempestade, só uma ventania.

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