Crítica | Hypnotic (2021): senhor e senhora burrice

Ficha técnica no IMDb

Sentindo que sua vida está estagnada em todos os aspectos, Jenn busca ajuda na hipnoterapia. Só que acaba envolvida em um jogo psicológico mortal.

Tenho a impressão de que a cena de abertura induz o espectador a achar que o filme é uma variante de Jogos Mortais, graças à sua pouca informação, ao medo e ao desfecho das paredes se aproximando, rumo a um esmagamento. Esse ar brutal é incompatível com a premissa de um “jogo psicológico” e pode guiar a expectativa, atrapalhando a experiência.

Fiquei incomodado com as cenas vergonha-alheia da festa do início do filme, mas achei bom o momento em que a Jennifer impede o Brian de ingerir um alimento pelo risco de uma reação alérgica. É uma forma bem eficiente de demonstrar que ela se importa com ele e já se importou. Havia um clima de briga de ex-casal, mas o roteiro conseguiu inverter a percepção. É o tipo de virada que amplia a minha conexão com a obra.

Com a ligação emocional estabelecida, a conversa sobre o relacionamento e a surpresa com a noite do casal se tornam relevantes e, até certo ponto, interessantes. Há muitos filmes que não conseguem fisgar a minha atenção como Hypnotic conseguiu neste início.

Quando o terapeuta diz que segue as regras 99% das vezes (ou é do tempo), é um comentário válido para a situação e serve como embasamento para a futura reviravolta. Para alguém que não leu a sinopse, deve ser um ponto positivo de destaque.

O local da consulta é exageradamente estranho, suspeito e aquela mulher bizarra torna tudo pior. Não é uma pista sutil, como a referida fala do terapeuta. Além de anular o ponto positivo anterior, tal caracterização me descolou do filme e me desanimou. Senti cheiro de filme que não se leva a sério.

Não que filmes precisem ser sempre sutis, mas ele não escolheu a área cinzenta e partiu para uma caracterização parodiesca estilo Premonição 3. Por outro lado, a morte do filho é um bom motivo para a Jenn fazer hipnoterapia, o que o torna um ponto de virada eficiente.

Durante a consulta, papo vai, papo vem e o terapeuta sugere que a Jennifer convide o Brian para jantar. A lógica de enfrentar o medo é real, mas é evidente que havia um risco muito maior de o encontro piorar as coisas para ela do que de melhorar. Senti que este passo foi um exagero. O primeiro de vários que afligiriam o filme.

Num momento a Jenn está falando no telefone e no outro já acorda com uma sensação ruim. O lapso temporal incomoda e explicita que há algo de errado, mas o uso de uma trilha sonora que parece ser o som de algo atrapalha a compreensão da cena. O espectador pensa que algum movimento será revelado e não é o caso.

A revelação é bombástica, mas não segue do que o som sugeria. Esse conflito de informações é inaceitável. O que fica primeiro é a confusão relacionada ao que houve. O que fica depois é a ruindade da escolha.

A protagonista ter causado uma reação alérgica no Brian é uma boa escolha, pois tem a ver com a cena da festa. Quando uma cena é boa e seu conceito é resgatado posteriormente, ela fica melhor e a do resgate também.

Não sei se ela teve flashes de memória ou se era só para o público, mas o fato é que a Jennifer usa o mágico mundo da internet para pesquisar sobre o terapeuta e problemas causados por hipnose. Ela descobre uma porção de informações relevantes, apresenta-as como evidências de que há algo de errado com o terapeuta e a amiga dela reage como se não fosse nada de mais. É surreal. E não foi dito que ela foi hipnotizada para confiar no terapeuta, então é só uma escorregada do roteiro.

A pesquisa ampla é um bom jeito de jogar a Jenn contra o terapeuta. É uma lógica mais orgânica do que os livros convenientes e as pessoas que sabem de tudo, tradicionais no gênero terror.

O papo bem construído com o detetive faz conexão com a problemática cena inicial e a explica, esclarecendo que o terapeuta matou aquela mulher de medo. Não apaga o defeito do exagero visual, mas é uma boa sacada. Correções racionais nem sempre afetam os desvios emocionais.

O jeito que a Jenn pede uma consulta fora de hora e não justifica bem o pedido de hipnose me incomodou na hora. Era uma grande burrice. Era uma armadilha mais óbvia do que poderia ser, especialmente considerando que o terapeuta é inteligente.

De forma satisfatória, a gravação da sessão revelou que o terapeuta perguntou o que a levou a ir para a consulta e ela disse que foi para gravar e saber o que acontece durante a hipnose. Não tira a irritação pela burrice da protagonista, mas se não acontecesse, seria outra escorregada do roteiro.

Em seguida, a Jennifer nos brinda com mais uma dose de sua burrice. Se ela sabia o risco que o terapeuta representava, por que não falou imediatamente para a amiga que ele descobriu tudo? É um clichê terrível isso de os personagens não serem claros sobre as situações e acabarem falhando na tentativa de evitar o pior. Isso tira o peso de momentos que deveriam ser tensos.

A retomada da aranha como sendo o grande medo da amiga é positiva. O acidente foi inesperado, mas o lado positivo foi se diluindo com a ruim cena da Jenn chegando ao local. Ela é desnecessariamente longa e acompanhada por uma trilha sonora exagerada. O filme exagera recorrentemente nas trilhas sonoras de tensão. Não chegam a estragar o clima, mas cansam.

O não tão brilhante detetive chega ao covil do vilão e aceita um drink. Esse filme é um concurso de burrices ambulante. Por mais que ele quisesse pegar a colher para ter as digitais do terapeuta, havia o risco de acabar dopado. Indo além na estupidez, ele explica ao vilão que percebeu um padrão em suas vítimas. O que ele ganhou com isso? Absolutamente nada. O que ele perdeu com isso? O efeito surpresa. Esse é o pior detetive do mundo.

Eu não sou especialista em hipnose, mas acho que não dá para paralisar alguém surgindo subitamente e dizendo para a pessoa parar. O camarada é um terapeuta ou um X-Men? E ele continua com sua magia.

A Jennifer tem uma sessão de terapia para descobrir o que aconteceu durante as sessões com o vilão, mas ele plantou uma armadilha anti-genjutsu nela e a protagonista acabou presa dentro da própria mente, numa situação que me lembrou o Sylar, de Heroes. Exageraaaado.

De modo extremamente conveniente, a armadilha mental deu à Jennifer pistas para seguir no rastro do terapeuta. Lógico que ela foi sozinha até o casarão no meio do mato e o terapeuta pegou ela lá. Que protagonista mais toupeira.

Citei Heroes porque até o objetivo do terapeuta é parecido com o que aconteceu na série. Ele queria colocar memórias na mente da Jenn e fazê-la ocupar o papel de outra pessoa, que é o que o Matt Parkman tentou fazer com o Sylar. É um objetivo consistente, mas é difícil gostar de Hypnotic com tanta burrice partindo dos personagens principais. Burrice e incompetência.

Uma maluca zumbificada conseguiu pegar o detetive de surpresa e acertá-lo várias vezes. Quando ele descobriu que a pista do consultório foi forjada pelo terapeuta, decidiu ir sozinho ao casarão. O detetive é tão burro que ainda fez barulho quando entrou e alertou o terapeuta.

Se houvesse risco de vida, entenderia a pressa dele, mas ele sabia que o terapeuta provavelmente não pretendia matar a Jenn. Aí o detetive é pego de surpresa, tem dificuldade na luta corporal e a nossa heroína atira nele sem querer. É de fato um concurso de burrice. E o vencedor é o detetive, pois a profissão dele é incompatível com esse grau de burrice e incompetência.

O uso do contra-gatilho é legal, mas não devia ter sido escondido. É um jeito bobo de criar uma reviravolta. Assim Hypnotic mancha o que deveria ser um grande momento. Fico particularmente frustrado com isso, pois gostei muito de sacadas semelhantes em Death Note e em O Caderno do Riso (que algum dia escreverei sobre a parte 2).

O filme usa um recurso de mostrar algo no vídeo enquanto o áudio cobre outro momento cronológico. Algumas vezes é interessante, mas senti que fizeram vezes demais.

No geral, Hypnotic não é um filme ruim, mas é tão irritante pelas burrices dos personagens principais que acaba se sabotando e dificultando avaliações positivas. Ainda assim, é interessante.

Observação: vi muita gente dizendo que o filme é clichê e previsível. Ora, previsível em quê? Em a protagonista e o detetive serem burros? Isso é falha de execução, não um aspecto criativo específico. Em a protagonista ter problemas por ser controlada pelo terapeuta? Mas isso é parte da premissa do filme. O único mistério de Hypnotic é o objetivo do terapeuta e isso é tão pouco relevante e embasado que não faz sentido criticar o filme por ser previsível. Inclusive, criticar genericamente uma obra por ser clichê ou previsível mal faz sentido.

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