Crítica | Presságio (2009): um brilhante fim do mundo

Ficha técnica no IMDb

Um estranho conjunto de números é encontrado numa cápsula do tempo feita cinquenta anos antes numa escola. Quando descodificado, revela datas e vítimas mortais de várias catástrofes.

Após o gostinho de decepção que experimentei em O Último Dia, estava ávido por ver um filme apocalíptico. Nesta empreitada, como verão a seguir, eu garanto, Presságio se sai muito bem.

A cena inicial é intrigante, com a Lucinda olhando para o sol (?) e depois preenchendo uma folha inteira com números. A estranheza se torna pavor quando ela aparece com os dedos sangrando por ter arranhado números na madeira. Na hora eu me perguntei se ela estava reescrevendo os números ou acrescentando. Se fosse um acréscimo, era sinal de que a mensagem estava incompleta. Foi só um pensamento para mim, o tipo de questão que filmes deixam de lado sem que eu me importe. Não no caso de Presságio.

É pesada a cena inicial de pai e filho. Fica claro que há um rancor muito grande por parte do Caleb. É também sugerida a tristeza do John. Tristeza que é reforçada quando ele para durante o papo interessante sobre determinismo e aleatoriedade e fica sentido ao pensar sobre o mundo não ter um propósito. A caracterização do drama e a qualidade dos diálogos são o suficiente para que esse início já seja cativante. O sinal maior de que uma obra será satisfatória.

Na abertura da cápsula do tempo, a folha cheia de números vai parar justamente nas mãos do filho de um astrofísico. Seria o destino? Há o problema de ser conveniente, mas a premissa de Presságio alivia o desconforto proveniente deste clichê ficcional.

No evento, o Caleb ouve sussurros e vê uma aparição. Os sussurros são interessantes por ele ter deficiência auditiva, mas é algo lateral que o filme não explora. As aparições vão surgindo sem agir como ameaça, mas tendo aura de ameaça. Essa colocação acaba fortalecendo o peso do desfecho e gera uma expectativa constante de que algo dê errado e aconteça uma invasão alienígena (ou algo do gênero).

O John coloca um copo sobre o papel, percebe um determinado agrupamento de números e tenta decodificá-los. O resultado é 11 de setembro. Não é o jeito mais orgânico de iniciar a jornada dele, mas o fator acidental foi empregado com eficiência.

Como eu vi os números serem escritos e fiquei curioso, quando o John se empolga na decodificação, está representando também o interesse do espectador em entender o que a Lucinda fez e por que fez. Presságio é muito bom em fisgar a atenção do espectador no mistério.

O papo do John com o amigo é muito bom. Claro que é difícil acreditar que as associações que ele fez foram meras coincidências, mas, dentro de um grupo tão grande de números, seria possível criar uma infinidade de correlações. Principalmente porque em 50 anos acontece uma infinidade de acidentes e as pessoas procuram significado em tudo. Os dois argumentos são fortes.

Eu estava tão imerso na trama que tomei um tremendo susto com o susto que a Grace deu no John. Essa é uma estratégia babaca de filme de terror que tira pontos de Presságio, embora o diálogo de irmã bem intencionada e irmão cansado babaca seja legal.

Casualmente, o John olha para o GPS, vê indicações de coordenadas e supõe que os números na folha que não indicam datas ou vítimas indicam locais. É muito conveniente a descoberta e o local do acidente ser justamente aquele, mas a execução da cena é excelente.

Primeiro pela surpresa, pois esperamos uma batida de carro ou caminhão e, de repente, surge um avião enorme. Segundo pela corrida do John em meio aos destroços. Ele não é o Superman ou o Homem Aranha. Não há nada que ele possa fazer e é desesperador ver as pessoas pegando fogo.

O filme conseguiu fazer eu me importar com o John através de seus diálogos e da atuação do Nicolas Cage, então a imersão proporcionada por essa sequência a torna extraordinária. Relevante tematicamente, chocante e narrativamente bem feita.

Outra cena assustadora é quando o Caleb tem uma visão de uma floresta e animais em chamas, algo bem apocalíptico. Aí o John olha pela janela e vê um sujeito desconhecido espreitando a casa, comprovando que ou as aparições são para todas as pessoas ou o John é especial, assim como o Caleb. E não só de terror vive Presságio.

É bem engraçada a estratégia do John para falar com a Diana. Ele cria uma situação propícia para que a Abby faça amizade com o Caleb e comenta isso com a Diana, depois puxando o papo que ele queria. Papo que ele desenrolou do pior jeito possível.

Em vez de apresentar primeiro as provas da previsão dos desastres, o John falou como se estivesse seguindo a Diana por interesse em falar sobre a mãe dela. Professores do MIT também podem ser burros. Esta é passável, já que pessoas são assim, mas tem uma burrice bem difícil de engolir.

Prevendo o local no qual ocorreria o desastre seguinte, o John ligou para a polícia e disse para isolarem o lugar. A medida não foi adotada e ele perguntou isso para uma policial aleatória que viu perto do lugar, como se ela pudesse entender de que raios ele estava falando. Desgosto de atitudes sem sentido e tão pouco justificáveis.

É duro ter esse tipo de sensação num filme dramático e pesado como Presságio, mas é hilário quando o John entra no metrô, olha para um homem, o homem começa a correr e o John o persegue, achando que o sujeito seria o responsável pelo desastre. É compreensível, apesar de ser forçado o protagonista querer dar um jeito naquilo sozinho. Só não sei se devia ser tão engraçado.

Aí vários policiais se mobilizam, o John alerta as pessoas como se o homem pudesse explodir e, na verdade, ele só tinha roubado uns cadernos ou livros. Foi bem mais engraçado do que assistir certos programas humorísticos. Invertendo completamente o clima, alá Premonição 3, surge um trem que descarrila, atropela uma multidão e danifica seriamente a estação. Para um filme +12, Presságio é muito explícito nesses desastres. É novamente assustador e chocante.

O progredir da jornada é orgânico. Tanto a rejeição inicial da Diana quanto a aceitação posterior. Depois deste ponto de virada, há um papo do John com a Diana no carro que é desnecessário, porém, adiciona profundidade ao personagem. Ele passou a crer na aleatoriedade porque a mulher dele morreu sem que ele sentisse qualquer sinal de perigo, coisa na qual ele acreditava. Por isso falar sobre determinismo e aleatoriedade é duro para ele e ele se dedicou tanto a decifrar o papel.

É notável o momento em que os protagonistas visitam a casa da Lucinda. O filme eleva a tensão com os alienígenas se aproximando do carro onde as crianças estão e a aproveita para soltar a revelação bombástica de que o final do papel com as letras “EE” significa todo mundo (“everyone else”, no original), ou seja, a humanidade inteira. É super assustador e impactante.

Curiosamente, o desastre final é uma erupção solar, justamente algo que o John já estudava. Além disso, a revelação se baseia em algumas pistas distribuídas ao longo de Presságio: enquanto o John espera a notícia de algum desastre com 81 mortos, a TV informa que há algum evento solar por perto; a visão do Caleb incluía um extenso fogaréu; na primeira cena dela, a Diana diz que está fazendo muito calor; segundo a TV, erupções eletrostáticas teriam causado o descarrilamento do trem e a queda do avião; a última pista é o sol desenhado pela Abby.

Sabendo que o fim se aproximava, o John montou um plano para tentar sobreviver embaixo da terra e avisou ao pai pastor, com o qual não falava há muito tempo. É um momento bem pesado, principalmente pela opção do pai de crer que, se for a hora dele, que assim o seja. Aí já começou a me dar vontade de chorar.

Em uma bela sacada, o roteiro resgatou os números que a Lucinda gravou na madeira com os dedos, um detalhe que me importou, mas que já havia se perdido após 1h de filme. O John pensa nisso após ver o Caleb escrever na madeira com os dedos. Só me incomodou a porta na escola ainda ser a mesma após 50 anos.

O John queria descobrir as coordenadas finais, mas a Diana preferia seguir para um lugar seguro. O conflito orgânico e consistente leva à cisão do grupo. Em meio a uma tensão alucinante, a Diana vai embora com as crianças e descobrimos algo importante: para fugir da erupção solar não bastaria ir para as cavernas.

O problema é que a saída do John é acreditar que as coordenadas indicam um lugar possivelmente seguro, não o epicentro do desastre, como nas outras ocasiões. Entendo o desespero, mas não vejo sentido na escolha.

Turbinando mais ainda a tensão, os alienígenas pegam as crianças e dão no pé. O desespero ampliou a imprudência da Diana e eu nem acreditei quando o carro dela capotou. Foi muito corajoso da parte do roteiro descartar uma personagem tão eficiente.

Nesse ponto o mundo já está caótico. O corre-corre com os saqueadores é muito bem feito. A fotografia faz uma geral quando o John está chegando ao carro da Diana e é possível ver no céu uma cor alaranjada e alguns incêndios espalhados pelo lugar. É uma visão apocalíptica muito eficiente.

Quando o John encontra as crianças e os alienígenas, temos um momento de impacto que é o que podemos chamar de “conversa do fim da linha” (“conversa do armazém”, referenciando o papo honesto do Light Yagami com a Força Tarefa, a SPK e o Near, ou então “conversa do monte”, referenciando a revelação do final de O Homem de Palha).

É a hora em que os fatos são esclarecidos (ou quase) e vemos aqueles seres que pareciam ser uma ameaça demonstrarem o oposto. Fica mais épico por ser no escuro, com os alienígenas meio nas sombras. Aliás, Presságio é um filme bem épico e o faz muito bem. Na trilha sonora que cobre a separação do John e do Caleb, na aparência dos alienígenas e da nave se fechando e partindo.

Eu já havia assistido Presságio há tantos anos que me lembrava apenas de duas cenas: a chegada no planeta e o abraço na destruição. Eu achava que só o Caleb e a Abby foram escolhidos, mas a partida da nave revela que outras naves foram recolher provavelmente outros escolhidos. Isso significa que a ação dos alienígenas não foi um mero capricho, mas algo que eles planejaram seriamente. Não sei o motivo, mas não é uma informação essencial. Um pouco de mistério é legal.

Um detalhe bonito foi o John entregar o relicário para o Caleb, uma lembrança da Terra e um sinal de união. Eu até torci para que ele fosse entregue, pela relevância emocional. O sinal de mãos significando a união entre pai e filho foi feito no começo, no meio e antes da partida, sendo uma emocionante cereja do bolo.

Diferente da epicidade triste, ainda que esperançosa, das naves partindo, a cena do John no carro passando pela destruição tem um clima forte de desesperança, de fim da linha. É um cenário desolador. Um momento desolador. Num capricho da direção, é mostrado o amigo do John com sua esposa.

O encontro do John com o pai é mais uma conversa de fim de linha. É triste, emocionante e continua se misturando a um forte pavor com a chegada da erupção solar. Presságio caprichou no detalhamento da destruição provocada pelo evento e consegue ser bonito, mesmo sendo assustador e terrível. A família estava junta no final, como não esteve por tantos anos.

Na sequência final, as crianças são mostradas num novo planeta. Não vemos outras pessoas, mas as demais naves estavam indo embora. Devia ser só um táxi para a humanidade, não uma viagem ao planeta dos alienígenas. A última cena é emocionante e belíssima, o que é fortalecido por ela ser arrastada. É uma paisagem exuberante com uma árvore esplendorosa no centro.

O excelente final de Presságio mistura tristeza, terror e esperança. A Terra estava condenada e a jornada do John era absolutamente insignificante, mas os alienígenas fizeram questão de impedir a extinção da humanidade. Alienígenas cujos motivos desconhecemos e que pode prever o futuro, visto que sussurraram vários desastres para a Lucinda.

Acho legal como observamos a perspectiva do John, mas fica claro que outras pessoas sabem o que está acontecendo. O presidente dos EUA está procurando um abrigo, as pessoas na rua correndo desesperadas, tudo de forma meio lateral, o que contribui grandemente para a ambientação.

Ambientação vastamente beneficiada pela direção de arte, que é muito boa. O filme é muito bonito e faz bem todos os desastres, bem como o clima de fim do mundo.

Além do visual, Presságio tem um bom roteiro, conduz muito bem o mistério e o soluciona muito bem. Presságio é tão bom que só me incomodou o primeiro desastre acontecer justamente onde o John estava. Ver filme ruim é legal, mas ver filme bom é muito melhor.

Considerando a Abby, o Caleb e a Lucinda, suponho que todos os escolhidos foram crianças. Como pareceu que os alienígenas soltaram os humanos no planeta e partiram, a nova civilização corre um sério risco de ficar bem diferente do que existia na Terra e de vivenciar conflitos existenciais que seriam interessantíssimos de acompanhar, pois as crianças não têm muito conhecimento do mundo e de como se convencionou acreditar que a vida deve ser.

Dúvida: o que eram as pedras pretas?

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