Crítica | O Culpado (2021): o policial desequilibrado

Ficha técnica no IMDb

Um policial rebaixado designado para o escritório de chamadas fica em conflito quando recebe uma ligação telefônica de emergência de uma mulher sequestrada.

Um detalhe técnico relevante é que O Culpado se apoia quase que completamente em diálogos por ligações telefônicas, então se você não estiver vendo legendado pode ser meio complicado acompanhar as cenas.

A cena inicial de O Culpado é um fogaréu apocalíptico. Me senti ainda assistindo a Presságio. Achei que o filme não jogaria aquele incêndio colossal para ser meramente figurativo. Supus que haveria um plot twist insano, mas acabou sendo só um detalhe de ambientação.

O protagonista é um policial que está atendendo chamadas de emergência e o trecho inicial do filme exibe algumas dessas chamadas. É meio cômico, meio qualquer coisa e assim segue, até que a Emily liga e a verdadeira história começa.

É muito legal o jeito que a Emily parece ser uma drogada qualquer e a voz do Henry na chamada suscita a possibilidade de ela estar ligando para a emergência de forma disfarçada. É bem empolgante, especialmente pelo desinteresse que as chamadas genéricas geraram. O aumento da tensão e do meu interesse foi instantâneo.

É perceptível que a demonstração de afeto do protagonista pela filha tem o propósito de estabelecer um vínculo emocional com a Emily, pois ela também tem uma filha. Apesar desta justificativa, é incabível um policial ficar dando chilique com os profissionais de emergência durante o encaminhamento do socorro. Foi por esse tipo de chilique idiota que eu parei de assistir O Mecanismo no primeiro episódio (o policial principal desgosta de uma decisão judicial e joga um aparelho da sala no chão).

O Joe possui algumas “habilidades especiais” que são conferidas a ele por seus equipamentos. Ele conseguir números de telefone permite a progressão da investigação. É legal a dinâmica do Joe com a Abby para extrair informações relevantes, mas ele diz a ela que enviará policiais para a casa e coloca isso como uma prioridade superior ao rastreio da van, o que não faz o menor sentido. A Abby não corria perigo, a Emily sim.

Quando a repórter liga querendo saber a versão do Joe, subentendemos que ele está sendo acusado de algo. O desequilibrado liga para a mulher às 2h da manhã querendo falar com a filha, grita com uma pessoa que ligou para a emergência e vemos mais pistas de que ele fez algo errado e será julgado. Algo que envolvia outros réus. Em seguida, o desequilibrado liga de seu próprio celular para o celular do Henry, sequestrador da Emily. Sabe o que ele consegue com esse confronto direto? Nada. Deem um prêmio a esse policial.

Policiais burros e incompetentes me irritam demais e são um clichê no cinema de terror. Quando o policial burro é protagonista e não é um filme de comédia, eu simplesmente me desconecto emocionalmente da trama. Como eu posso me importar com um idiota desequilibrado como o Joe?

O que é relevante nele é essa trama lateral do problema jurídico. Na metade do filme, o Joe diz claramente para o Rick que ele será sua testemunha no dia seguinte. É um mistério razoavelmente interessante e funciona em conjunto com a busca da Emily de modo a impedir O Culpado de se tornar ruim. Por outro lado, o auxílio narrativo não é o bastante para tornar o filme bom.

Achei meio sem sentido o jeito que o Joe ligou novamente para o Henry e começou a dar lição de moral. Pode ser estratégico em alguma situação, mas ele parecia muito… desequilibrado.

E uma ideia brilhante do desequilibrado para ajudar a Emily foi pedir que ela puxasse o freio de mão do carro, pois o Henry está sem cinto e ela não. Isso devia ser feito somente em último caso. Ele não sabia se a caçada demoraria mais do que o tempo necessário para encontrá-la viva e parar o carro bruscamente, mesmo estando de cinto, a machucaria e poderia até ser fatal. Esse é o tipo de caminho roteirístico que me afasta da obra.

De algum modo milagroso, a puxada no freio de mão não causou um acidente e o Henry trancou a Emily na traseira da van, mas deixou o celular com ela. Esse filme é mais um concurso de burrice?

O Joe é tão babaca que recebe uma chamada por um acidente de bicicleta e diz ao acidentado que “não pode falar agora”. Ué, mas não é esse o trabalho dele? Aliás, quem é que anda de bicicleta às 3h da manhã? Eita filme torto. Em seguida, vem o que deveria ser o clímax de O Culpado.

Do nada a Emily começa a falar como se fosse maluca e descobrimos que foi ela quem matou o Oliver, o bebê filho dela. É uma reviravolta bem interessante, mas foi completamente do nada e isso a enfraquece. Sabe o que a fortaleceria? Se a cena seguinte ocorresse antes. Nela o Rick informa que descobriu que a Emily foi paciente em um hospital psiquiátrico.

Vinda depois do papo de maluca, a informação se torna irrelevante e redundante. Se viesse antes, embasaria o papo, ainda que de forma precária. O Joe reflete de modo a deduzir que a Emily está sendo levada para ser internada e isso inicia o fim do curto, porém bom, período em que não sabemos se o Henry também está fazendo algo errado.

Pela reviravolta ser mal embasada, o papo do Joe com o Henry já sabendo a verdade é enfadonho.

Como não há ninguém em perigo, exceto a Emily, eu perco totalmente o interesse no filme, pois, depois daquela revelação, eu não dou a mínima para o perigo que ela corre. Se eu não me importo mais com ela ser localizada e sei que os personagens relevantes estão seguros, já posso desligar a TV e ir dormir. Nada do que o filme poderia fazer teria importância para mim, exceto a explicação sobre o problema jurídico do Joe.

Há um trecho bem chato do Joe tentando impedir a Emily de se suicidar. Sim, é o trabalho dele. Sim, ela é uma doente mental, então pode ser ajudada. Independente disso, eu não tenho como desejar o bem-estar de quem eu acabei de descobrir que matou um bebê. Este não é um pensamento Cristão e eu lamento, mas o filme querer empurrar a preocupação com a Emily depois de criar o ambiente perfeito para o espectador odiá-la é um soco no estômago do espectador.

Pelo menos O Culpado usou esse momento para esclarecer que o crime do Joe foi matar um homem. Ele o fez porque é um policial desequilibrado e quis punir o homem (que aparentemente não tinha machucado ninguém). Contando essa história ele a salvou.

Digamos que o Joe tenha ficado emocionado com a situação porque o desequilíbrio dele teria levado à complicação da tentativa de um condenado de evitar que a Emily fizesse mal a mais alguém. O tema do preconceito e o risco gerado por um policial despreparado é interessante, só que foi colocado no filme de um jeito que quase não me importa, quase não me ensina. É lateral demais para ser relevante o suficiente.

O que tem de relevante no final é o bebê estar vivo, o que foi muito forçado. Como ele poderia sobreviver se foi cortado e sangrou o bastante para sujar a Emily e a Abby?

Quanto ao desfecho do problema jurídico, até existe um peso dramático no fato de o Joe ficar sem ver a filha, mas eu sempre o achei um babaca e agora o vejo como um babaca assassino. Não é como se eu tivesse pena dele. Ao desfazer o combinado de mentir no tribunal, ele não faz mais do que a obrigação.

O filme se encerra com o Joe contando a verdade para a repórter que o abordou antes. Não é ruim, é só um tremendo gostinho de tanto faz. O legal era a busca pela Emily e o filme a solucionou de um jeito ruim e anticlimático.

O Culpado é um filme meia boca que eu não recomendo. Se quiser assistir a um filme sobre operadores de chamadas de emergência, veja Chamada de Emergência (2013).

É difícil gostar de um filme quando a narrativa não convence e o protagonista é um babaca.

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