Crítica | Ilhados (2021): ridiculamente ruim

Ficha técnica no IMDb

Influenciadores digitais vão para uma ilha relaxar, tudo dá errado e eles precisam resistir duas semanas até que possam ser resgatados.

A cena inicial é um depoimento de uma personagem que deixa claro que tudo dará errado e os personagens principais terão um triste desfecho. Isso é arriscado, pois tende a reduzir o impacto do problema, mas ajuda a situar o filme e manter o público atento. É compreensível enquanto recurso técnico, mas joga contra o drama. É um bom motivo também para evitar ler sinopses.

A segunda cena é um compilado/recorte de famosinhos interagindo no Instagram. A princípio supus que fosse uma forma de apresentar os protagonistas, mas depois o clipe embarcou em cancelamentos e fofocas e eu fiquei um pouco confuso. A edição moderninha de internet é legal, mas desgostei da trilha sonora que faz o trecho funcionar praticamente como um clipe. Isso tira a naturalidade do filme e sabota a imersão.

Como o fim do clipe mencionou a viagem, Ilhados me obrigou a concluir que haveria um plot twist expondo como vilão alguém relacionado às briguinhas de rede social. Se fosse isso mesmo, teria sido bem mais legal do que foi. E há outros pontos do filme que poderiam ser melhores sem perder a coerência com o que foi exibido.

Raramente eu critico atuação, mas é tremendamente artificial o momento em que um personagem diz para os demais que o chão é de vidro e começa a pular. A pausa entre as falas não é natural. Eu disse “um personagem” porque não lembro se era o Lucas ou o Gustavo. É comum eu não me importar com nomes em filmes de terror, mas este eu me esforcei para reconhecer quem era quem. Só falhei em diferenciar os referidos rapazes. Criticar atuação é uma constante em Ilhados.

Adiante, quando a Olívia faz a piada sobre aquilo ser uma janela e aquilo outro ser o mar, é como se a lente da câmera estivesse embaçada e a iluminação artificial induz o espectador a sentir que aquilo é um sonho. O filtro de cor e o embaçamento vinham desde antes, mas a troca do ângulo antes do diálogo agravou a sensação. Já que não era um sonho, foi erro da direção de arte. Fora que a piada nem fez sentido, pois a Lua estava meramente contemplando a paisagem em uma ilha.

Conste nos autos que odeio trilha sonora festeira. Faz sentido em Ilhados, mas é um porre. Principalmente quando está mais alta do que os diálogos.

A cena do Lucas com a Caetana sentados num quarto, meio que à luz de abajures, foi filmada de um jeito que parece que o câmera foi se movendo em direção a eles e a imagem ficou balançando, como se fosse uma filmagem amadora. Me incomodou muito.

Como as atuações são ruins como um todo, podemos creditar a qualidade ao orçamento, experiência e talvez opção da produção. Algumas passagens do roteiro parecem piadas, mas são ruins em essência, além de mal interpretadas. Não vejo estes como problemas capitais, embora reduzam a nota do filme. O problema é quando Ilhados erra por falta de cuidado.

Falta de cuidado é, durante um diálogo quase pingue-pongue, ficar trocando de câmera a cada fala. Como evitar esse desconforto anti-imersivo? Enquadrando as duas personagens durante o trecho mais entrecortado. Outra falta de cuidado veio com a tempestade.

Os personagens estavam na praia, fizeram fogueira, brincaram durante um bom tempo, se molharam na chuva e dormiram sem trocar de roupa? Não é uma atitude humana. Felizmente me ajudou a identificar quem era quem.

Após a tempestade, o grito da Olívia por causa da falta de sinal foi um bom exemplo de piada ruim. O filme cria tensão e a estraga com seu péssimo e vergonhoso senso de humor. Por outro lado, essa caracterização dos influencers como pessoas muito voltadas ao que pode render cliques é legal. Follow Me e Funhouse trabalharam interessantemente essa questão.

O sumiço do barco é um avanço funcional, mas a falta de sinal foi muito conveniente. Podia já existir desde que eles chegaram, ou ser algo variável, às vezes com sinal, às vezes sem. Não é o pior dos erros de Ilhados, mas podia facilmente ser melhor. Esse é o tipo de erro que mais me irrita. O pepino do aluguel do barco por duas semanas funcionou para justificar a encrenca dos jovens azarados.

Sei que pessoas podem ser babacas, mas é muito esquisito o jeito que o Bernardo dispensa grosseiramente a Lua, que estava toda amorzinho pro lado dele e que o apoiava num momento em que outras pessoas o culpavam e eles todos estavam lascados.

Toda a babaquice do Bernardo ao longo de Ilhados é injustificável. Ele não estava sendo injustiçado, não era culpa dele e ele pira, fica paranoico, fala em complô contra ele e beija a Caetana à força. A transformação de vítimas em vilões, algo recorrente em histórias de sobrevivência, é quase sempre estranha. Em Ilhados, o Bernardo mal age realmente como vilão, então fica tudo meio gratuito. Gratuito e irritante. Ninguém merece personagem chiliquento em tela.

Tirando a câmera de cima, o papo sobre a pouca quantidade de comida é bom. O diálogo é interessante e me fez sentir o desespero da situação. A galhofice e as piadas ruins tiram demais o peso dramático que deveria existir em todas as cenas, mas que há em poucas.

É difícil ressaltar trechos apenas positivos de Ilhados. A cena seguinte é um monólogo da Lua que é ilustrado com o que eles foram fazendo na ilha, como tentar pescar e gritar socorro (tinha um barco no horizonte ou foi apenas loucura do guri?) e ela passa bem a tensão, apesar de a trilha sonora me soar artificial.

Em dado momento, os personagens fazem uma reunião, provavelmente no lugar em que o barco deveria estar. Primeiro: eles estão sozinhos na ilha e dormem no mesmo lugar, então qual a necessidade de escolher um local especial para conversar? Segundo: eles demoraram três dias até alguém sugerir que não utilizassem os celulares como lanterna? Quando a Caetana chegou a um ambiente iluminado e seguiu com a lanterna ligada pensei que havia um modo de carregar os celulares. Ilhados exala burrice.

Na reunião, a Lua fala para eles racionarem comida, pois precisam aguentar duas semanas. Ela fala isso como se estivesse descobrindo a América, sendo que a gente já sabia disso desde o sumiço do barco. A primeira coisa que eles deveriam fazer era planejar o racionamento da comida. Como é que durante a noite eles discutem sobre a pouca quantidade de comida e só planejam o que fazer no outro dia?

Do nada acontece uma explosão, surge uma fumaça que escurece a tela na hora e é revelado que o Bernardo tentou religar a eletricidade da ilha e o disjuntor explodiu. A explosão e a fumaça são desproporcionais à justificativa e tenho a impressão de que não teria como o Bernardo causar aquele incidente. Até onde sei, ele precisaria apertar um botão ou puxar uma alavanca, não encostar fios como se faz para desarmar uma bomba.

Enquanto o Bernardo brigava com a Olívia, surgiu um raio ao fundo, entre ambos. Foi uma adição legal ao clima de tensão. O raio posterior, que acompanha o grito de fúria, achei exagero.

A Olívia vinha sendo uma imbecil com a Lua, desdenhando do racionamento de comida, chegou ameaçando bater nela sem absolutamente nenhuma explicação, a Lua ficou furiosa e ela a beijou. Foi do nada e não pareceu crível, mas me fez entender a cena anterior, na qual parecia que uma pegava na mão da outra. Digo parecia porque revi três vezes e continuei confuso.

A cena seguinte é o Bernardo beijando a Caetana à força. A babaquice escalonou para uma pinta de vilão que não é coerente com o que Ilhados apresentou. Magicamente, o Lucas surge como se, no escuro, tivesse identificado o que o Bernardo fez. A reação dele pareceu exagerada. Ele devia estar confuso e apreensivo, não furioso.

A cena seguinte é outro beijo. Foi bonitinho o momento do Lucas com a Caetana, mas é muito estranho o jeito que o filme coloca três cenas de beijo consecutivas. Não apenas narrativamente, mas também cronologicamente. Embora eu tenha gostado da consumação amorosa, o diálogo entre os beijos foi muito artificial. E ainda aconteceu duas vezes.

Quando o Bernardo entrou no quarto do Gustavo e pediu para passar a noite lá, entendi que um problema do filme é o uso do amarelo. A tocha na floresta, o quarto e o entardecer tem o mesmo amarelo onírico, cor de sonho. Ilhados não é um sonho, então não faz sentido o uso dessa cor (tem um filtro translúcido que alcança o azul e o verde em alguns momentos também).

É um filme brasileiro com jovens em volta de uma fogueira enquanto um deles canta e toca violão. Bem que podia ser uma música de Legião Urbana. Durante o papo, o Bernardo senta ao lado da Lua, ela encosta nele um pouco e ele dá um chilique relacionado a “querer ficar na dele”. Além de ser babaca, ele cria situações para poder ser babaca.

Foi repetitivo a Lua ir atrás do Bernardo e ele ser grosso com ela, mas a verbalização do quanto ele era controlador e ela era um acessório de visualizações compensou a redundância. A partir dali, faria sentido ele a espancar. Teria sido um momento mais relevante emocionalmente do que todo o resto do filme.

A fotografia mandou bem na sequência em que a Lua começa a ter falta de ar. A proximidade da câmera é intimista o suficiente para eu sentir o desconforto dela e me importar. O problema é que surge a Olívia para ampará-la e a cena não dá em nada, é só um momento solto. Isso me leva a uma sensação desagradável proporcionada por Ilhados: nada acontece.

Os jovens ficam perambulando por aqui e por ali sem rumo. Os diálogos são pouco relevantes, a situação importa pouco para o desenrolar dos personagens (a piração do Bernardo foi intensa demais para ser lógica) e quase não há problematização da sobrevivência. Eles falam que têm pouca comida, mas nunca os vemos sofrer pela fome. Em certos trechos quase é possível esquecer que é um filme de sobrevivência, tamanha a tranquilidade dos personagens.

Em qualquer filme sério, a cena em que o Bernardo tenta convencer os demais a ir no bote seria extremamente tensa e empolgante. Com o chilique ridículo do Bernardo e o jeito idiota com o qual ele sugeria que estava sendo feito um complô contra ele, o resultado é que o trecho é bobo.

Mesmo filmes de sobrevivência não muito bons trabalham bem essa escolha desesperada. São exemplos disto Pânico em Alto Mar, Perdidos, Águas Rasas, Mar Aberto, Perigo em Alto Mar e outros tantos. Posso citar também Náufrago e O Túnel, os quais desenvolvem com excelência as dificuldades geradas pela escassez de comida e água.

Como Ilhados não consegue chegar ao nível mínimo de qualidade que um filme precisa ter para ser considerado um filme, ele não faz o momento da decisão final ser tenso. Não são jovens escolhendo um caminho que pode levar à morte ou à sobrevivência, são jovens discutindo se devem ir ao boteco ou ao cinema. Isso é culpa do roteiro artificial e das atuações mequetrefes.

Bernardo e Olívia têm um diálogo irrelevante sobre ele querer iniciar um cancelamento da Lua, corta para o pessoal no cais e o Lucas está beijando a Caetana, sem que o momento tenha o mais remoto indício de que é uma boa hora para amassos. Pior que esse beijo fora de hora foi magicamente surgir um barco salvador. É conveniência de roteirista preguiçoso.

Esse Deus ex machina tirou boa parte da graça de vê-los nadar em direção ao barco salvador. O diabolus ex machina do bote furar foi ridículo, mas gerou o bom momento em que a Olívia está nadando com dificuldade e o Bernardo a deixa para trás. O impacto seguinte é a Olívia se afogar, só que é estranho o quão perto a Lua estava e mesmo assim não conseguiu salvá-la (ou pelo menos segurá-la por um tempo).

Não entendi a última cena do rapaz na ilha. Fez parecer que esqueceram de ir buscar ele.

O monólogo final da Lua é bom enquanto balanço do desenvolvimento dela na ilha, embora eu discorde de ela ter visto quem a Olívia é de verdade e vice-versa, mas é idiota expor aquilo na internet. Sim, é um filme sobre celebridades de internet, mas ainda é idiota.

Conhecendo os personagens, reassisti ao início do filme e entendi as referências ao problema da Olívia com emagrecimento e o jeito que o Bernardo fala da Lua como se ela servisse para aumentar o engajamento dele. A Lua se refere à viagem como sendo uma viagem com os amigos do Bernardo, o que bate com a indignação dele por seus amigos (supostamente) estarem do lado dela. Ficou mais legal vendo no final, pois pude entender a intenção do filme. É até um fim de experiência agradável.

No mais, Ilhados é um filme horroroso com roteiro péssimo, atuações ridículas, direção de arte com escolhas confusas e fotografia variando entre o amador e o bacana.

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