Crítica | A Descoberta (2017): um filme sobre morte

Ficha técnica no IMDb

Dois anos após a vida após a morte estar cientificamente comprovada, um homem tenta ajudar uma jovem mulher a romper com seu passado sombrio.

A premissa de A Descoberta é muito interessante e permeia toda a extensão do filme, funcionando como ambientação. O cientista Thomas identificou um fluxo energético que sai de cadáveres e o interpretou como uma transição da consciência. Assim, concluiu que parte do indivíduo vai para outro lugar após a morte. Não senti que o raciocínio era convincente, mas aceitei pelo bem da experiência cinematográfica.

No mundo real, temos inúmeros casos de pensamentos complexos que são resumidos para uma fácil comunicação e passam a ser tratados como se fossem meramente o slogan. Isso pode até não distorcer a informação, mas distorce a percepção do público e afeta a forma com que ele interpreta os fatos. É assim que a imprensa faz jogos de palavras e manipula o público sem precisar mentir (comento mais sobre isso nos editoriais sobre parcialidade e sensacionalismo).

O Thomas não provou a vida após a morte, apenas provou que algo acontece. Isso deve ter virado a manchete “comprovada a vida após a morte”. Todos trataram a suposição como certeza e a consequência lógica veio.

Um dos motivos para não se suicidar é a apreensão quanto ao que existe após a morte. A descoberta não explicou como é “lá”, mas a confirmação da existência de um “lá” potencializa a esperança de que “lá” seja melhor do que “aqui”. Naturalmente, uma onda de suicídios surgiu. Muitos deles explicitamente motivados pela expectativa quanto ao “lá”.

Numa busca rápida encontrei a informação de que ocorrem 800 mil suicídios por ano. Embora um salto para 2 milhões pareça gigante, a gravidade da descoberta o torna crível. A situação se tornou tão relevante para o mundo que foram instaladas propagandas de prevenção com contadores do total de suicídios desde a descoberta.

Os contadores achei forçado, mas é um reforço para a ambientação baixo astral de A Descoberta. Essa ambientação permite que os diálogos sobre suicídio não pareçam exagerados. Outra boa justificativa é que todos envolvidos com a pesquisa do Thomas tiveram algum contato marcante com suicídio.

Não entendi a necessidade de ter pessoas com esse perfil na pesquisa sobre o que seria o plano posterior. Não entendi também toda a aura de seita que o grupo possui. É um lado exagerado do filme.

Em dado momento, é comentada a possibilidade de as pessoas concluírem que matar alguém é apenas enviá-lo ao outro plano. É uma constatação bem pertinente sobre o risco de dar a entender que “lá” é melhor do que “aqui”.

O papo do Will com a Isla no quarto escuro é bom e faz sentido, mas estar no escuro por tanto tempo é incômodo. Em um ambiente carregado de morte, essas conversas sobre o assunto são orgânicas. É mencionada a dúvida quanto ao que ocorre com crianças e animais, uma questão recorrente no mundo real. Essa pegada reflexiva de A Descoberta é bem interessante.

No meio dessa ambientação, a ideia de roubar um corpo para os experimentos tem uma carga humorística estranha e destoante. A partir do corpo, os pesquisadores testam um aparelho que permite gravar o “pós-vida” e obtém resultado, só que o Will esconde a gravação sem motivo claro e pesquisa por conta própria. Difícil acreditar que o uso do aparelho em um cadáver registre algo.

Outro momento duvidoso é quando a Isla beija o Will após fazer uma piada com a devolução do cadáver do Pat.

É bem pesado o diálogo da “desfiliação” da Lacey. Tem bem jeitão de seita, pois ela  saiu por perder parte da crença no grupo, no processo. O Thomas fez questão de deixar claro que ele a impediu de se matar com um tiro no peito. Bem humilhante.

O Will e a Isla avançaram na investigação da gravação do Pat numa interessante jornada para entender o que era aquela gravação. Por conta de uma tatuagem diferente, é concluído que ela não é apenas uma memória do cadáver. A explicação sobre o Pat não ter visitado o pai e a gravação do Thomas mostrar a mulher agindo diferente demonstraram que o plano posterior é como a realização daquilo que se desejava fazer, mas que não se fez.

O Thomas interpretou isso como uma viagem literal para uma realidade diferente, eu interpretei como mera imaginação. Isso deve ter aumentado a minha surpresa com o final de A Descoberta.

Para criar um conflito e não deixar o filme morno, a Lacey surgiu com a desculpa de enviar para o outro plano e atirou na Isla. Por mais que fosse embasado, achei desnecessário. Tanto tempo com a trama voltada para a valorização da vida e ela morre desse jeito xoxo?

Não fazia sentido o protagonista se trancar na sala do procedimento, a não ser que o objetivo dele fosse ficar na realidade alternativa. É uma fuga que eu espero de um suicida e, apesar de fazer sentido, o protagonista não tinha essa roupagem suicida, diferente da Isla.

O encontro do Will com a Isla no barco é a conversa do fim da linha, aquele clássico momento sensacional em que o roteiro nos brinda com um diálogo empolgante que deixa o espectador vidrado na tela. Esse trecho é um aprofundamento gigante da estrutura temática do filme.

A Isla é assumidamente meio lembrança meio consciência exterior, pois sabe o que ocorreu e tem noção do que ocorrerá. Ela explica que aquele é um ponto importante na vida do Will. Basicamente, a gravação do aparelho do Thomas registra o principal momento no qual a pessoa queria ter agido diferente.

Esse ponto de virada é como uma pendência que prende a alma da pessoa e ela revive várias vezes a partir daquele local e tenta agir de forma diferente, para resolver aquilo que a incomodava. Quando enfim ela consegue mudar o que queria, o ponto de virada deixa de existir. A pendência foi resolvida.

O Will não impediu a morte da Isla, mas impediu que ela se suicidasse. Deste modo, ele a salvou.

A dúvida fica quanto ao que acontece depois. Não entendi a lógica de o Will ir para um mundo alternativo no qual ele resolve a pendência da Isla. Talvez seja como um mecanismo de alma gêmea, o que mantém a alma dos dois conectada.

Não esperava por essa profundidade e empolgação no final do filme. A conversa do fim da linha no barco é muito, muito boa. Ser inesperada a torna melhor. Eu supunha que o desfecho envolveria um romance simples, não esse ciclo espiritual. O frenesi da possível morte em conjunto com as revelações é incrível.

O filme poderia ser apenas reflexivo, mas quis ser uma experiência mais empolgante e conseguiu. Palmas para ele.

Há uma cena pós-créditos, mas não captei nenhuma mensagem nela.

A Descoberta é uma eficiente mistura de espiritualidade, romance e ficção científica.

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