Crítica | Jumper (2008): execução sem significado

Ficha técnica no IMDb

Um adolescente com habilidades de teletransporte de repente se encontra no meio de uma antiga guerra entre pessoas como ele e seus aniquiladores juramentados.

Obras ficcionais podem ser separadas em execução e significado. Respectivamente, a diversão da experiência e o que a experiência quer dizer.

O habitual é os dois aspectos serem equilibrados. O que é ruim é ruim nos dois e o que é bom é bom nos dois. Algumas obras conseguem entregar um significado relevante mesmo sendo chatas, o que é o oposto do que ocorre com Jumper, um filme divertido, embora seja vazio.

O vazio não é evidente durante o filme inteiro. Sua primeira metade é promissora e eleva a expectativa. Já na introdução, vemos a clássica história do garoto que sofre bullying. Pensei que fosse ver a origem dos poderes, mas não houve explicação, apenas demonstração.

Muita gente por aí pode reclamar de ver a descoberta dos poderes, que é um clichê, mas essa é uma grande oportunidade de aprofundar o protagonista, fazê-lo crescer e se tornar mais importante para o espectador. Prefiro um filme que perde dinamismo mostrando a origem do que um filme dinâmico com um protagonista irrelevante para mim.

No caso de Jumper não foi um salto narrativo, apenas uma descoberta dissociada da explicação do poder, o que criou um vínculo emocional entre o espectador e o David.

Em 15 minutos, Jumper conseguiu estabelecer bem o mundo, o protagonista e seu provável adversário, mas me incomodou demais a mudança de aparência. Nem parece ser a mesma pessoa. De início achei que fosse o rapaz que fez bullying com ele. Assim eu me distancio do personagem.

Caso você não saiba, este site se chama Blog do Kira porque eu gosto muito de Death Note, uma história que foca no criminoso Kira e sua jornada para lidar com detetives brilhantes. Por isso, eu simpatizo rapidamente com histórias que me tragam, mesmo que vagamente, a sensação que tive assistindo a Death Note.

A aparição do Roland como um agente da NSA me empolgou pelo vislumbre de uma trama policial composta por um detetive inteligente e um criminoso com dons sobrenaturais. Isso fez eu me espantar com a revelação de que o Roland não era uma autoridade, apenas fingia ser. Claro que isto o faz parecer mais inteligente, mas tirou parte da minha diversão.

O Roland é como o Batman de Batman VS Superman, se alguém pode ser uma ameaça, ele considera como ameaça e parte para a aniquilação. Há umas frases sobre Deus e como os jumpers mimetizam a onipresença, mas é bem por cima. O Roland é quase uma casca vazia cujo propósito existencial é eliminar os jumpers, criaturas não-naturais.

Isso não o torna um mau vilão, mas ele é apenas funcional. Serve ao propósito de criar um desafio, senso de risco e dinamismo, só que não agrega significado. Roland é o suficiente para Jumper funcionar. Nada mais, nada menos.

O filme ganha contornos românticos com a ida ao Coliseu e há a introdução do Griffin, um outro jumper. A cena seguinte é o confronto com os paladinos. A burrice do David de não ser discreto na visita ao ponto turístico colocou as autoridades no rastro dele. E os paladinos também.

O aumento da ameaça é legal, mas a partir daí a maionese desanda. O David começa a perseguir o Griffin, querendo formar uma dupla para enfrentar o Roland, sem ligar muito para teleportes em público.

O Griffin era prudente, consciente dos riscos de agir, mas de repente começou a dirigir em alta velocidade e teleportar um carro em um lugar movimentado. Para onde foi aquela prudência? Ele ficou fazendo isso por anos e nunca foi pego? O protagonista é mais cuidadoso que ele, considerando essa cena.

O David pergunta sobre os pais do Griffin e, sentindo o momento delicado, começa a falar sobre os pais dele. Então o Griffin reforça que não perguntou sobre a família dele. É ótimo, orgânico e uma boa piada.

Depois de topar agir em conjunto, os dois se teleportam para o aeroporto na frente de todo mundo. A prudência foi esquecida no churrasco. Mesmo se teleportando em público, o protagonista seguiu sem explicar à Millie o que estava acontecendo com ele. Não faz sentido. Já não fazia lá atrás, quando a viagem deles começou a dar errado.

E fica pior ainda. O David estava na casa da Millie, viu o Roland do lado de fora e não foi direto sobre o poder e o risco que ela corria. Ele é um jumper, mas se recusou a levar a Millie para um lugar familiar para ela. Em vez de se declarar, o que era desnecessário, dado que eles já agiam como namorados, ele devia ter explicado a situação, dado um pulo em algum lugar seguro e voltado. Graças à estupidez do David, a Millie foi pega pelos vilões.

Como jumpers são meio burros, o Griffin só contou que se teleportar diretamente para o QG seria perigoso, pois os vilões conseguem seguir o rastro dos jumpers, depois que o David fez a lambança. Essa é uma informação básica para lutar com os paladinos e não havia motivo para ser escondida.

Se o Griffin conseguiu um lança-chamas para o tudo ou nada contra o extremamente perigoso Roland, porque não pegou uma arma mais letal? Com a habilidade dele, uma lâmina seria fatal, mas o filme não usa essa característica do teleporte+ataque surpresa. Jumper escolheu impacto visual em vez de lógica.

A luta do David com o Griffin era algo que eu esperava desde o primeiro encontro dos dois e é muito bem executada, só que o motivo dela acontecer é idiota. O Griffin quer resolver o problema dos paladinos explodindo todos eles e o David quer impedi-lo porque a Millie está com os vilões.

Embora rejeite a solução eficiente do Griffin, o David não apresenta outro caminho, o que faz com que a briga pareça vazia, ou pior, idiota, pois não haveria problema algum caso o David não fosse um imbecil e tivesse levado a Millie embora tão rápido quanto poderia.

É a ação que eu esperava, mas não do melhor jeito possível. Assim, ela não contribuiu tanto com a qualidade de Jumper quanto seria capaz.

O desfecho do vilão é meio sem graça. O David não o elimina, mas também não dá uma lição de moral eficiente o bastante para convencer o Roland de que está errado. É como o fim de um confronto rotineiro, um episódio de Super Choque. Novamente, não é ruim, é funcional. Apenas isso.

Os maiores pontos positivos de Jumper são os efeitos visuais. Há uma pegada de distorção espacial que afeta o ambiente em volta do jumper, o que adiciona realismo às cenas. Os efeitos são bonitos e o uso de locais ao redor do mundo torna tudo mais empolgante, do deserto ao Japão, passando por Londres. As lutas combinam o uso de equipamentos especiais dos paladinos e a distorçam espacial, resultando em cenas bonitas, ainda que um tanto confusas.

Aos 45 do segundo tempo, Jumper decide esclarecer, sem embasamento, que a mãe do David é uma paladina e por isso o abandonou assim que ele despertou os poderes. Ela dá um abraço nele e não faz nenhuma questão de manter o laço dos dois. Como a crença dos paladinos não foi aprofundada, o que fica é a sensação de que a mãe dele é uma desgraçada que meteu o pé mesmo e dane-se a família.

É extremamente frustrante, especialmente pela aparição rápida dela. Pensei que ela fosse uma jumper, o que seria muito mais interessante. Jumper criou uma expectativa e desperdiçou o potencial da personagem.

Como a mãe é um detalhe insignificante na trama, a luta contra os paladinos continua basicamente a mesma e o David continua sendo um imbecil mau-caráter, Jumper não é um filme, é um episódio de uma série. Ele pode ser legal de assistir, mas é ridiculamente raso e, por isso, decepcionante. Uma pena, pois tinha um potencial enorme.

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