Crítica | Todos os meus amigos estão mortos (2021): dá pro gasto

Todos os meus amigos estão mortos é, basicamente, a história de uma festa que dá errado e leva à morte de todos os participantes, exceto um. Dizer isso não é um spoiler, pois está no título do filme e em seus primeiros minutos.


Por mais que a escolha de deixar claro o desfecho não crie grandes problemas, ela adiciona expectativa. Se eu já sei que o final será um massacre, acabo esperando que ele seja bom. Não é um defeito fatal, mas o desfecho do filme é frustrante.

Por outro lado, seu desenrolar é bem interessante. Ele estabelece personagens, trabalha um pouco o drama de cada um e vai girando os núcleos. Nesse vai e vem o espectador passa a se importar mais com os personagens, o que fortalece o final. Não muito, mas fortalece.

Os personagens não são muito bons, mas essa estrutura cheia de núcleos narrativos ajuda a torná-los funcionais. É como se o filme os mostrasse por tempo suficiente para eu me importar com eles e não ficar incomodado com o tempo de tela de cada um.

O filme pode ser vendido como comédia, mas não é engraçado. Ele tem sacadas interessantes e algumas boas piadas, mas não o bastante para ser uma comédia.

Com essa qualidade tão medíocre, o que engrandece Todos os meus amigos estão mortos é o cuidado com alguns personagens e o jeito que certos detalhes se encaixam na trama.

No começo, uma mulher usa uma bombinha e, mais tarde, morre por não conseguir usá-la.

A esotérica foi bem caracterizada como tal e a reviravolta do fotógrafo enquanto falso esotérico funcionou super bem. Com a pressão do assassinato, fazia sentido a esotérica pirar e isso ocasionou a morte (forçada) dos últimos sobreviventes. É como se o filme tivesse uma subtrama esotérica envolvendo esta personagem.

O entregador podia ser só a piada de estar esperando, mas é mais usado e tem a história com a mãe, o incêndio no quarteirão da casa dele e o suicídio. A cereja do bolo é a piada com a fórmula para a cura do Alzheimer que ele escreveu no papel higiênico e o policial usou para se limpar. Boa piada. Justifica bem o estranho monólogo químico.

A velha e o rapaz eram interessantes, o núcleo mais bacana do filme, com a dinâmica do rapaz apaixonado e a velha que só quer curtir. O filme os aprofunda muito quando o rapaz insiste em dizer que a ama e ela explica que a diferença de idade faria ele abandoná-la no futuro e põe em cheque se ele a ama ou apenas gosta do prazer que a experiência dela proporciona. Muito, muito bom.

O trecho em que o rapaz briga com o filho dela é o momento mais engraçado do filme e propicia a confusão generalizada que finda a festa.

Deixando um pouco de lado a piada com insatisfação, é interessante que o Daniel é sem-noção a ponto de expor a namorada com um pedido de casamento em público e ainda agiu como se estivesse no direito de cobrar explicações. Foi por isso que ela explodiu.

O retorno dele com o machado me fez temer uma reviravolta violenta mal embasada, mas seu objetivo era apenas compensar o tempo perdido. Não gostei, mas não é um grande problema.

O Rafal amplia a violência com um bastão e acerta uma mulher armada porque acha que ela matou o anfitrião. Faz sentido. O ápice devia ser o uso das armas de fogo, mas o filme fez os disparos acidentais de um jeito pouco criativo. A mulher montou no Rafal, ele rodopiou e ela foi disparando.

Não é crível todos os disparos serem acidentais. É um jeito muito preguiçoso de providenciar o massacre necessário para todos morrerem. Apesar disto, a sacada do choque generalizado foi boa.

Quando o casamento começou, pensei que fosse o Paraíso, mas era uma realidade alternativa. Estava achando muito imbecil até a velha pegar o buquê e dizer que ama o rapaz. Isso tem muito a ver com o bom drama de ambos.

Nesse mundo o entregador ficou famoso por descobrir a cura para o Alzheimer e é ele quem vai para o escritório com a esotérica, não o fotógrafo. O curioso é que antes do disparo já há sangue no quadro. Nada incrível, mas um bom final.

Todos os meus amigos estão mortos é um filme medíocre com aspectos interessantes e uma estrutura narrativa que o torna razoavelmente satisfatório. Satisfatório para o baixíssimo padrão de qualidade de filmes “besteirol”.

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