Crítica | Cartão de Natal (2017): ruindade natalina

Ficha técnica no IMDb

Para ser a diretora-executiva, uma herdeira é desafiada por seu pai a entregar uma carta de Natal pessoalmente a seu velho companheiro de negócios, viajando de ônibus para uma cidadezinha com apenas 100 dólares. Será que ela vai aprender algo com as pessoas de lá?

Eu decidi assistir a Cartão de Natal porque sua premissa indica uma evolução humilde da protagonista, mais ou menos na linha do que Carros faz com o Relâmpago McQueen. Esse é um tipo de história que me agrada e serviria como especial de Natal para o Blog do Kira. Lamentavelmente, o filme foi uma experiência mais negativa do que positiva.

Para haver uma virada impactante, é preciso ter problemas e vícios bem delimitados. Se o problema é pouco problemático, a lição de moral será fraca. Em Carros, o protagonista é um babaca arrogante com a equipe e despreza a contribuição que os outros podem fazer para o desempenho dele. Por isso, ficar sozinho no interior o força a agir só e conhecer um mundo tranquilo que não o idolatra.

O problema da Ellen é apenas ser a herdeira festeira. Ela não foi mostrada como uma pessoa elitista que não valoriza o trabalho ou as pessoas. Sendo assim, a ideia de mandá-la para o interior não se justifica. Em que mudaria a personalidade festeira da Ellen essa estadia num local mais simples?

O pai dela menciona que ela deve conhecer o público consumidor, mas a viagem não leva a isso. O principal problema do filme é que esse desafio da humildade sequer se justifica. Continuar Cartão de Natal com essa base frágil é o mesmo que mandar o Saci ir num pé e voltar no outro. Não teria como dar certo.

Parte do filme se dedica a mostrar a Ellen como uma patricinha tendo que aprender a viver sem os luxos propiciados por seu pai. Viagem de ônibus, sem cartão de crédito e com apenas 100 dólares. O terceiro ponto é digno de nota. Se a intenção do pai com a restrição orçamentária era levar a Ellen a trabalhar, porque ele não apenas colocou ela para trabalhar?

No ônibus, ela procura pelo assento e é informada de que não há assento marcado. Se não há, ela estava procurando o quê? Ela é burra, viu um código e achou que fosse a numeração do assento?

Quando a Ellen chega ao hotel, acaba presa à sua missão besta: ficar lá até que o destinatário retorne para entregar-lhe as cartas. O dinheiro acaba e ela tem que trabalhar. Óbvio e executado de um jeito não muito legal. É engraçadinho, mas, apesar de seus tropeços, a sensação que fica é de que ela não precisou se empenhar muito.

No caso da cozinha é o pior. O filme dá a entender que a Ellen nunca cozinhou, mas ela não demonstra grande dificuldade para executar receitas. O único obstáculo dela é separar os ovos. Não que ela precisasse ter dificuldade com tudo, mas não parece que ela está aprendendo algo com a estadia no hotel.

Quando a Ellen vai arrumar o quarto, tem uma cueca embaixo da cama e um sutiã pendurado na árvore de Natal. Um casal simplesmente largou as roupas lá e foi embora? O estalo do Thanos levou eles? Por que o estalo do Thanos desfez as roupas em vez de desfazer apenas o corpo? Perguntas que o cinema não responde.

Em um passeio noturno, a Ellen conta que o noivo dela diz que dar dinheiro aos mendigos é egoísta, pois não os incentiva a ganhar o próprio dinheiro e o Jake rebate que o mendigo fica feliz por ter dinheiro para comer. Os dois pontos estão razoavelmente corretos. Dar dinheiro não resolve o problema futuro, mas pode resolver o problema imediato.

Seguindo nessa temática de caridade, o filme cria uma noite bem fria e o Jake reage a ela levando desabrigados para o hotel, a fim de protegê-los do frio. A Ellen aprende com a atitude dele e vai buscar outro desabrigado. Muito bonito, muito legal, mas não é algo incompatível com a personagem antes da viagem. Por conseguinte, não é uma virada para a protagonista.

A Ellen não era desumana, apenas festeira. Ela decidiu ser a herdeira festeira após a morte da mãe, por sentir que nada mais importava. Este é um bom embasamento para o estilo de vida da protagonista, mas o filme estraga o momento com o diálogo artificial sobre aquele ser o momento do beijo. Além de o diálogo ser ruim, é também clichê com a parada no último instante e as desculpas de ambas as partes. Muito, muito ruim.

Ela conseguir itens para o leilão é baseado em nada. Algo como um leilão foi mencionado antes, mas não vimos a Ellen demonstrar seu poder de convencimento, então não é como se ela alcançasse um grande resultado porque, por exemplo, aprendeu a lidar melhor com as pessoas. Parece fácil demais e tem zero peso dramático (problema constante de Cartão de Natal, inclusive).

Durante a busca por produtos, a Ellen chega para o atendente da loja de computadores, diz que “é o certo a se fazer” e ele doa um aparelho da Apple. Só em filme mesmo.

Se o filme fosse sobre o noivo da Ellen aprendendo com a cidade interiorana faria mais sentido. Ele sim é babaca e elitista. Numa conversa de bar, ele revela a identidade secreta da noiva para o galã. Aí o filme enfia o pé na jaca.

O Jake trata mal a Ellen apenas por descobrir que ela escondeu ser a herdeira festeira, como se aquilo fosse um ultraje capaz de apagar todas as coisas legais que ela fez, como ajudar no leilão e na noite com os desabrigados. É inacreditável o filme querer empurrar essa birra dele após tudo o que aconteceu. Se eu passo a achar o galã um babaca, a chance de gostar do romance é mínima.

O noivo é rude pelo modo de se referir aos interioranos, mas não faz sentido a Ellen ficar brava com ele sendo que revelar a identidade não foi um grande erro nem justifica a birra do Jake. Ela podia terminar com o noivo por ele não ligar para as tradições familiares e tratá-la mal, mas não por ele ter contado a verdade. É irracional da parte dela.

Todo o diálogo da Ellen praticamente implorando ao Jake por uma chance é ridículo. Ela não fez nada de errado e age como se tivesse feito. Deveria ser um momento empolgante e emocionante, mas eu apenas detesto estes dois personagens agora.

O plot twist da carta é bem interessante, só que não faz sentido o pai da Ellen deixar oficializada a sucessão sem saber o que ocorreria em Snow Falls. O tempo todo isso já estava escrito, então era irrelevante o processo de evolução dela no lugar. Fora que quase não houve evolução, pois não é como se ela fosse babaca, ela só curtia a vida.

Some a raiva que o roteiro me faz ter da protagonista à falta de lógica da sucessão e o resultado é uma jornada ruim. Se a jornada é ruim e não se justifica, o filme inteiro acaba sendo ruim.

O pai da Ellen disse que o teste era conquistar as pessoas. Dúvidas: e se ela falhasse, mas continuasse até o leilão? Se o leilão não era parte do plano, então porque a revelação não foi feita enquanto ela ainda estava lá, afinal, não aconteceu nada após a saída dela? Considerando que o defeito da Ellen era ser festeira, que diferença faria ela conquistar ou não as pessoas?

Mesmo descartando os demais questionamentos, a falta de coerência do problema com o teste aniquila a qualidade do filme.

A estupidez do homem já havia estragado o romance e o filme ainda nos brindou com o diálogo ruim sobre “o momento do beijo” no final.

O pai da Ellen também é no mínimo burro, pois só foi querer consertar o caráter da filha pouco antes de se aposentar.

Cartão de Natal é um filme muito ruim que não sabe fazer romance e muito menos desenvolvimento de personagem.

Observação: o galã faz caras e bocas artificiais e bem estranhas. Desgostei.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s