Crítica | Frankenstein (Junji Ito): interessante o suficiente

O mangá Frankenstein é uma coletânea de histórias de terror do mestre Junji Ito. Estão presentes dois contos independentes, dois contos autobiográficos, a versão de Junji Ito do clássico Frankenstein e o restante trabalha a vida do personagem Oshikiri. O comprei por ocasião do lançamento de A Sala de Aula que Derreteu. Num futuro próximo, o referido mangá e Tomie terão críticas aqui no blog.

Pescoço Imaginário

Este conto rumava psicologicamente, explorando o complexo de inferioridade do Oshikiri e o relacionando às suas alucinações com pescoços alongados, as quais tinham a ver também com o estrangulamento que realizou. O terror de um amigo matar o outro é bom, mas desgostei da virada ao final.

Revelar que o corpo de fato estava esticando quebra a temática psicológica e, pela falta de explicação, incute um ar artificial ao conto. É como uma saída fácil e desconexa de surpreender sobrenaturalmente.

Pântano dos Espíritos Vivos

Mais uma vez, Oshikiri e um amigo protagonizam o conto. Esta história é irregular e isso a torna ao mesmo tempo inesperada e um pouco frustrante. Ela inicia trabalhando a ideia de um fantasma que afoga rapazes bonitos, estabelece duas gurias obsessivas como vilãs e acaba sem finalizar as gurias.

A existência delas me fez esperar por mais do que um mero “não, era só aquela suposição de antes mesmo”. É tradicional do Junji Ito, mas me incomodam esses elementos místicos que surgem do nada sem explicação e acabam inconclusivos.

A criatividade não supera o drama do conto anterior.

Amizade por Correspondência

Este conto é puramente psicológico. Eu estranhei as respostas das cartas serem rápidas, então a revelação foi satisfatória e bem triste. A solidão fez a Kazuko desenvolver amizades imaginárias que se tornaram um tipo de personalidade alternativa.

O jeito que o mecanismo encaixa é bom. Além do aspecto trágico, gostei do laço dela com o baixinho que mora na mansão. O Oshikiri e ela se estranharam a princípio, mas o fato de ele ter entendido errado uma colocação dela embasa adequadamente o início da amizade.

A mesma solidão que fez a Kazuko escrever cartas para si mesma fez o Oshikiri escrever o bilhete avisando-se sobre a evidência que deixou para trás. É legal que a continuidade preserve as características do protagonista: morar em uma mansão e desgostar de ser baixo.

Um momento muito bacana do conto é o diálogo em que o Oshikiri, à lá Death Note, explica o que está acontecendo com a Kazuko e como ele descobriu.

O final pode ser meio previsível, mas é bem executado, coerente com a temática da história e assustador.

O Invasor

O conto segue desenrolando a solidão do Oshikiri, agora com três amigos. Como eu vi essa solidão ser tratada anteriormente, a amizade deles é relevante para mim. Outro elemento resgatado é o outro Oshikiri, agora não como uma alegoria psicológica, mas, de fato, uma versão alternativa do protagonista.

O nervosismo dele diante da revelação dos assassinatos é coerente e o fim da amizade é compreensível. Este conto é bom e claramente tem a função de introduzir a possível vilania do outro Oshikiri. Apesar de ser um capítulo mais mola narrativa do que conteúdo em si, é bem competente.

O outro Oshikiri é fantasmagórico. Eu quase enxerguei o protagonista como uma vítima, mas me lembrei do que ele fez com o amigo alto. É um problema para o drama o personagem principal ter potencial para conquistar a antipatia do leitor.

Contos Bizarros de Oshikiri

Não entendi o título, já que este conto é uma continuação comum da história-macro de Frankenstein, ironicamente dissociada da história que a intitula.

O terror está mais presente neste conto através das criaturas bizarras que surgem e é revelado que o criador delas é o outro Oshikiri, na tentativa de fazer uma fórmula de crescimento. É ótimo que se vincule ao mesmo complexo que motivou o nascimento do laço entre o Oshikiri e a Mio. Torna a história bem consistente.

Embora o protagonista seja um babaca, a exploração do drama dele com a altura e a solidão o fez ser emocionalmente relevante para mim. Se eu me importo com o personagem, é difícil a história me desagradar, pois o Junji Ito sabe fazer narrativas interessantes. Talvez ruins, mas interessantes.

Um problema narrativo é que o modo que o Oshikiri vence o outro não é coerente com a quadrinização. O autor tirou da cartola aquela justificativa do roubo da seringa. Aliás, a Mio também perceberia facilmente caso o roubo tivesse ocorrido.

Contos Bizarros de Oshikiri – A Parede

Aqui surge um tremendo problema de Frankenstein. O conto anterior termina com o protagonista na outra dimensão sem saber como voltar e este começa como uma história genérica. A Mio não é mencionada e ainda é feita uma recapitulação extremamente expositiva do conceito das dimensões e do outro Oshikiri.

Minha dúvida é se a culpa é do Junji Ito ou do compilado original que não juntou os contos necessários para a completa compreensão da obra. Seja lá de quem for o erro, é grotesco.

O conto explora a assustadora faceta da substituição. É um elemento interessante. O motivo da viagem da família é o mesmo terremoto que atingiu a realidade do protagonista, só que numa intensidade maior.

Certamente é um degrau a mais na compreensão da lógica geral das dimensões. Eu gostaria de saber mais sobre os outros Oshikiris que o outro disse serem piores que ele, mas, infelizmente, alguém fez lambança.

Se não houvesse a questão do outro, o final com os absorvidos rastejantes seria bom e no estilo Junji Ito.

Considerando a possibilidade de haver uma continuação, é legal que o autor adicione risco à viagem, pois há sempre alguma chance de se solidificar em uma parede e acabar absorvido.

Frankenstein

Frankenstein é uma tragédia muito bem contada. A maior parte dela é um flashback do Victor no navio e há um flashback do monstro dentro do flashback do Victor. É um fenômeno curioso, mas não ruim.

A ambientação é bem trabalhada com o navio e cria alguma expectativa para a verdadeira história do conto. O desenrolar transita entre a bizarra história do cientista maluco, a triste história do humano artificial discriminado e a vingança da criatura contra o criador.

É benéfico para a experiência o jeito que a perspectiva quanto aos dois personagens centrais muda. O Victor do primeiro experimento é abominável, mas sentimos o medo e nos importamos com o Victor do segundo experimento.

Do mesmo modo, temos raiva e medo da criatura após a primeira morte e depois sentimos tristeza pela desventura que a transformou num monstro. Sozinho, caçado sem motivo e sem um propósito na vida. Se a criatura se tornou um monstro, grande parte da responsabilidade é do Victor, que não se preparou para educá-la.

É curioso que, por mais que a criatura o odiasse, Victor era o único humano que possuía algum vínculo com ela. Com a morte do criador, a criatura perdeu tudo o que tinha. Mesmo sendo um monstro, é um desfecho triste. Não que suas ações sejam perdoáveis, mas Frankenstein é uma tragédia.

A história é boa e tem um desenrolar funcional.

Funeral da Boneca do Inferno

Este conto é Junji Ito em sua essência: uma aura sobrenatural bizarra que não tem explicação e deságua em uma página assustadora que funciona como um jumpscare, só que bom. É interessante e atiça o leitor a querer saber mais sobre o fenômeno das crianças virando bonecos, mas serve apenas como uma história curta de bônus, após a longa Frankenstein.

Isso é algo que Gyo faz, inserindo, após a história principal, O Mistério da Falha de Amígara e A Tragédia do Pilar Principal. A decepção com o filé mignon me tirou a vontade de escrever uma crítica sobre elas, mas farei algum dia.

Funeral da Boneca do Inferno é mais bizarro do que assustador.

Imobilizador Facial

Este é o conto de terror mais fraco da coletânea. A ideia de a personagem ser esquecida no imobilizador é forçada demais e, por mais que a situação seja assustadora, deixar de mostrar o que ela fez com as orelhas é frustrante, especialmente vindo do Junji Ito, famoso por suas páginas de impacto (vide a história anterior).

Os dois contos seguintes são, imagino eu, uma homenagem de Junji Ito à sua falecida cadela. São sem graça, até a revelação da morte dela, o que torna ambos mais emocionantes. Nem considero válido criticá-los, afinal, é um contexto e um estilo diferente de todos os outros.

O conjunto da obra

Frankenstein é, resumidamente, a união da adaptação que Junji Ito fez da clássica história do morto-vivo com a incompleta saga de Oshikiri. O que um tem de consistente e pouco criativo, o outro compensa em inconsistência e criatividade.

Se não fosse por Frankenstein, o compilado poderia ser taxado como ruim. É inferior a Fragmentos do Horror e Gyo, todavia, apesar das críticas, é uma leitura bacana.

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