Crítica | Death Note – The Last Name: o melhor final

O segundo live action japonês de Death Note foi The Last Name, sequência direta do primeiro filme. Ele está para o primeiro mais ou menos como Matrix Revolutions está para Matrix Reloaded. Ele começa recapitulando a salvação da Misa, agora deixando mais claro que foi um shinigami que interveio.

No funeral, o Light repete que vingará a Shiori. Se você tem alguma teoria sobre de onde o roteiro tirou que faz sentido achar que Kira matou a Shiori, me conte nos comentários. Este talvez seja o maior furo de roteiro do primeiro filme.

Assim que entra no QG, o Light senta na frente do L, havendo um tabuleiro de xadrez entre ambos. Eles começam a jogar enquanto o L explica suas suspeitas. É bem expositivo, mas explica melhor as deduções. Ele supõe que o Light matou a Naomi e a Shiori para que a força tarefa ficasse com pena e o aceitasse no time. Ainda não faz sentido.

Esse ótimo momento ainda tem o Matsuda sendo um idiota e o Light vencendo a partida, o que deixa o L muito surpreso. Só me incomodou o jeito que o Light perguntou ao L como ele acha que o Kira ataca. Não é tão boa quanto, mas a partida de xadrez me lembrou a partida de tênis do original.

No trecho da transmissão das fitas do segundo Kira, é interessante ver um grupo de pessoas, em público, reagir mal à morte de um desafeto de Kira e depois começar a exaltá-lo. É mais uma pincelada na discussão sobre a justiça de Kira, a qual é suscitada pela ambientação de The Last Name.

Por motivo nenhum o Mogi foi lá dar lição de moral nas pessoas e acabou vitimado, o que indicava que o segundo Kira atacaria qualquer opositor. Seria mais assustador se ele tivesse algum motivo concreto para passar em frente às câmeras.

Para os fãs de fidelidade, o L cai da cadeira quando a fita na TV fala em Shinigami.

O Soichiro foi até o local de capacete, mandou a Sayu cobrir o rosto e depois o tirou. O homem é uma contradição ambulante. Colocar a Sayu na situação aumenta a importância da família e é melhor do que mostrar apenas figurantes reagindo aos feitos de Kira. São pequenos detalhes do filme que o tornam mais agradável.

O Light é tão burro que na primeira oportunidade disse que iria buscar o pai e a Sayu, sendo que o segundo Kira pediu ao primeiro que fosse lá. Assim fica fácil deduzir a verdade. Fora que ele mal fecha a porta e já começa a falar com o Ryuk. Se tivesse uma escuta ali, era fim de jogo.

Quando a Misa, que estava na emissora, viu o Light, falou sobre ele numa altura normal, sem medo de alguém ouvi-la. Tive até a impressão de que ela gritaria algo como “ei, Kira, eu sou o segundo Kira”.

Apesar de ser positivo já conhecer a Misa, saber que ela é praticamente uma adolescente apaixonada tira o peso da perspectiva do Light, que ainda não a conhece. Nisso o anime é mais empolgante.

A cena do papo da Misa com o Light é muito legal. A atriz encarna perfeitamente a imagem de garota apaixonada e tem uma ligeira piada com o Light não a conhecendo e ela dizendo que é famosa. Rola um abraço bem parecido com o original, só que os shinigamis ficaram estranhos no enquadramento. A computação gráfica meia boca não ajudou.

Mais um momento legal é quando a Misa fala em sair com o Light, ele explica que teria que sair com outras garotas para não levantar suspeitas e ela se ajoelha e abraça a perna dele. É uma demonstração clara de subserviência, o que facilita as coisas, só que ele a ameaça e a Rem retribui a gentileza. Assim é criada uma tensão inédita no filme. O Light finalmente tem algo a temer.

Na cena em que o L e o Light estão andando na universidade, L usa uma máscara ridícula que parece um pouco a máscara que certo personagem usa num futuro filme. Além disso, Light está de preto e L de branco. Pode ser acidental, mas simboliza a dualidade deles. Kishimoto ficaria feliz vendo isso.

Superlegal o encontro da Misa com ambos, mas por que o L a deixou tirar a máscara dele? Se a Misa matasse com a força do pensamento, ele estaria frito. Gênios podem fazer burrices.

É muito bom que há um empurra-empurra, o L fica atrás da Misa e claramente a toca. Isso torna mais crível o roubo do celular, não uma sacada como as que a Velma, do Scooby Doo, tira da cartola no fim do episódio.

Daí deriva o sensacional momento em que o Light liga e o L atende. Descobrimos que a Misa foi presa por terem conseguido provas materiais contra ela, e, de bônus, a ligação era uma evidência de que o Light pretendia avisar a Misa sobre a identidade do L. Bom demais e surpreendente.

A duologia não capricha muito na investigação, então ver uma sequência lógica de acontecimentos e deduções é satisfatório. Fazendo sentido e não sendo artificial já é digno de elogio.

O confinamento da Misa é bem pesado, mas a possibilidade de perder as memórias do caderno é conveniente demais. É a rota de fuga perfeita para qualquer Kira. Faz sentido, mas não é o suficiente para ser bom. Tem um leve cheiro de preguiça roteirística.

Na sequência do plano, o Light diz para a força tarefa que pode ser o Kira sem saber. Isso esteve no meu top 10 de burrices do Light em Death Note. Quem é o detetive que acata de bom grado uma sugestão do principal suspeito?

Na prática, por mais que exista um álibi, o confinamento voluntário do Light é a certeza de que ele é o Kira. Não é só burro, é ridículo e inacreditável. Sim, o plano era eliminar o L, mas a força tarefa precisaria ser muito burra para não testar secretamente o álibi que o confinamento criou.

Originalmente, esta seria a hora do arco Yotsuba, mas The Last Name adiantou a entrada da Takada na história para que ela fosse o terceiro Kira. É bom vê-la não sendo apenas uma subordinada do Mikami e do Light.

Ela já tinha aparecido duas vezes, demonstrando ser apoiadora do Kira. É como o que o primeiro filme fez ao mostrar a Misa antes dela ser importante. Em certo momento, o Demegawa apalpou a bunda dela e a apresentadora a aconselhou a não reclamar.

Mais adiante, a Takada mostrou uma pesquisa que indicava que 60% dos entrevistados apoiavam o Kira. Assim o filme valoriza a discussão moral e justifica a ascensão profissional da Takada, que se tornou apresentadora do programa.

Outro motivo para a ascensão foi ela, provavelmente, ter matado a antecessora. Achei pouco crível tal atitude. A apresentadora podia ser uma babaca e ter subido na carreira através de favores sexuais, mas o Demegawa era um assediador. Como poupar um e atacar o outro?

Cenas de comédia não são o forte de Death Note, mas é engraçado quando a Misa está toda amorzinho pra cima do Light no sofá, tenta se encostar nele, ele levanta e ela cai. É bobo, mas funcionou comigo.

Eis que o L está triste e o Light saca um gráfico que prova que o novo Kira se importa mais com crimes cometidos contra mulheres e noticiados pela TV Sakura. A conclusão é óbvia: Light pode ter sido o Kira original e o atual é a Takada. Ela podia ser mais esperta, mas não eram pistas muito claras e ela nunca lidou com perseguidores, diferente do Light.

O roteiro do filme conseguiu ser mais convincente que a descoberta do Mikami e da Yotsuba no original. O mais legal é que ele retirou a bobagem do “sabemos que um de nós é o Kira, mas não sabemos quem é”. Eu comentei sobre o arco Yotsuba no vídeo sobre a parte mais chata de Death Note e nas críticas dos vol. 5 e 6 do mangá.

A resolução da Takada é fluida, convincente e, basicamente, imita o plano contra o Higushi. O Matsuda foi a isca, a chantageou usando as gravações dela com o caderno e disse que revelaria tudo num programa ao vivo. Tem até o policial abordando o carro dela no caminho até a emissora.

Só que há um problema, o qual ocorre várias vezes no live action da Netflix: copiar um elemento do original sem copiar a base que confere coerência a ele. O L precisava conduzir o Higushi a um lugar controlado usando o Matsuda como isca para registrar o método de Kira.

Como no filme a força tarefa já sabia que Kira matava escrevendo nomes no caderno, bastava prender a Takada e usar o caderno como prova. É um erro de roteiro terrível colocar os personagens em situações desnecessárias que são tratadas como necessárias.

A retomada do caderno é bacana, mas o Light gritando no anime é melhor. O chato é que nessa hora há um flashback explicando o plano de perder a memória e reavê-la após pegar o novo Kira. É engenhoso, convincente e ruim por ser explicado em flashback.

Enquanto a Rem distraía os policiais, o Light usou a curiosa sacada do papel no relógio para escrever o nome da Takada. Acho que não devia ser possível ele escrever com a “agulha” pingada de sangue. É meio surreal.

O Light é tão burro que foi o primeiro a mencionar a regra dos 13 dias, algo que obviamente foi forjado por ele antes de sugerir o próprio confinamento. O uso da regra é uma grande burrice, pois bastaria verificá-la e o Light seria considerado culpado. Mesmo querendo pegar a Rem, esse plano foi irresponsável.

Partindo para o final do filme, o Light instruiu a Misa a pegar o caderno na floresta e voltar a ser Kira. Do outro lado, os policiais viajaram para cuidar do teste da regra dos 13 dias. L chamou a Misa para o QG a fim de pegá-la no momento em que ela tentasse escrever o nome dele, o que era muito arriscado, já que ela poderia escrever em qualquer lugar fora do alcance deles.

Mesmo conhecendo os próximos passos, é um momento empolgante. São os procedimentos finais dos planos do herói e do vilão. O Light usou a regra dos 13 dias para colocar a Misa sob suspeita e acionar o único mecanismo capaz de matar um shinigami.

A lógica de que deuses da morte não podem aumentar a vida dos humanos propositalmente é consistente, mas foi bem idiota a Rem ter morrido por conta de uma informação que ela mesma revelou ao Light.

Isso alivia a burrice do plano “terceiro Kira”? Sim. Faz deixar de ser uma burrice? Não.

Depois de ver Watari e L caídos, o Light menciona ser o deus do novo mundo. A segunda vez em que diz isso é após o discurso final. Não é exatamente incoerente, mas entra naquela incompatibilidade das ações do Light do filme com o ego que ele demonstrava ter, sendo bem diferente do Light original.

O Light escreve o nome do pai no Death Note e a força tarefa surge, junto com o L. O que aconteceu foi que o Watari trocou o caderno da Misa por um falso  e o L programou a própria morte para 23 dias depois, o prazo máximo do Death Note. Assim ele se blindou.

Este plano é mil vezes melhor que o plano final do mangá. A substituição do caderno é bem simples e não há aquela complicação toda de plano e contraplano. É fácil entender e é uma jogada crível.

É muito mais fácil acreditar que o Watari pegou o caderno da Misa escondido e o L se matou para conseguir uma prova contra o Light do que acreditar que o plano do Light era exatamente o que o Near precisava para evitar ser morto e arranjar uma evidência contra ele.

Toda a mirabolância excessiva que existe no mangá e no anime não existe em The Last Name, mas nem tudo são flores. Não faz nenhum sentido a Misa não ter percebido que o Death Note fora substituído. Ela parou de escrever nomes ou escreveu e não viu que nada estava acontecendo?

É bem legal a conversa de fim da linha com um pequeno debate moral. O Light diz que reduziu a criminalidade em 70% e o L diz que ele é só um assassino, o que é uma redução idiota. É uma repetição do diálogo do Light com o Near no armazém. Para mais considerações, assista meu vídeo sobre a justiça em Death Note.

O Light tenta usar o papel relógio e o Matsuda atira nele. Ele pede ao Ryuk que escreva o nome de todos e tem seu nome escrito. Não é tão humilhante quanto no mangá nem tão bonito quanto no anime.

Ele morre demoradamente nos braços do pai dizendo suas últimas palavras, sem abrir mão das convicções de Kira. Aqui há o choro da Misa, não a revolta sem sentido do Mikami (no caso do mangá).

Nesse pedaço final o Ryuk diz que quem usa o Death Note não pode ir para o céu ou para o inferno, tendo como seu destino o vazio. Embora o vazio seja mencionado como se fosse um lugar, acredito que a ideia seja que não haja vida após a morte.

Há um emocionante papo final do Soichiro com o L. E fica claro que o L admira figuras paternas, como o Watari e o próprio Soichiro. É uma morte triste, apesar de triunfal, ainda comendo doces.

1 ano depois a Sayu joga no ar a questão da criminalidade ter aumentado após o fim do Kira, assim como o Matsuda disse no mangá. No caso dela não é patético e o roteiro não fomenta essa discussão, embora o resultado estatístico seja óbvio.

O Soichiro fingiu que Light lutou contra o Kira até o final e a Misa ficou de boa, mesmo fazendo um pequeno santuário no aniversário do Light, pois perdeu as memórias do caderno.

É mais feliz que o final do mangá, onde a Sayu terminou catatônica, o Soichiro morto e a Misa se suicidou. Não é seco como no mangá, mas é mais abrangente que o anime sem perder o tom de humilhação da morte do Light. Este é o melhor final que Death Note já teve, entre anime, mangá, filmes e dorama.

Death Note – The Last Name juntou o estilo da morte do Light no mangá, o tom mais emocionante do anime e um contraplano inédito do L, finalizando a história, a certo modo, no arco Yotsuba. É mais ou menos isso que Tsugumi Ohba, autor de Death Note, deveria ter feito, em vez de criar Near e Mello.

O conjunto da obra

A duologia funciona mal de forma independente, pois os filmes, especialmente o primeiro, dependem do conhecimento prévio que temos da obra para serem compreensíveis. Apesar disto, o ritmo melhora muito em The Last Name, o que o torna mais robusto enquanto filme, sem aquela cavalgada narrativa que é o primeiro.

Como adaptação, a duologia faz o necessário para não ser um ultraje. Ela adapta muito bem a Misa, a força tarefa e o L (embora o ator faça umas caretas estranhas às vezes). Ela também altera consideravelmente o Light e muda muito a Takada.

No caso do Light está tudo bem, afinal, as mudanças não o descaracterizaram completamente. No caso da Takada, que era uma simples ferramenta na mão do Kira original, o trabalho do filme é mais interessante que o do mangá.

Em linhas gerais, a duologia faz acréscimos pontuais, interessantes e melhores que a versão original naquilo que havia de mais incômodo para muitos (o desfecho). Infelizmente, a transposição para as telas levou o enredo a ser corrido em alguns momentos e o roteiro peca pela falta de sentido em algumas situações.

A duologia japonesa Death Note é uma respeitável adaptação do mangá de Tsugumi Ohba e uma experiência recomendável para fãs. Acredito que somente para fãs.

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