Crítica | Tomie vol. 1: o pior de Junji Ito

Tomie é a primeira obra de Junji Ito, o mestre dos mangás de horror. Ela trabalha de diferentes formas as ações da Tomie, uma mulher que seduz homens e desperta neles o desejo de esquartejá-la. O detalhe a mais é que todo pedaço cortado de seu corpo cresce e vira outra Tomie.

Por ser um compilado de contos, fiz a análise história por história.

Tomie

É notável como a arte do Junji Ito é feia. Chega a ser ridícula de tão cartunesca, ganhando ares de amadorismo em vários quadros. Por outro lado, o roteiro é muito bom.

Como a narrativa usa a perspectiva da Reiko, somos levados a achar que ela é uma boa pessoa e que apenas houve um crime isolado contra a Tomie. A verdade sobre o esquartejamento é chocante, irritante e triste. Uma jovem foi morta por não ser querida pelos demais.

Com essa história de origem para a jovem que morre e volta (um tipo de história que eu gosto um bocado), Tomie estabelece que, ao longo da coletânea, eu dificilmente torcerei pela aniquilação da vilã.

A loucura de alguns personagens não é explicada, mas o que torna este conto uma história que exige sequência é a página final. Nela há uma Tomie que parece brotar do coração que a Reiko jogou da ponte. Bem bizarro.

Hospital Morita

Este conto estabelece de forma mais clara o fenômeno que circunda a Tomie. Partes cortadas do corpo dela se regeneram, formando uma nova Tomie. A escolha por mostrar isso através de um rim transplantado é extremamente assustadora.

A loucura é mais detalhada. A Tomie desperta no namorado traidor da doente o desejo de esquartejá-la, algo bem bizarro. De modo lateral, é mostrado que o professor Takagi, o ordenador do assassinato da Tomie, tem interesse nela a ponto de ir ao hospital vê-la. Por qual motivo? Suponho que saberei no futuro.

Em Hospital Morita, a história parece não evoluir, apenas alicerçar melhor a base do mecanismo que a moverá até o final.

Subsolo

De algum modo, a retirada da Tomie de dentro da Yukiko não a matou. Ao invés disso, ela se recuperou muito rápido. Aventaram a possibilidade de terem sobrado células da Tomie em seu organismo e isso futuramente matá-la, mas o desfecho foi bem mais assustador.

Não é que as células apenas se regenerem, formando um novo corpo, elas ativamente buscam uma forma de perpetuar a existência de Tomie. Como era possível se apoderar do corpo da Yukiko, Tomie o fez. É de arrepiar.

A ambientação hospitalar/científica é muito boa e empolga. A condução dos experimentos parece rumar para algum lugar e sinto que a história está andando. Essa sensação é ótima por ser acompanhada pela elevada qualidade do conto em si.

Acho válido chamar de conto porque claramente Tomie foi produzido com essa intenção. A prova disso é que os médicos têm um péssimo diálogo expositivo que resume o capítulo anterior.

Os desenhos da evolução das células da Tomie são bizarros e desconfortáveis. É um terror funcional.

Desta vez, o médico a matou e despedaçou para usar nos experimentos.

Fotografia

Este conto é bem desvinculado dos outros. Inclusive, não entendi a necessidade do começo com a chuva tão antes de ser útil. Ele explora a vaidade da Tomie e como o ataque a essa vaidade desperta o outro lado dela. E que outro lado mais assustador. Os desenhos da Tomie com o rosto extra me deram aflição.

O recurso de o sobrenatural aparecer em fotos é recorrente e sabemos tão pouco sobre a lógica da Tomie que parece que o que o Junji Ito quiser colocar na história vai funcionar do mesmo jeito. Diferente das histórias anteriores, nesta a Tomie age como se fosse uma vítima de um espírito que a possui e a faz sofrer com sua manifestação.

Para se livrar do encosto, ela pede que seus guarda-costas cortem o rosto extra e eles arrancam a cabeça dela sem querer. A sina do esquartejamento continua. O intrigante é que, por último, o rosto que pede para ser separado do encosto é o próprio rosto-encosto.

Este conto funciona bem de forma independente.

Beijo

Neste ponto eu comecei a me perguntar se fazia sentido avaliar cada pequena história. Esta é sequência direta da anterior e é muito próxima de um desdobramento genérico da premissa. Temos a Tomie perturbando a vida de uma pessoa, homens sendo enfeitiçados por ela e regenerações bizarras que me dão aflição.

Aqui aprendemos que ela pode fazer objetos alheios apoiarem sua reconstituição. No caso, um pedaço de plástico que envolvia seu sangue adquiriu a aparência do rosto dela. Ao final, várias pequenas Tomies brotam do carpete sujo de sangue. Muito, muito bizarro.

É interessante que a história do plástico chegou à mídia e a polícia está curiosa para saber o que foi que aconteceu no quarto ensanguentado da fotógrafa. Desse mato pode sair coelho.

Mansão

Enfim foram explicados o velho e a guria que surgiram misteriosamente na chuva. A Tomie usá-los para entender o funcionamento de seu corpo e assim se controlar faz sentido, mas por que o professor Takagi iria ajudá-la? Por que ela aceitaria a ajuda? Por que ele estava disfarçado de velho se eles entraram na mansão juntos?

Parece que Tomie é uma sucessão de capítulos quase irrelevantes compostos por cenas aflitivas unidas por um fiapo de enredo. Eu nem preciso gravar ou citar os personagens que são, em teoria, protagonistas dos contos. Sinto que estou lendo nada.

A fotógrafa de contos passados reapareceu. Começo a achar que terei com Tomie a decepção que tive com a saga do Oshikiri: vários detalhes jogados aqui e ali que, no fim, não servirão para nada.

Vingança

Uma genérica aventura congelante envolvendo a Tomie. Este conto pode ser facilmente separado do compilado e funcionar como uma história curta do Junji Ito. Existe a vontade de picotar a Tomie, o feitiço amoroso dela e a demonstração bizarra de seu conceito.

Achei particularmente estranho o final dela comendo o rapaz, pois foi a primeira vez em que ela comeu alguém. Não é uma história assustadora, mas é uma narrativa bem feita. O problema é que ela é insignificante, uma vez que conheço a premissa de Tomie e já a vi ser explorada genericamente várias vezes.

Queda D’água

Este conto segue mostrando o lado comilão da Tomie e, para a surpresa de ninguém, apresenta um novo fenômeno peculiar vindo da vilã. O Takagi vai a uma vila vender pedacinhos da Tomie por motivos desconhecidos, joga todos numa queda d’água e lá as Tomies se desenvolvem.

É interessante e criativo. É possível concluir que o objetivo atual do Takagi é espalhar a Tomie por aí, talvez seguindo um instinto de sobrevivência: reproduzir e ocupar a terra. Por isso as Tomies saíram da água e se espalharam por aí.

O avanço é mínimo, mas é o suficiente. É tão diferente do que fora mostrado até o momento que temi que as histórias anteriores fossem mesmo descartáveis.

Pintor

Fechando o vol. 1, Pintor mostra o fenômeno Tomie aplicado às artes. Ela deixa um pintor e um escultor obcecados por transpor a beleza dela para suas artes. Há as referências ao problema da Tomie com fotos e com ser despedaçada.

A história é consistente e boa, mas já saber a aparência da pintura definitiva na primeira página tira muito peso do final. Devia ser surpreendente, mas não é. O resultado é satisfatório, só que poderia ser muito bom.

O conjunto da obra

O primeiro volume de Tomie é uma coletânea de aventuras praticamente genéricas da protagonista e vilã. Existem momentos de criatividade na maioria dos capítulos, entretanto, depois da metade do mangá, tudo fica meio repetitivo e perde a graça.

Tomie é interessante, mas, em pouco tempo, se torna cansativo. O melhor conto é o primeiro, a origem da personagem. Ele é incrivelmente mal desenhado e impactante. Fora essa experiência inicial, o mangá é um trabalho abaixo da média de Junji Ito.

É até chato analisar a obra, pois não há uma história-macro. A cada conto eu tenho mais ou menos as mesmas considerações a fazer: é criativo, pouco relevante e razoavelmente assustador.

Dúvida: a morte inicial da Tomie já era parte da maldição ou motivou a maldição? É a única questão mitológica relevante na história.

Até este ponto, Tomie conquista o posto de Frankenstein como pior obra do Junji Ito.

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