Crítica | Tomie vol. 2: chato pra chuchu

Tomie é a primeira obra de Junji Ito, o mestre dos mangás de terror. A análise do vol. 1 já foi feita no Blog do Kira e tive a ligeira impressão de que os contos deste volume são melhores que os do anterior.

Por Tomie ser um compilado de contos, fiz a análise história a história, conforme lia.

Assassinato

A coletânea já começa alterando o modo de ser. A Tomie sempre se regenerou, mas aqui ela leva um golpe, “morre” e depois volta. Pela primeira vez é mencionado que queimar o corpo resolve o problema e, por motivo desconhecido, as Tomies querem se aniquilar e ficam enviando escravos para fazê-lo.

Além das informações mitológicas novas, a Tomie se comporta como uma mimada insuportável, pedindo para passear e comer comidas requintadas. Com isso o conto parece deslocado e chato, sem que suas adições sejam devidamente esclarecidas. Péssimo cartão de visitas. E ainda termina sem concluir o atrito.

Cabelo

Este conto é provavelmente o melhor da saga. Ele menciona brevemente a sina do assassinato da Tomie, mas, em grande parte, foca em explorar um terror psicológico relacionado ao efeito Tomie. É como uma perspectiva em primeira pessoa sobre o encantamento causado pela vilã.

Fica claro que a Tomie também encanta mulheres e a história a resume ao cabelo místico. É idiota a Miki encostar o fio na cabeça da protagonista, mas é assustador ver que o fio ficou preso. A sequência com as alucinações e a deterioração mental da protagonista é um terror crescente muito eficiente.

Deixando o terror psicológico de lado, infelizmente, o Junji Ito faz umas cenas aflitivas com fios de cabelo no rosto e muitos, muitos fios saindo do corpo da Miki. É funcional, mas se ficasse no campo psicológico seria bem melhor.

Mais uma vez, o final é inconclusivo, pois não sabemos que fim levou o fio de cabelo aprofundado no cérebro da protagonista.

Além de ser uma história bem independente, o mecanismo mais simples torna Cabelo o conto mais eficiente, caso separado da premissa de Tomie.

Adotada

Mais uma pérola de Junji Ito que parte da necessidade de seguir a premissa de Tomie atrapalha. A história é interessante, boa e assustadora, mas deixa de ser redonda por conta do assassinato, o qual, neste conto, destoa muito.

O assustador não é uma página aflitiva, mas sim a atitude da empregada. Ela estava se comportando bem, sendo boa com o casal e eu havia me afeiçoado a ela. Quando a revelação da morte das filhas adotivas veio, foi um choque.

Há um bom terror também no boato ilustrado sobre os idosos serem sanguessugas das filhas adotivas. Imaginei que a história seguiria esse caminho, o que não seria ruim. A criatividade da trama me agradou.

Aqui há a Tomie fresca que quer comer caviar e foie gras, mas num contexto de família rica não é tão bobo quanto a cabeça mimada de um conto anterior. Inclusive, a parte mais assustadora do conto foi quando eu pesquisei “foie gras” e li que ele é o fígado de um ganso que foi forçadamente alimentado à exaustão.

Mindinho

O começo é a história padrão da Tomie enfeitiçando homens, com o detalhe de que o homem mais feio, Hiroya, acredita que a paquera dela é zombaria e a rejeita. Isso a deixa obstinada a conquistá-lo. É uma conduta interessante.

Finalmente algo mitologicamente relevante ocorre: o Hiroya, refugiado em uma caverna, queima quatro dedos da Tomie (claro que ela foi despedaçada anteriormente). Embora tenha sido sugerido que queimar resolveria o problema, os quatro dedos se regeneraram e originaram quatro Tomies. Talvez isso signifique que é impossível deter o retorno dela sem desintegrá-la por completo.

O máximo de “terror Junji Ito” que há aqui é a aparência da dedo mindinho, que demora mais para se recuperar das queimaduras. A parte do bullying com a mindinho me soou boba, mas não tornou o conto ruim.

Garotinho

Sem cenas grotescas, este conto mostra os encantos da Tomie atingindo um garotinho. O processo é mais ou menos o mesmo. O encanto desta vez teve um tom maternal e o garotinho fica chamando a Tomie de mãe.

Depois que surge um novo homem para a Tomie, ela dispensa o garotinho, que acerta o homem com uma tesoura. Surpreendentemente, a protagonista não terminou despedaçada. Apesar de não estar mais envolvido com ela, um quadro diz que o garotinho seguiu cometendo crimes.

É diferente, mas não a ponto de ser um incômodo. Garotinho é mais uma aventura genérica irrelevante da Tomie.

Mosto

Este conto é uma experiência psicodélica. Ele trabalha duas possibilidades que o fenômeno Tomie permite: moê-la mais e mais a cada regeneração e misturar isso com líquido. É uma história bizarra conforme a mistura avança e os homens tomam a bebida proveniente do processo.

Aí surgem várias cabeças flutuantes de Tomie, várias miniTomies, várias Tomies num mar de saquê e uma Tomie megazord. É uma viagem completa que termina com a dúvida sobre o quanto daquilo foi real ou alucinação dos homens.

É mais interessante e inusitado do que assustador, mas não é completamente descartável. Além de ser uma experiência legal, talvez signifique que a Tomie tem sua regeneração acelerada caso seja trabalhada junto a álcool ou algo do tipo.

Babá

Eis um conto muito destoante do que é Tomie. Aqui a Tomie é uma cabeça brotando de um coração que um casal trata como bebê. A protagonista é uma babá chamada para cuidar dela.

O primeiro problema é que a Tomie nunca mencionou gostar de ver incêndios ou da cor vermelha, que é a base para a reviravolta do casal incendiário (uma boa sacada, inclusive). O segundo problema é a Tomie agir como bebê, algo também inédito. Ela estava fingindo, mas destoa demais de seu comportamento ao longo do compilado.

O estranhamento teria diminuído se o final do conto fosse a Tomie ser despedaçada ou a protagonista se suicidar, mas o sangue dela ser elogiado por ambas parece incompatível com o estilo da saga. Especialmente por ser inconclusivo.

Certa Reunião

Esta é uma versão um pouco mais tradicional da Tomie, com ela enfeitiçando um grupo de homens que a adoram e que, no fim, tentam despedaçá-la. Ela menciona comer caviar e foie gras, além de ficar mais interessada pelo protagonista após ele rejeitá-la.

Embora as repetições sejam interessantes, a história não empolga por eu já ter visto formas parecidas de desenrolar as características da Tomie. O que se salva é que, até o fim, o protagonista não cai no canto da sereia, ainda que seja atormentado por sonhos com aquela reunião maluca.

Maníaco

O que aconteceria se sangue da Tomie fosse injetado em bebês? É disso que trata este conto. A tomielização acompanhar o desenvolvimento humano faz sentido e foi um alívio, pois pensei que mudariam as regras da Tomie para mostrá-la mais jovem.

Essa novidade o torna bem interessante e o fato de haver um homem estranho que coordenou tal experimento sugere que o conto é uma sequência da história-macro de Tomie.

Eu estava animado, até que o homem explicou que sua intenção era fazer uma Tomie que pudesse envelhecer e ficar furiosa com a deterioração de sua aparência. Essa motivação ridícula foi a pá de cal em Tomie.

O conto lembra que as Tomies podem enviar homens para caçar as outras Tomies e o desfecho é inconclusivo. Não sabemos que fim levaram as três Tomies, a irmã da “Ayaka” e o homem misterioso. Bem que ele podia ser o professor Takagi.

Top Model

Como fui escrevendo conforme lia, vocês podem imaginar a minha grata surpresa quando o conto seguinte explicou a origem do homem misterioso. No momento em que ele apareceu queimado eu fiquei feliz com a possibilidade de ser o passado da história anterior.

Mais que isso, o desfecho embasa a raiva que ele tem da Tomie e sugere que o conto seguinte prosseguirá em sua jornada de vingança. É uma eficiente história de origem, ainda que eu continue achando idiota o objetivo do homem.

Como conto isolado, é mais uma demonstração aflitiva do fenômeno Tomie, com menção ao problema que ela tem com fotografias e sem o despedaçamento.

Decrepitude

O conto final de Tomie finaliza o miniarco do modelo. É razoavelmente empolgante ver a tentativa de preservar a Tomie e a menção à outra cabeça que surge quando a Tomie fica estressada, um conceito que sequer foi utilizado neste volume.

É surreal que o modelo e a irmã tenham aprisionado a Tomie em um bloco de concreto por décadas e a aparência dela velha não tinha nada de mais. Seria um desfecho aceitável, embora não estivesse à altura da minha expectativa.

Infelizmente, Junji Ito nos brindou com o maior defeito de Tomie. Na verdade, ela escapou do bloco de concreto algum tempo após ser aprisionada. Ou seja, não é um final conclusivo. Depois de trocentos contos genéricos da Tomie, não há uma história-macro.

Não há confirmação sobre o desintegramento do corpo eliminar a existência dela, não há explicação sobre as atitudes do professor Takagi ao longo da trama e não há explicação sobre a natureza da Tomie e a origem de seu fenômeno sobrenatural.

O conjunto da obra

Em síntese, Tomie é uma coletânea de contos genéricos que usam de maneiras diferentes a personagem Tomie: uma bela jovem que detesta ser deixada de lado, detesta ter sua beleza menosprezada, controla homens hipnoticamente, gosta de caviar e foie gras, desperta nos outros o desejo de esquartejá-la e se regenera a partir de qualquer pedaço separado de seu corpo, podendo originar infinitas novas Tomies.

O vol. 2 é bem melhor que o vol. 1, mas Tomie tem um nível de qualidade insatisfatório. A criatividade torna Fragmentos do Horror uma experiência válida, mas Tomie perde muito por ser uma história repetitiva e inconclusiva. O maior agravante é ser uma história longa.

A sensação que fica é de que não vale a pena ler Tomie. Outras coletâneas de Junji Ito fornecem um terror mais eficiente e as histórias longas são bem desenvolvidas, apesar de Uzumaki e Gyo terem finais discutíveis.

Por falhar na comparação com outros compilados e com histórias longas, a duologia Tomie é a pior obra de Junji Ito, entre as lançadas no Brasil (ainda não li A Sala de Aula que Derreteu).

Observação: a saga de Oshikiri em Frankenstein me irritou muito, mas Tomie me entediou, o que é pior.

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