Crítica | Death Note – Iluminando o Novo Mundo: o pior de todos

Foi lançada, em 2006, uma dupla de live actions de Death Note. Apesar de possuírem diferenças sensíveis em relação ao material original, os dois filmes adaptam até a morte do L e finalizam a história sem Near e Mello. 10 anos depois, resolveram fazer uma continuação para O Último Nome, sendo esta uma história inédita.

Uma das regras do Death Note é que só pode haver seis cadernos no Mundo Humano simultaneamente. A premissa do filme é: o que aconteceria se seis cadernos estivessem em mãos humanas? É uma ideia interessante e inusitada o suficiente para atrair a atenção de qualquer fã do material original.

Outro detalhe legal de Iluminando o Novo Mundo é seu título original: Light up the New World. Embora o título em português seja uma tradução, imagino que o “light” tenha a intenção de referenciar a influência/estadia do Light Yagami no mundo pós-Kira (o novo mundo, título do episódio final). Gosto dessa sacada, embora ela se justifique principalmente na ideia mais imbecil do filme, a qual abordarei mais adiante.

Há duas introduções. A primeira é naquele estilo “texto com fundo preto”, que lembra os falsos documentários. Ela conta que o rei Shinigami gostou do Kira e ordenou que fosse encontrado um sucessor para ele.

Diferente da participação do rei no péssimo Justice or Evil, aqui sua atitude não contradiz a passividade durante os 12 volumes do mangá. É um jeito eficiente de estabelecer a premissa do filme e da franquia.

Um médico encontra o Death Note e o usa para matar um doente que quer morrer. A discussão moral que poderia vir dessa atitude é bem interessante e é uma razão plausível para escrever no caderno. O espectador tende a achar que o médico é o “Kira principal” e esta seria uma ótima forma de apresentá-lo.

Na segunda introdução, o filme estabelece de forma empolgante o retorno de Kira, o impacto de suas ações no mundo e a entrada do sucessor do L no caso. Bonita, épica e empolgante, é uma sequência muito bem executada e destoou da minha lembrança negativa do filme, o qual assisti anos atrás.

Após a revelação de que um dos Kiras é um ciberterrorista, em um contexto de programação, surge um vídeo do Light dizendo que escolheu o ouvinte como sucessor e falando em ligação sanguínea. Isso é uma preparação para um futuro plot twist, embora não o torne menos ridículo.

Aí vem a primeira lambança. Uma Kira vai matando pessoas na rua sem motivo e a força tarefa vai atrás dela. Como sabiam que ela era o Kira? Não mencionaram que uma câmera de segurança registrou o caderno nas mãos dela e não explicaram a ida da força tarefa ao local, afinal, eles sabiam que Kira pode atacar à distância.

A longa sequência do massacre é assustadora, mas é muito nada a ver. Death Note não é assim. A marca principal do mangá e do anime é a estratégia e o duelo intelectual, não essa loucura. É possível que uma maluca pegasse o caderno e saísse escrevendo nomes de forma frenética e aleatória, mas é muito burro incluir isso num filme de Death Note. É uma ofensa ao original.

No meio da correria da multidão, surge o Ryuzaki (codinome supercriativo do sucessor do L). Além do problema mencionado sobre a força tarefa, de que valia sua presença se a polícia já estava lá? Mesmo que ele não soubesse sobre a polícia, não ganharia rigorosamente nada confrontando a maluca pessoalmente.

Aproveitando a menção, vou comentar sobre três aspectos/personagens relevantes do filme.

Ryuzaki, o ridículo

É hora de falar sobre o sucessor do L. A máscara dele é mais ridícula do que a que L usou no O Último Nome. Além da máscara, os trejeitos do Ryuzaki são ridículos e exagerados.

Além da movimentação estranha na cena em que aborda a maluca, ele mostra a língua para o Mishima, o protagonista, e faz umas caretas aqui e ali. Destaco negativamente as cenas imbecis em que ele aponta a arma para si próprio e para o Mishima.

O roteirista não entendeu que o L é um pouco excêntrico e inteligente. Seu sucessor, escolhido pelo próprio, é muito excêntrico e nada inteligente. A burrice dele atrapalha a empatia e tira a justificativa para a existência do personagem.

Se o Ryuzaki não acrescenta intelectualidade à força tarefa, ele inutiliza o espaço que ocupa. Pior que isso, a falta de inteligência inviabiliza a percepção de que ele é um grande adversário, o que arrebenta a coerência narrativa do plot twist sobre o verdadeiro Kira.

Misa, a songa monga

Os investigadores citam a Misa, o Light e a queda de 70% na criminalidade. Neste momento, um policial genérico diz que o Mishima é fã do Death Note. Imagino que tenha sido uma referência ao público. Eu teria achado as menções ao Light e à Misa legais se o filme não os colocasse como atores da trama. Principalmente a Misa, que age de forma ilógica.

No final de O Último Nome, a Misa está serena fazendo um altar (ou algo do tipo) para o Light. Isso dá a entender que ela sabe que ele morreu. Sendo assim, por que ela ficou abalada com as palavras do Shien sobre o Light estar vivo?

Por mais que tenha perdido as memórias relativas ao caderno, ela não deve ter esquecido que o viu morrer. No original ela lembrava que tinha conhecido o Light e o amava mesmo com a perda das memórias.

Em Iluminando o Novo Mundo, ela recobra as lembranças ao tocar o caderno e, no final, diz ao Shien que o Light está morto com base na visão que ela tem ao olhar com os olhos de shinigami para a foto dele.

Exageros como a voz do Light no aparelho que estava dentro do pacote de salgadinho não são cabíveis. A Misa é uma songa monga, mas nem tanto.

Sem tocar o caderno a postura da Misa já seria incoerente. Ela estar no filme é injustificável, pois nada exclusivo dela importa para o andar da trama, exceto o herdeiro do Light. E aí entra a decisão criativa mais imbecil do roteiro.

O filho do Light

Caso você não tenha assistido ao filme, a ideia é a seguinte: o Light deixou uma gravação orientando o filho a ser o Kira, esse filho foi escondido, criado pelo promotor do caso da Misa (Mikami) e recebeu do Ryuk o Death Note. Mikami e o garoto enlouqueceram e o caderno foi pego por outra pessoa.

Essa decisão contém inúmeros problemas. Quando o Light fez esse filho? Com quem? Por ser o promotor da Misa o tutor, supomos que tenha sido com ela, mas quando eles tiveram tempo para tal? Não deve ter passado nem uma semana entre o primeiro encontro deles e a prisão da Misa. O mesmo vale para o período após o Light retomar o caderno.

Demoraria algum tempo até o Light saber que a Misa estava grávida e não vimos absolutamente nada que sugerisse que o Light tinha planos de orientar o filho a sucedê-lo. Isso só faria sentido se ele soubesse que falharia em breve, do contrário, por que gravaria o vídeo e o daria ao Ryuk?

Mesmo ignorando que os filmes anteriores não dão base para a existência desse herdeiro, a existência dele continua sendo estranha. Embora o filme dê a entender que a Misa é a mãe, ela mesma nunca fala sobre ele.

Por que o filho não seria criado pela mãe? Por que o tutor seria o Mikami se ele era o promotor, alguém que acusa, não um ajudante da Misa? Quem escondeu o filho se não havia um herdeiro imediato da vontade do Light? Mesmo se houvesse, aceitar que a Misa escondeu o filho é como aceitar que ela continuou sendo o Kira, mas alguém precisaria tê-la explicado a história toda.

A escolha do Ryuk de entregar o caderno a uma criança é risível. Ele está observando os humanos há centenas ou até milhares de anos e não percebeu que a capacidade intelectual das crianças às vezes não é o suficiente para impedi-las de colocar o dedo na tomada ou comer terra?

Quem é o idiota que achou que fazia sentido colocar o Death Note nas mãos de uma criança simplesmente por ser o filho do Light? Death Note não é Dragon Ball para o filho do protagonista necessariamente ter algo que o torna especial. É idiota da parte do Ryuk e do roteirista.

O filme finge que entende o parágrafo anterior e informa que o Mikami e o garoto enlouqueceram. Enlouqueceram por quê? Como? Especialmente o Mikami, que era um adulto. Quando eu falo que é idiota entregar o caderno a uma criança é porque ela pode escrever nomes sem pensar direito e não conseguir traçar um plano ou uma meta. Isso é muito diferente de enlouquecer.

O roteiro escolheu essa saída rápida e sem sentido para “explicar” como o caderno foi parar na mão do verdadeiro Kira. Detalhe que vimos o Kira matar o Mikami sem maiores explicações e a criança nem apareceu. Esse é o nível de profissionalismo da produção de Iluminando o Novo Mundo.

O ponto a ponto continua

Aparentemente, o Kira que matou a maluca estava fisicamente próximo também. Tanto os heróis quanto os vilões ignoram que o caderno acerta à distância.

É chato que o roteiro resume os acontecimentos num monólogo do protagonista. Ele basicamente repete o que o shinigami da maluca disse e constata o óbvio: basta pegar os seis cadernos e o problema é resolvido. Curioso que os detalhes importantes o filme nem tenta esclarecer.

O vídeo do Light é um vírus que se espalha por toda a rede. Não tenho certeza quanto a ele ser em parte montagem ou apenas um recorte do vídeo original. Considerando que o hacker conhecia a identidade do Light, faz sentido ele escolhê-la como a personificação de Kira e querer ter uma personificação. Um homem é mais eficiente em arrebatar multidões do que um anônimo. Apesar de coerente, achei um exagero roteirístico saudosista.

Conseguiram fazer um Ryuk pior que o dos filmes antigos. Não pela computação gráfica, mas pelo design estranho, envelhecido e desnutrido. Ele tem um cabelo meio grande que me incomodou.

A Misa estava sendo vigiada e encontrou o Shien escondido no carro. Como a força tarefa não o viu entrar no carro? Ele usou um esquema de manipular a câmera, mas só o ativou após estar diante da câmera. Assim como não faz sentido a Misa cogitar a possibilidade de o Light estar vivo, não faz sentido o Shien achar que conseguiria convencê-la a ajudá-lo dizendo isso.

Tem uma shinigami que é muito parecida com o Sidoh e é visualmente incrível. O Death Note dela pertence ao Ryuzaki e não há uma tentativa do filme de explicar como o caderno foi parar nas mãos dele. Pelo menos o visual dos shinigamis, fora o Ryuk, ficou bom.

Antes de morrer num restaurante, uma mulher diz “Kira, você não terá os Death Notes”. Isso viola uma regra do caderno. As vítimas não podem dizer o que não seriam capazes de dizer em condições normais. O teste que o Light fez no original com a frase “eu sei que L é suspeito da polícia japonesa” prova isso.

Acho essa regra idiota, uma vez que nem todos têm tendências suicidas e essa causa continua funcionando, mas ela existe. O Mishima supõe que quem fez aquilo foi um portador do caderno que se opõe ao novo Kira e isso é explicado de maneira razoavelmente sutil.

Um chefe de justiça tem o Death Note e mata apoiadores de Kira. Duplamente contraditório, pois ele usa o caderno para descumprir a lei e para punir aqueles que apoiam o descumprimento da lei. O Shien pega o caderno dele e o mata fazendo-o dizer que Kira já eliminou 3 portadores do caderno, fora este.

É mais uma quebra daquela regra e, caso ele estivesse falando a verdade, não teríamos o visto deter dois portadores (um seria a maluca). Se não for mostrar os demais donos de Death Notes, de que adianta jogar seis no Mundo Humano? E para que esse showzinho? Contar vantagem?

A essa altura, o Shien já tinha quatro cadernos. O dele, o do chefe de justiça, o da Misa e um que não vimos. Restava um com a polícia e o outro com o Ryuzaki. O chato é que essas trocas de posses não envolveram batalhas intelectuais e a quantidade de cadernos me fez ficar preocupado com deixar passar alguma informação, o que prejudicou a experiência.

O Ryuzaki viu na internet quem foram os portadores do Death Note mortos pelo Kira: o médico que teve destaque inútil no começo do filme (foi pincelado/sugerido que ele matava suicidas, algo bem explorado no Tokubetsu Hen) e um corretor que agia como a Yotsuba.

Kira ameaça o Ryuzaki usando uma mensagem em um canal de TV, como no original. Ou ele revela sua identidade ou haverá um massacre. No anime faz sentido, pois L era uma ameaça para Kira. Por outro lado, este L não estava nem perto de descobrir a identidade do vilão. Pensando bem, o lado policial do filme praticamente não faz nada.

Alguém pergunta ao Matsuda o que L faria diante da ameaça e ele diz que não é o L. O que esse idiota faz na força tarefa?

A resposta do Ryuzaki é um vídeo do L falando como se o Kira fosse o Light. Não faz sentido, é bobo, não resolve o problema da ameaça e é uma gracinha artificial demais para agradar aos fãs.

O plano do Ryuzaki era pedir ao Kira que entrasse em um site e rastreá-lo a partir disso. Deve ter fanfic com planos mais interessantes que este.

Kira e a força tarefa batem papo por chat, a polícia localiza o sinal e acha que vai pegar o Kira. O mesmo Kira que hackeou o mundo todo com o vídeo e usou imagens do Light, cuja identidade poucos sabiam. O roteirista do filme não é esperto o bastante para escrever um plano convincente. Há zero tensão nessa sequência e ela é ridícula em essência.

O plano idiota demora muito tempo até chegar à óbvia falha. O surpreendente foi o Matsuda ser alvejado ali, uma demonstração de arrogância compatível com o estilo do Light. Isso foi legal, mas vale destacar que este foi o único plano do Ryuzaki no filme (o que ele faz no final não merece ser chamado de plano).

Na primeira atitude sensata da polícia em toda a franquia Death Note, a força tarefa é desfeita e outro grupo passa a cuidar do caso.

O Mishima vai à casa do Ryuzaki para confrontá-lo e este diz que prometeu ao L que não usaria o caderno para resolver o caso, condenando inclusive escrever o próprio nome, o que atendia a um pedido do próprio L. O contraste que isso tem com o que o salvou torna este princípio contraproducente para o filme.

O Mishima o deixa com o caderno por confiar a ele o confronto com o Kira. O problema é que o Ryuzaki não explicou o plano e não há motivo para crer em sua inteligência. No vídeo do L havia uma mensagem codificada: “eu tenho o último Death Note”. É evidente que haveria uma tentativa de negociação, mas o Ryuzaki parece burro demais para ludibriar o Shien.

Após sair da casa, Mishima foi detido por suspeita de conexão com o Kira. Foi só mudar a composição da força tarefa e mataram a charada em um dia. Impressionante. Na hora, é claro, eu achei que a detenção fosse uma bobagem sem sentido.

O “plano” final

Sem explicação, o Ryuzaki liberou o Mishima e o levou para pegar o Death Note da polícia. Ele alterou as câmeras de segurança para parecer que eles não estavam naquela sala, como o Shien fez. Ele disse que aprendeu com o Shien, mas como teria aprendido se ele não sabia sobre o encontro do Shien com a Misa? Essa é a prisão mais insegura do mundo.

O Mishima topou acompanhar o Ryuzaki ainda sem que ele explicasse seu plano. A pedido do Ryuzaki, parte da força tarefa se reuniu para tentar pegar o Kira. Eles não podiam fazer isso legalmente, uma vez que o Ryuzaki é um sujeito com credibilidade perante as autoridades?

O que mais me incomoda é essa crença num Ryuzaki que fez aquele plano idiota e não explicou a negociação. Não dá para chamar de plano porque não há justificativa razoável para o Kira confiar nele e vice-versa.

É muito diferente de quando o Mello sequestrou a Sayu. Lá havia uma troca, aqui não há. Por que eles se encontrariam? Para o Ryuzaki desistir entregando seus cadernos? Se fosse o caso, o Shien não precisaria levar os próprios Death Notes.

Como me parece óbvio que ambos não têm motivo para ir ao encontro e não sei o que eles planejam, é como se eu estivesse assistindo nada, o que é muito chato.

Eles combinam de tocar em pedaços de papel do Death Note para checar se são reais. O Ryuzaki vê o Ryuk e o enviado do Shien vê “a” Sidoh. Só tem um pequeno problema aí: o fato de eles deixarem um pedaço do caderno em algum lugar não significa que o conteúdo da maleta é um caderno verdadeiro.

Observando tais condições, é arriscado demais um deles se aproximar do outro, mas, ainda assim, o fazem. O Ryuzaki tirou a proteção do rosto no meio de um lugar movimentado sem ter qualquer garantia de que não seria morto por um Kira sorrateiro (ou será que ele tinha a garantia?).

Apesar de poder atacar à distância, a Misa chegou pertinho do Ryuzaki. Ela mal terminou de escrever e o Ryuzaki já caiu. Esse não conhece a regra dos 40 segundos. É engraçado que o Shien só precisava estar fisicamente próximo do Ryuzaki para pegar a maleta, mas foi lá em pessoa, em vez de orientar a Misa a escrever o nome, pegar a maleta e sair de fininho. Esse Kira é meio burro.

Quando eles se encontraram no carro, o Shien disse para a Misa algo como “Light estará no lugar mais especial para ele”. Ele pergunta a ela, ela diz ao lado do Ryuzaki e o Mishima ouve pelo comunicador. Conveniências de roteiro. Eu não sei o motivo de a Misa dizer o lugar e não sei o motivo de o Shien ir até esse lugar, sendo que ele não recebeu instruções do tipo: “vá até o lugar especial para o Light”.

Policiais da força tarefa foram em direção à Misa e ela os matou tão rápido que nem pareceu que demora 40 segundos para a escrita surtir efeito. A cobertura do rosto deles foi desfeita pelo Shien, que passou pelo menos um minuto falando com a Misa. Como os policiais não o identificaram como ameaça? Ele estava com a maleta do Ryuzaki, oras bolas.

A caminho do fim

O desfecho da Misa é escrever o próprio nome no Death Note. Seria emocionante se o filme a tratasse como ela merece.

E daí toda a sequência “épica” do Shien no hotel? Pôr do sol lindo, mas e daí? O filme investe tecnicamente na cena, mas o roteiro não a torna relevante.

O Shien dá a entender que espera a chegada do verdadeiro Kira, que o controla pelo medo. Por quê? Como o verdadeiro saberia o local especial? Como teria certeza de que a Misa acertaria?

Em vez de colocar uma máscara, o genial Mishima tapou o rosto com o braço e não atirou logo no Kira, o que permitiria que ele pegasse o caderno rapidamente. Aí o Ryuzaki surge de máscara, a tira (por quê?), diz que é o Kira (por quê?) e o Shien escreve seu nome. Após 5 segundos, o Shien questiona o motivo de Ryuzaki continuar vivo.

O roteiro ignora sistematicamente a regra dos 40 segundos. É incrível como Iluminando o Novo Mundo consegue juntar tantos erros óbvios em tão pouco tempo. Sem piada, acho que esse trecho dos três no hotel é a cena com a maior quantidade de erros sérios que eu já vi.

A sobrevivência do Ryuzaki indicava que ele havia escrito o próprio nome no caderno, como o que o L fez e ele disse que não faria. Isso seria muito irritante, mas explicaria mais ou menos a intenção dele no encontro com o Kira. Só que ele não escreveu, embora fale como se soubesse que o nome dele foi escrito.

Ele não poderia ter visto o nome escrito, pois o verdadeiro Kira não poderia ter usado o caderno da maluca ou o do Ryuzaki. Mas, se não tivesse visto, por que ele fingiria que o ataque funcionou? Ainda haveria o problema de ele mostrar o rosto sem nenhum plano para pegar o Kira.

O Ryuzaki diz que, antes de se encontrar com a Misa, o Ryuk contou tudo. O flashback ridiculamente rápido mostra o shinigami dizendo “igual ao L? Haha”, ou seja, dizendo nada. O Ryuzaki achou que o Ryuk disse “igual ao L” porque ele morreria numa data futura como o L? Primeiro que o Ryuk só repetiu o que ele havia acabado de falar. Segundo que é um salto lógico absurdo.

O Ryuzaki sabe que o desaparecimento do Mikami foi investigado pelo Mishima e supõe que ele possa ter descoberto algo e abdicado da posse do Death Note. Muito surpreendente, mas a base que ele tinha para dizer isso agora era a mesma que ele teve ao longo do filme inteiro. É mais uma tirada da cartola que o roteiro nos oferece.

Adendo rápido: um filme como o arco Yotsuba cujo plot twist é a revelação de que o protagonista é o Kira seria incrivelmente incrível. Nesta escolha de plot twist, Iluminando o Novo Mundo beirou a genialidade.

A revelação não explica a ida do Shien ao local especial, não explica o interesse em matar o Kira e ter dito que era controlado pelo medo. Seria melhor se o Ryuzaki não dissesse nada e a revelação viesse de surpresa, junto com as memórias do caderno.

A recuperação é poética e bem feita, mas revela as bobagens que eu comentei lá no tópico sobre o filho do Light.

Quando o sucessor do L entrou no caso, o Mishima fez o acordo dos olhos, escreveu o nome do Ryuzaki e mandou o caderno e a mensagem do Light ao ciberterrorista. Por quê?

O Light abriu mão da posse para se provar inocente e eliminar o L, mas o Mishima não era suspeito e já tinha os olhos de shinigami, o que permitiria a ele eliminar o Ryuzaki. Fora que não havia qualquer evidência de que o caderno voltaria para as mãos dele. Não faz o mínimo sentido essa atitude.

O roteiro sequer tenta explicar o motivo de o Mishima ter programado o ataque ao Ryuzaki.

Vale ressaltar que o Ryuzaki nunca suspeitou de ninguém.

Aí o Shien usa o superoriginal truque do relógio para tentar matar o Mishima. Ele não tinha motivo para isso. Acho que ele não conseguiu terminar de escrever, mas a dublagem e a legenda dão a entender que ele terminou.

O Ryuk diz que tudo saiu como planejado. O que foi planejado? Passar o caderno a alguém que o usaria bem? A mensagem do Mishima para o Shien foi só o vídeo do Light, nada complexo. Ele não orquestrou o que aconteceu durante o filme (o que seria uma reviravolta muito mais legal).

Eis que surgem helicópteros atiradores. Em vez de mandar uma equipe sorrateira, o chefe policial burro usou um método espalhafatoso e pouco preciso que deu aos três chance de reagir e fugir. É bem conveniente chegarem depois da conversa. Como sabiam que era ali o encontro dos três?

O Ryuk trai seus princípios, sai tirando os capacetes dos policiais e assim o Shien os mata. De novo morrem quase imediatamente. No meu tempo, quando o Kira estava sem saída o Ryuk o matava.

Sem justificativa, o Mishima ajudou o Ryuzaki a escapar. Sem justificativa, o Ryuzaki atacou a polícia em vez de se render.

Uma policial chamou o Mishima de Kira e disse que ele matou o irmão dela, que era criminoso. Eu já tinha pausado o filme tantas vezes para anotar os furos de roteiro que não fazia ideia do que ela estava falando. Se você entendeu isso, me conte nos comentários. De todo modo, suponho que não fazia sentido ela saber que ele era o Kira.

A mulher atirou e o Ryuzaki salvou o Mishima (por quê?). Depois, a shinigami matou a mulher para proteger o que era importante para o Ryuzaki. De repente o roteiro finge que a relação do Mishima com o Ryuzaki é emocionalmente importante para o espectador.

No camburão, o Ryuk explicou ao Mishima que o rei Shinigami disse que quem encontrasse um novo Kira seria o próximo rei Shinigami. Achei a informação interessante.

O Mishima disse que os seis cadernos seriam trancados e o Ryuk supôs que pessoas tentariam tirá-los de lá e isso manteria a diversão. Suposição vazia, acrescento.

O Ryuzaki visitou a cela do Mishima e disse que ele programou a sua morte para aquele dia. Onde ele viu isso? Nunca saberemos. Essa devia ser uma apoteótica conversa de fim da linha, mas não ligo para eles dois e o roteiro é uma peneira.

O Ryuzaki contou que o veículo com os cadernos foi atacado e quatro foram queimados, o que abre margem para que novos Death Notes venham ao mundo. Aí acontece a coisa mais absurda do filme: o Ryuzaki troca de identidade com o Mishima e fala como se quisesse que ele investigasse o caso Kira.

Como ele fez isso? Mesmo que fosse possível ambos trocarem de lugar, o Ryuzaki roubou os cadernos e atacou a polícia, então devia ser preso também. Além disso, por que raios ele incentivaria o Kira a investigar o caso se ele provavelmente voltaria a ser o Kira assim que tivesse o caderno ao seu alcance?

Mesmo que o Ryuzaki adorasse o Mishima, essa ideia é incompatível com a trajetória do sucessor do L na investigação. Fora que a justiça jamais permitiria isso. Em seguida, o Ryuzaki morre, entristecendo um total de zero pessoas.

Na cena pós-créditos, o Light do vídeo diz que era tudo plano dele. O roteiro é tão ruim que não tem como saber se é uma gracinha ou uma revelação/confirmação importante.

Considerações finais

Iluminando o Novo Mundo ganhou o troféu de pior filme que já assisti na vida. Esquadrão Suicida é uma maravilha perto dele. O enredo tem elementos demais que são trabalhados de forma insuficiente.

Como o filme é uma metralhadora de erros de lógica, é muito difícil criar conexão emocional com os personagens e acaba que nada é legal, nada importa.

Eu gosto das duas introduções, do design da shinigami, do Beppo, do Mishima ser o Kira, mas praticamente todo o resto do filme é horrível.

Iluminando o Novo Mundo tem um roteiro horrível, decisões criativas obviamente estúpidas, personagens que o roteiro torna horríveis e uma narrativa completamente torta. Ele é confuso, indigno da memória de seus antecessores e uma péssima experiência.

Eu duvido que exista alguma obra inspirada ou derivada de Death Note que seja pior que Iluminando o Novo Mundo.

Observação: esta é a crítica mais longa que já escrevi. Acho que as duas maiores eram as de duas séries: A Usurpadora e House.

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