Crítica | O Recepcionista (2020): difícil de definir

Ficha técnica no IMDb

O funcionário voyeurista de um hotel torna-se alvo de uma investigação de assassinato.

Lendo a sinopse, eu supus que O Recepcionista fosse um filme de suspense, mais ou menos ao estilo de 13 Câmeras. Eu estava esperando uma trama intensa e talvez um plot twist, mas, acima de tudo, eu esperava uma narrativa galopante.

Não galopante no sentido de apresentar elementos demais, mas no sentido de conduzir a trama com tensão. O Recepcionista, na verdade, é um filme mais próximo do contemplativo. Ele é a experiência de observar um protagonista estranho.

O Bart é um homem que se comporta de maneira peculiar devido à Síndrome de Asperger. Ele é tão “esquisitão” que poderia ser interpretado pelo Jesse Eisenberg. A mania de não olhar diretamente e falar sem parar torna várias cenas do protagonista constrangedoras. Senti pouca carga de humor nesse constrangimento, diferente de O Duplo (estrelado pelo Jesse Eisenberg).

O recepcionista é mostrado inicialmente de modo que podemos interpretá-lo como um mero pervertido. É curioso que o jeito de enxergá-lo muda com a revelação de que ele observa as pessoas no hotel para aprimorar sua desenvoltura social. Embora o aprendizado desculpe em parte a atitude, existe um componente de perversão no Bart.

O fato de eu não entender sobre a Síndrome de Asperger dificulta a análise da maldade existente no personagem. Há também uma dificuldade extra na avaliação de suas atitudes. Certas decisões do Bart são estranhas, mas será que são estranhas para alguém que tem Asperger? Seriam furos de roteiro ou não?

Após entrar no quarto da vítima, ele se suja com o sangue dela sem que isso nos seja mostrado. Faz sentido ele tirar as evidências de suas gravações da cena do crime, mas, a partir do momento em que a polícia suspeita dele, não é racional ele deixar de entregar a gravação. Ele teve em mãos, o tempo todo, a prova de que não era o culpado. Por que não mostrar?

Quando o policial o pressiona, ele começa a falar várias asneiras que podem ser entendidas como uma confissão. Por quê? A pior de suas atitudes é a final. Ela ainda vem em combo: o Bart atira e termina o filme andando por aí.

Por que atirar? Se fosse para chamar a atenção da polícia, ele podia simplesmente ligar ou entregar as gravações diretamente, afinal, ele não fugiu, apenas foi dar um passeio. Não houve qualquer indicação de que ele sumiu do mapa.

O tiro ainda tem o agravante de, somado aos flashbacks, sugerir ao espectador que o personagem se suicidou. Este teria sido um desfecho bem mais satisfatoriamente conclusivo. Detesto quando o filme tenta me enganar. O Recepcionista faz isso também em uma cena de sonho, o que geralmente é um problema sempre que aparece na ficção.

Sendo o filme a experiência de acompanhar a vida do Bart, ele é eficiente. O vemos ter seu primeiro contato amoroso e se redimir por não ter conseguido salvar a mulher. Apesar dos pesares, esta jornada funciona.

Um pivô da jornada é a absurda conveniência de o culpado ser amante da Andrea. É uma forçada de barra além da conta. A personagem é um par amoroso funcional. Ela gosta do jeito estranho do Bart e provavelmente o usa para preencher o mesmo vazio interior que a fez se relacionar com um homem casado. Talvez o mesmo vazio que a fez voltar para ele, mesmo tendo sido agredida e sabendo que ele matou a mulher anterior.

O romance do Bart com a Andrea é aceitável, embora a desilusão dele não faça sentido, uma vez que a Andrea não afirmou categoricamente que havia rompido de uma vez por todas com o amante. A escolha dela por voltar com o agressor não é inconcebível, pois vemos atitudes semelhantes no mundo real e a postura não contradiz o restante das cenas da personagem no filme.

O Recepcionista é um drama regular que pode irritar quem espera por um suspense mais próximo do que seria um filme de terror, como eu. Ele tem cenas demoradas e conclui mais ou menos o crime, mas não o protagonista.

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