Crítica | Amor Garantido (2020): bom aqui, ruim ali

Ficha técnica no IMDb

Para salvar seu pequeno escritório, a advogada Susan aceita o lucrativo caso de Nick, novo cliente charmoso disposto a processar um site de namoro que oferece amor garantido.

A premissa de Amor Garantido é engraçada por si só. A ideia de processar um site de relacionamentos por ser ineficaz funciona se aplicada ao nosso mundo. Mais do que isso, é totalmente factível imaginar o Celso Russomanno explicando para a Taylor que ela não pode alegar sentido figurado para negar o cumprimento de uma cláusula do contrato.

Também é plausível que um sujeito procure uma brecha no contrato para processar a empresa. Vivemos num mundo em que um homem comeu apenas no McDonalds por um mês e colocou os problemas de saúde que adquiriu na conta da má qualidade dos produtos da empresa (ele o fez no documentário Super Size Me).

Esta base temática ajuda o filme a ser engraçado, mas o roteiro tem altos e baixos. Há uma atmosfera de frequentes piadas bobas, nível esquete, as quais garantem uma leveza agradável à experiência. O chato é que acontece de uma piada extra surgir e ela ser exagerada, sem graça ou desnecessária para o momento.

Exemplo disso é a reunião com a Amor Garantido. A piada com a Susan corrigindo o ditado proferido pela Taylor (dona da Amor Garantido) é muito boa, mas o acréscimo do Nick (ele disse algo que funcionou como um “orra, não deixava) foi bobo e sem graça. O saldo final acaba sendo positivo, pois, em seguida, há a piada com os personagens esperando o elevador por um tempo constrangedor após a “zoada”.

A menção a um ditado também é frequente no filme. Acontece de a Susan e o Nick discutirem sobre qual é a forma correta de um ditado (é círculo ou ciclo vicioso?). São momentos engraçadinhos e pincelados de forma agradável na estrutura narrativa de Amor Garantido.

No geral, Amor Garantido não é um filme engraçado, mas sua falta de graça não é o suficiente para torná-lo ruim. O outro lado da trama, o romance, é eficiente e até simples.

A Susan é uma advogada que defende pessoas de graça e o Nick é um ex-atleta que faz trabalho voluntário em uma clínica de reabilitação física. O fato de serem pessoas que se dedicam a ajudar os outros naturalmente os torna compatíveis, o que dispensa a necessidade de uma trajetória muito complexa para reverter sentimentos negativos (o casal principal da novela Pérola Negra é um bom exemplo dessa trajetória contra os sentimentos negativos).

Conforme eu comentei amplamente na crítica de A Bela e a Fera, para um romance funcionar, é necessária a existência de pontos de virada que justifiquem o despertar da paixão. Podem ser momentos de impacto ou um processo mais gradual.

O Nick teve mil encontros propositais através do site de relacionamentos. Essa jornada de encontro no café da manhã, no almoço e na janta naturalmente o levou a se desinteressar por mulheres. A isso se soma o peso da decepção com a noiva que o largou.

Quando o Nick e a Susan se encontram no restaurante, a falta de compromisso embasa a não existência de barreiras emocionais. Neste cenário, faz sentido que a sementinha do romance germine. A forma com que o Nick trata a Susan, destacada pelo Jerome, prova que ele a encara de forma diferente. Essa forma diferente é aceitável, orgânica e prossegue satisfatoriamente até o final.

Não que seja um baita romance, mas é razoável, principalmente porque eu achei fofo o beijo na testa. Só que o roteiro de Amor Garantido vacila muito. Há dois erros principais. O primeiro é a escolha da Susan de dar um gelo no Nick por causa do problema jurídico que ela criou.

O argumento de que a conta dela no site prova que através do site o Nick encontrou o amor é ótimo e seria sensacional se eles descobrissem isso no tribunal. O advogado da Taylor informar a Susan foi uma burrice inaceitável, pois deu a ela tempo para pensar em alguma forma de lidar com o argumento da defesa.

Além disso, a Susan deveria explicar a situação para o Nick em vez de ser babaca com ele. Não havia motivo algum para ela não esclarecer tudo. Neste ponto, Amor Garantido me lembrou de Cartão de Natal, que também não soube justificar o distanciamento do casal.

O segundo erro é que a defesa chamou a Arianna para depor contra o caráter do Nick e ela percebeu, já no tribunal, que ele devia estar sendo sincero em seu processo. É uma preguiça absurda do roteiro e um erro inexplicável. Digo inexplicável porque a solução do caso é genial.

Apesar da possibilidade de vitória propiciada pelo depoimento da Arianna, o Nick concordou com o argumento da defesa e desistiu do processo, pois se apaixonou pela Susan devido ao Amor Garantido. O discurso no tribunal é piegas, pouco crível e artificial (por acontecer no tribunal. É como a noiva que deixa o noivo no altar em vez de desmanchar o relacionamento dias antes), mas embasa a sacada seguinte.

A Taylor vê na história do casal um depoimento ótimo para o marketing do site e paga a eles 500 mil dólares para usá-los nas propagandas. Esse dinheiro é investido na clínica, que era o objetivo do Nick. Ou seja, todo mundo saiu ganhando.

Essa resolução é muito legal, mas, se o objetivo era esse, o roteiro poderia descartar a inútil Arianna, fazer a Susan descobrir no tribunal o argumento da defesa e o Nick reconhecer que a defesa estava correta. Seria lindo, surpreendente, inusitado e satisfatório. Tendo este final bacana em mãos, o roteiro preferiu ser burro.

Amor Garantido é uma comédia romântica água com açúcar que é razoavelmente engraçada e possui grandes erros, os quais não invalidam o todo.

Observação: as piadas com os encontros e as reaparições dos pretendentes foram engraçadas.

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