Crítica | O Mal Está Ao Seu Lado (2020): a melhor antologia?

Ficha técnica no IMDb

Um grupo de amigos se reuniu para jogar um jogo. Cada um deles espera conseguir algo com isso. As regras do jogo são contar uma história de horror para cada vela.

O jogo se chama “jogo das cem velas”, que é o nome do filme, e a adaptação brasileira mudou o título para “O Mal Está Ao Seu Lado”. Vai entender esse pessoal das distribuidoras. Algo parecido acontece com o filme Castigo Mortal.

A cena de abertura de O Mal Está Ao Seu Lado tem um grupo de pessoas num local cheio de velas ouvindo a explicação sobre o jogo. É bem didático e deixa claro ao espectador o estilo que o enredo possui. Ser direto é positivo, pois em uma antologia não há muito valor no pedaço introdutório.

Se você é um ouvinte de creepypastas, já deve ter visto algum título do tipo “o jogo do x”. É uma premissa interessante pela expectativa quanto ao momento em que as coisas darão errado e justifica bem a existência dos contos.

Menina na gangorra

Em histórias assumidamente de terror pode existir o problema de a obviedade da virada negativa tirar a graça da experiência. Neste conto, o roteiro usa a falta de conhecimento do espectador para manter a tensão.

Duas garotas brincando em uma gangorra no meio da floresta. O que dará errado? Qual das duas é o vilão? O preservar desse suspense é agradável e a revelação sobre a bruxa e o caçador é satisfatória.

Ser simples e bem feito já torna este conto acima da média das antologias.

Na hora de soprar a vela diante do espelho, o personagem ficou descobrindo manequins, criando uma tensão burra sobre haver algo sobrenatural ali. Era cedo demais para uma virada negativa e o personagem não tinha motivo para fazer aquilo.

Pai e filho na cabana

No meu modo de criticar ficção, busco tirar conclusões a partir do que a obra me mostra, desqualificando aquilo que depende mais da imaginação do espectador. Se o filme revela um mundo em que coisas mágicas podem acontecer, eu suponho que explicações mágicas sejam válidas.

A bruxa do primeiro conto faz com que os monstros do mundo exterior sejam plausíveis. A partir disto, a reviravolta é, realmente, uma reviravolta. Infelizmente, o conto se baseia também em jumpscares e distorções da realidade.

Essas distorções são parcialmente justificadas por ser uma história observada pelo ponto de vista do garoto. Até faz sentido, mas é uma malandragem do roteiro e não justifica os jumpscares ou o nada que o garoto viu se mover pela vegetação.

A tensão apocalíptica é boa e o suspense funciona. Como a revelação é muito boa, o conto acaba sendo mais que satisfatório.

O susto da assopradora de velas me assustou e pode ser bem explicado pela tensão do jogo.

Velha assombrada

Uma velha que usa máscara de oxigênio está em uma casa numa noite muito escura e é assombrada. O conto conjuga essa ideia sem se empenhar em torná-la minimamente interessante. É tudo confuso e sem graça.

O único bom momento é quando a velha é arrastada para a escuridão, pois é um avanço sutil assustador.

O bilhete para o assoprador de velas é artificial. Que ser místico deixa bilhete? Isso tem cheiro de atitude humana.

Mãe

Eu estava achando a computação gráfica do monstro ruim até a revelação surgir. Ela justifica a baixa qualidade e é uma boa reviravolta. A situação é assustadora e poderia ser melhor se tivesse uma conclusão mais clara. Este conto é um feijão com arroz bem feito.

A repetição da fórmula de assombração do assoprador de velas me encheu a paciência.

Enterrada

Um conto sufocante de uma mulher que irritou uma maluca. A situação é assustadora e me lembrou do bom Enterrado Vivo. O andamento é eficiente e me fez torcer pela protagonista. A reviravolta pode ser previsível para alguns, mas para mim não foi, o que tornou a experiência melhor.

Foi a quantidade de explicação necessária para o entendimento da história e para consolidar o conto como uma consistente história de terror.

Algumas questões técnicas precisam ser avaliadas. Como a bateria do celular durou tanto? Se a mulher estava ficando sem ar, por que continuou enviando áudios? Por que ela não poderia ligar para a emergência e ser rastreada?

O susto no assoprador de velas segue o problema da repetição e ainda tem uma nova retirada de tecidos acobertadores de manequins.

O padre

Não gosto de histórias de espíritos, mas esta é bem estruturada. Não há problema de execução na sequência do exorcismo e ela só seria sem graça por não ter nada de destacável (algo reforçado pela minha preferência).

A parte do filho é um clichê desse tipo de história, então não me surpreendeu, mas a identidade do padre sim. É uma lição para a vida: se você não exigir RG, pode acabar colaborando com o fim do mundo.

O sumiço do assoprador de velas foi uma grande surpresa, mas eu não aprendi a me importar com aquele grupo de personagens, então não teve tanto impacto quanto deveria.

Fotografia

Este conto é um bocado confuso. Parece uma história genérica de fantasma. Tive que rever o começo para entender a lógica. É uma maldição envolvendo fotos de pessoas mortas. Considerando a segunda e a terceira incidência, o problema deve ser fotografar.

Não achei assustador, mas é bem interessante. Desta vez, não houve susto no assoprador de velas.

A reviravolta

A última história não é contada de forma visual, o que me agradou, pois gosto quando personagens sentam e contam informações relevantes. A história é interessante, a origem da anfitriã e de seus planos para a noite. Encaixar bem com o tijolo e o bilhete foi muito positivo.

A história da vilã me convenceu, mas o objetivo dela com a noite não. Não faz sentido se vingar de quem não é responsável pelo evento que te afligiu. O mais importante é que esta é provavelmente a melhor história integradora de contos que eu já vi.

Normalmente, as antologias não se preocupam em estruturar um enredo-macro interessante e fazem apenas o necessário para tudo fluir.

O Mal Está Ao Seu Lado é muito superior às outras antologias cinematográficas que assisti. A combinação de bons contos com um bom enredo-macro resulta em um filme tão bom que talvez se iguale ao Cine Pesadelo (os contos de lá são melhores, mas a história-macro daqui é superior).

No geral, os contos do filme têm boas reviravoltas, são explicados e tem final conclusivo (ou algo muito próximo de conclusivo).

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