Crítica | Esticando a Festa (2021): o que realmente importa

Ficha técnica no IMDb

A vida social intensa de uma jovem acaba quando ela comete a maior gafe de todas: morrer na semana do aniversário.

Quando se trata de ter uma segunda chance na vida, o que vem a minha mente primeiro é o filme de A Grande Família. Outro exemplo dessa proposta é 17 Outra Vez. Assisti a ambos várias vezes na TV, mas existem outros tantos com a mesma proposta.

Naturalmente, a base temática desse tipo de história é apresentar um personagem problemático e usar a jornada para torná-lo uma pessoa melhor. Alguns filmes são mais eficientes nesse processo e alguns outros, como a duologia A Morte te dá Parabéns, parecem não saber o objetivo da narrativa.

Esticando a Festa dá a Cassie, a protagonista, três missões específicas: resolver as pendências com a melhor amiga, com o pai e com a mãe em cinco dias. Se resolver, vai para o andar de cima. Se não resolver, vai para o andar de baixo.

Achei a premissa interessante por não ser literalmente uma nova chance. Não é como se a Cassie tivesse revivido ou pudesse permanecer na Terra, o que dá um tom melancólico à base do filme. A limitação física também me pegou de surpresa. Esticando a Festa não é tão leve quanto pode parecer.

O início estabelece a relação de duas amigas, as quais são as adultas mais adolescentes que me lembro de ver num filme. A Cassie é festeira e a Lisa não. Essa diferença de personalidade se acentua na comemoração do aniversário da Cassie.

A forma que o filme explicita o desconforto da Lisa com a festa é eficiente. Naquele cenário, especialmente por ter bebido, a discussão das duas é plausível. O diálogo do rompimento é ótimo e faz sentido pelo ponto de vista de ambas.

É possível querer a companhia de alguém e ter que se empenhar por terem personalidades incompatíveis. Se a Lisa não conseguia acompanhar a caminhada da Cassie, por que continuar a amizade?

Considerando que elas moravam juntas e se conheciam desde a infância, faz todo sentido a amizade delas ser um hábito. Eram vidas diferentes que se juntavam apenas pelo costume, não por ser realmente do interesse de cada uma. Laços podem terminar. A vida é assim.

Eu não esperava pela morte acidental. Achei que seria por algo mais espalhafatoso e ligado à festa. Mesmo sabendo que aquilo aconteceria, fiquei surpreso. Aí entra a parte mágica do filme.

A ideia de pessoas meio-termo terem que acertar as contas para irem para cima não me desceu. Se fosse algo opcional, uma alternativa a ficar no limbo dos meio-termo, me soaria mais lógico. O acerto de contas em si me agrada na maioria das histórias em que acontece.

Desde o começo do filme eu me incomodava com o mau gosto da protagonista para roupas. Quando ela fez a primeira das trocas diárias, fiquei chocado com tamanha feiura. Aquele vestido prata futurista é tosco e essa habilidade de troca de roupa é ridícula.

Durante a missão, a Cassie pode tocar em tudo e se teleportar. Depois de um bom tempo acompanhando a Lisa, ela consegue fazer contato após cantar uma música. Nós sabemos que é por causa da cantoria, ela não. Achei estranho na hora, mas isso é importante para o final.

O trecho do contato é bem divertido e contrasta com o momento triste em que a Cassie vê o pai fingindo que está falando com ela. Esticando a Festa equilibra bem essa variação de humor. Há cenas bem engraçadas que não exageram e outras emocionantes.

O filme ganha contornos de comédia romântica conforme a Cassie ajuda a Lisa a se relacionar com o vizinho. As interações deles são um pouco constrangedoras, engraçadas e fofas. Gostei do casal desde a primeira cena, antes da Cassie morrer.

Quando a Lisa conta sobre o sucesso do encontro com o vizinho, cai a ficha da Cassie. Ela percebe que morreu e não viverá mais coisas boas. É uma conversa de fim da linha bem triste. Em geral, Esticando a Festa sabe conduzir a transição entre as cenas engraçadas e as emocionantes.

Para resolver a pendência com a mãe que a abandonou, a Cassie pede a Lisa que vá até a casa dela para conversar. Assim ela orienta a amiga e conduz o papo para entender o lado da mãe e dizer o que queria dizer.

Achei esse mecanismo bem inteligente e ele permitiu a genial tática: “se a Cassie estivesse aqui, o que diria a ela?”. Esse foi um último esforço para que a Cassie e a mãe não tivessem mais pendências.

Essa ousadia da Lisa de conduzir a conversa servir de gatilho para a briga das amigas é ótimo. A emoção negativa fortalece a ingratidão e a indelicadeza, resultando em uma nova ruptura. Toda a raiva sentida pela Cassie sendo descontada em quem não merecia.

Alguém poderia dizer que não há valor no desenvolvimento da Cassie por ter sido algo provocado, mas, pouco depois, o filme a coloca como mera espectadora de uma conversa entre seus pais. A visão do arrependimento sincero a faz perdoar a mãe e resolver a pendência. Lindo, não?

Uma cena legal nesse núcleo da mãe é o encontro da Cassie com a irmã pequena. Essa capacidade sobrenatural das crianças foi preparada e bem usada.

Outro detalhe que acho que foi preparado é a existência da padaria, pois há, no início do filme, a menção a uma padaria ser aberta em breve (eu acho). A tentativa de unir o pai à dona do estabelecimento é um capricho, mas até foi interessante.

Corta da gracinha romântica para a cena da reunião em memória à Cassie, me levando automaticamente do 100 ao -100. A ambientação triste ajuda o momento. Era óbvio que aquilo aconteceria, mas o filme soube fazer a preparação da cantoria culminar na resolução da pendência do pai. É curioso que ele a vê surgir e não estranha. De certa forma, ele já contava com a interferência dela.

Todos os envolvidos já estavam resolvidos, mas o nome da Lisa não sumiu da lista. Por quê? Não há justificativa para isso. O roteiro podia simplesmente considerar que ela cumpriu a tarefa e pronto, sem precisar daquele papo de “se ela fez mais do que precisava, merece o andar de cima”.

Assim como outros detalhes, Esticando a Festa preparou o desfecho amoroso da Cassie mostrando o cantor e deixando claro que ela gostava dele. Essa formação de casal não era necessária e objetifica o cantor, o colocando como um prêmio que a Cassie ganhou por ter se comportado bem.

A cena final ser o Paraíso alivia o peso da situação. Como um todo, o filme acoberta seu caráter trágico usando o romance e o humor. Não é ruim, apenas um efeito curioso. É como a Dona Morte, da Turma da Mônica.

Gostei muito de Esticando a Festa porque estou acostumado a ver filmes de terror, onde os personagens costumam ser ruins e não importar. Aqui, os personagens são bons, os relacionamentos são bons e gostei de todos os núcleos.

Esticando a Festa é divertido na medida, dramático na medida, bem estruturado e eficiente na evolução dos personagens. Ele não é estupendo e não chega a fazer algo incrível, mas foi uma experiência muito boa.

Observação: como eu assisti a poucos filmes desses gêneros mais dramáticos e românticos, é provável que eu seja menos rígido do que quando critico filmes de terror.

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