Crítica | Brinquedo Assassino (2019): erra, mas é legal

Ficha técnica no IMDb

Uma mãe dá ao seu filho um boneco de brinquedo para o seu aniversário, sem perceber a sua natureza mais sinistra.

Não sei como são os filmes antigos, mas a premissa deste é muito boa. Um funcionário em seus últimos momentos de trabalho sabota um boneco Buddi retirando dele suas travas de segurança. O problema é que o Buddi é um robô que aprende com o mundo exterior e pode controlar equipamentos eletrônicos de sua empresa, a qual tem desde aparelhos auditivos até drones e carros.

O filme tem elementos de terror e comédia, mas primeiro foquemos no essencial.

A trajetória do autointitulado Chucky é bem feita e razoavelmente convincente. Ele não é mal, apenas serve ao propósito de deixar o dono feliz. Sem as travas de segurança, ele absorve do ambiente os estímulos negativos e os leva em consideração na hora de agir em prol da felicidade do Andy.

Assim, se uma pessoa faz mal ao Andy, o Chucky decide matá-la para deixar o Andy feliz. Os primeiros estímulos negativos são palavras ofensivas, o que prepara o terreno para a escalada de ações.

Há um momento tenso no qual o Chucky imita o gesto do Andy de fincar a faca na tábua e o derradeiro estímulo vem com a noite de O Massacre da Serra Elétrica. Podemos dizer que este Chucky teve Leatherface como seu mentor.

A guinada para o lado mau faz sentido enquanto o Chucky quer o bem do Andy. Por mais que ele se sinta traído pelo melhor amigo, ele não é livre o suficiente para dar a si mesmo outro propósito. A base do filme é um robô sem escrúpulos que faz de tudo para alcançar seu objetivo, não um robô que ajuda o dono por querer ajudar.

Ele atacar o Andy é um incoerente com a natureza do Chucky (que não deveria ter sentimentos). Há outra incoerência no lançamento do Buddi 2. O Chucky pode tomar atitudes negativas porque ele não tem travas, mas os demais bonecos têm. Além disso, há um procedimento para que os bonecos sejam ligados, então é no mínimo estranho que ele consiga controlá-los.

Como era de se esperar, o Andy demora a querer se desfazer do boneco e não é lá muito inteligente em suas escolhas de descarte dos “presentes”. Apesar disto, a armadilha que ele e os amigos montaram para golpear a pilha do boneco foi prudente e eficiente.

O retorno do Chucky também é plausível. Sendo o boneco da moda, faz sentido que o zelador pervertido tente consertá-lo para vendê-lo. O problema é que o zelador praticamente não tenta reagir ao Chucky e a queda dele na serra parecia evitável. Se fosse um pouco mais rápido seria melhor. Vale pontuar que a perversão do zelador justifica as câmeras que permitem ao Chucky ver o Andy.

O grand finale do lançamento do Buddi 2 é positivo, embora se passe no escuro. É um momento épico em vários sentidos. É o confronto final, todos estão próximos da verdade e eu entendo a dor do detetive que acha que o Andy tem a ver com a morte da mãe dele.

Muito do que torna esse clímax empolgante é que Brinquedo Assassino soube fazer eu me importar com os personagens. Gostei da relação do garoto solitário com a mãe trabalhadora e atenciosa, gostei do laço dele com o detetive gente boa e sua mãe e aceitei as amizades dele.

O jeito que ele faz amigos é consistente e aceitável, mas o laço com o Chucky é realmente bom. Por ser um garoto solitário, mesmo ciente de que era uma dinâmica boba, o Andy se envolveu com o boneco. Eles de fato cultivaram uma amizade e é compreensível também do ponto de vista do Chucky, pois o propósito existencial dele é ser amigo do dono.

Em parte isso alivia a demora do Andy para se livrar dele e propicia dois grandes momentos relacionados. Quando o Andy estava para acertar a pilha do Chucky, este começou a cantar uma música e o protagonista ficou abalado emocionalmente. No confronto final, a situação inverteu e o Andy cantou a música para abalar o Chucky. Eles realmente se gostavam.

E ter uma amizade verdadeira (a qual Naruto e Sasuke nunca tiveram) torna os embates emocionantes. O primeiro final, com o Andy atingindo o Chucky, é muito bom e eu aplaudiria de pé. Infelizmente, Brinquedo Assassino fez o Chucky atacar novamente e ser atingido no ar pelo detetive (o detetive com a melhor pontaria do mundo). O filme trocou o tenso emocionante pelo bobo, irreal e clichê.

O resto do final é bom, com o desfecho dos laços do Andy com a mãe e dela com o detetive (este foi só sugerido, não mostrado). É um encerramento consistente que deixa uma impressão positiva, mas cabe comentar o terror e a comédia.

A Morte te dá Parabéns é a prova de que juntar comédia e terror pode estragar um filme, mas Brinquedo Assassino o faz de maneira aceitável.

A comédia do filme é boa sem sabotar o terror, pelo menos em grande parte das cenas. A piada com o cliente reclamando da cor do cabelo do boneco, por exemplo, é bem engraçada. As interações dos amigos também rendem alguns desses momentos eficientes.

Eu sorri várias vezes ao longo do filme, mas não posso dizer que ele é hilário. O que mais me surpreendeu foi a capacidade do diretor de fazer um clima assustador convincente, apesar da comédia polvilhada aqui e ali. Momentos tensos e de boa qualidade existiram em maior quantidade do que momentos meia boca (como o fim do zelador).

Não que Brinquedo Assassino seja um primor, mas ele executa sua proposta com eficiência o suficiente para ser considerado um bom filme. Seus erros, como o uso ridículo de jumpscares e o retorno final desnecessário do Chucky, não são incomuns no gênero terror.

O Massacre da Serra Elétrica original e Midsommar foram filmes que me irritaram por seus defeitos, algo que não acontece em Brinquedo Assassino. Ele pode não ser inovador, clássico ou estupendo em algum aspecto, mas é uma boa experiência.

O maior destaque positivo para ele é que eu me importei com os personagens, diferente do caso dos filmes citados (ter personagens idiotas dificulta a empatia).

Observação: a aparência do Chucky é assustadora. O bicho é tão feio que dá até medo.

Observação 2: vale ressaltar que a amizade do Andy com o Chucky tem o lado triste de ter acabado por defeitos de fábrica. O robô acabou sendo vítima do funcionário vingativo.

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