Crítica | TQM (2022): a pior família do mundo

Ficha técnica no IMDb

Um dos psiquiatras mais prestigiados do México decide colocar seus três filhos à prova para determinar como dividir sua herança. Tudo se torna complicado quando um de seus pacientes decide não colaborar com eles.

Filmes que possuem jogos em sua premissa me atraem, mas a experiência de assistir a TQM é ligeiramente prejudicada por ler a sinopse. Isto ocorre porque o começo do filme não é claro sobre o motivo da ida dos irmãos à casa da mãe.

Existe um mistério envolvente no ar: qual será o desafio dos irmãos e onde entram os pacientes e os rabiscos da parede. Os rabiscos são irrelevantes e os outros dois elementos são radicalmente diferentes em sua qualidade.

Através de um vídeo, os irmãos descobrem as regras do desafio: a Elizabeth fez três testamentos e cada um está em um envelope. Os irmãos terão que escolher um dos envelopes e a única forma de saber o conteúdo de cada envelope é obtendo a informação de três pacientes. A escolha do envelope só será válida caso seja unânime.

É óbvio que a intenção da renomada psiquiatra é fazer os filhos lidarem adequadamente com os pacientes, mas o desafio soa desnecessariamente complicado. Isso afasta o espectador e tira a imersão.

Afetou a minha impressão conhecer a franquia Jogos Mortais (que abordei no Podcast do Kira), a qual sempre usa escolhas e consequência para fundamentar as reviravoltas de seu enredo. Por mais que a franquia contenha diversos problemas, não me recordo de ter essa sensação de que o roteirista não lapidou muito bem a ideia antes de colocá-la em prática.

Não apenas por ela em si, mas pela reviravolta do filme não ter conexão com a escolha do envelope. Observando o todo, é nítido que a dinâmica do desafio se perdeu. Tanto a obtenção das informações quanto o modo de lidar com a partilha da herança.

A estratégia bajuladora

Quando Miguel, o paciente da Elizabeth, chega à casa, a Pirulito deixa o ambiente e o Marco também é ligeiramente desagradável com ele. Depois de descobrirem que o Miguel sabia o conteúdo de um dos envelopes, em vez de perguntarem a ele normalmente, a decisão dos irmãos foi bajulá-lo.

Essa ideia foi burra, afinal, o Miguel já sabia que eles não eram tão gente boa. O que custava serem diretos? É claro que o Miguel sabia que era bajulação, ele precisava saber o plano da Elizabeth para entrar no jogo. Ideias burras afastam o espectador do personagem.

Nesta estratégia, destaco negativamente a Pirulito. Ela claramente desprezou o Miguel e depois ficou amorzinho com ele, aí quando ele aponta sua falsidade ela dá um tapa no rosto dele? Não faz o mínimo sentido.

Quando ele se aproxima dela no balanço, ela age como se ele é quem precisasse de um favor e tivesse pisado na bola. Depois, ela usa atração sexual para convencê-lo a falar, o que seria o mesmo que bajulá-lo, algo que já havia falhado. É uma burrice atrás da outra.

O desviar da estratégia

A descoberta das múltiplas personalidades é incrível. Usa bem o diálogo do Miguel sobre o assassino de seus pais e cria uma tensão boa. É certamente uma sacada inteligente, principalmente por usar a liberdade criativa que um personagem paciente psiquiátrico permite (sem que se discuta a naturalidade da característica).

As mulheres negociam com o Francesco e ele explica que em um testamento o Marco ficou sem nada. Isso me fez pensar que o dilema principal de TQM seria eles três concordarem com um envelope sendo que cada envelope deixa um deles sem nada.

Esse seria um teste plausível para avaliar o trabalho em equipe, muito mais do que a mera obtenção das informações das múltiplas personalidades do Miguel. Após a negociação com o Francesco, esse lado da história é praticamente abandonado.

Há uma negociação do Marco com o Miguel, ignorando as irmãs, mas nem faz sentido, pois o Miguel não tinha poder para mudar o testamento, então não teria como o Marco controlar sem a permissão da mãe.

O que se segue é um escalonamento do uso da força. A chegada da mãe na casa praticamente só serve para isso.

Danae, a religiosa, diz que uma parte dela gosta de ver a mãe incapaz de se mover, penteia o cabelo da mãe sem se importar com a dor causada pelos movimentos, a enforca para fazer o Miguel revelar o conteúdo do envelope e bate em seu rosto.

É um escalonamento consistente e justificado pelos abusos que a Danae sofria e a mãe permitia. Talvez o relacionamento delas seja a parte mais bem feita do filme.

A caminho do fim

O prazo do desafio acaba e a mãe revela que estava fingindo estar mal de saúde para testar a moralidade deles, pois a herança precisava ser administrada com responsabilidade. A conclusão é que eles não são aptos e ela dá a entender que não receberão nada.

Seria um fim adequado para a premissa do filme, mas TQM quis ser mais do que isso. Não que seja um bom final, pois o desafio não conduziu claramente nessa direção da união familiar e da moralidade, mas manteria o filme coeso, redondinho.

O final do filme é: a mãe orienta o Francesco a defendê-la, ele mata o Marco, a Danae, a própria Elizabeth e vai em direção à Pirulito. A mãe achou que tinha o paciente sob controle, mas não tinha e o lado sanguinário dele falou mais alto.

Isso é razoavelmente coerente, mas difere um bocado do estilo de filme que a premissa sugere. Pode não ser ruim, mas é estranho.

Antes de morrer, a Danae pretendia matar a mãe e descobrimos sobre os abusos. É um bom diálogo, justifica as ações estranhas que a Danae fez aqui e ali e finaliza bem o arco de personagem dela. Essa relação merecia estar em um filme muito melhor do que TQM.

No início do filme, há um jumpscare idiota com a Pirulito se fingindo de morta e tirando onda com a Danae. Ele acaba tirando parte do peso que tem a revelação da Pirulito sobre sua intenção de se suicidar aos 27 anos.

Quando no final ela praticamente pede ao Francesco que a mate, por mais que não faça sentido, eu entendo como um encerramento mais ou menos satisfatório do arco da personagem. Seria um desfecho forte o suficiente para deixar um saldo positivo no filme.

Infelizmente, TQM escolheu outro caminho. Anestesiou o espectador com uma demorada cena de amor para nos chocar com a morte do Francesco. Não foi indicado que a Pirulito viu os corpos dos familiares, então soa estranho ela vir com aquele papo de vingança.

Vingança pelo quê? Foi a mãe dela que quis fazer aquilo. O paciente só seguiu ordens.

Com esse final meio qualquer coisa, eu tive a esperança de que os advogados enfim aparecessem e houvesse um plot twist bacana. Não, ficou só nisso mesmo. Os advogados devem ter pego um congestionamento daqueles.

TQM é um filme fraco com uma premissa interessante mal executada. Recomendo que passem longe dele.

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