Crítica | O Máskara (1994): desenho animado em live action

Ficha técnica no IMDb

O bancário Stanley Ipkiss é transformado num maníaco verde quando põe uma misteriosa máscara.

O Máskara é um filme com fortes traços de comédia e um lado romântico, mas, essencialmente, é a versão live action de um desenho animado. Ciente disso, o filme mostra o Stanley assistindo a desenhos animados em sua casa.

Boa parte da comédia se baseia no uso de elementos característicos dos cartuns. São os olhos arregalados, as distorções corporais e níveis inimagináveis de manipulação da realidade. É visualmente interessante e bem legal, mas não muito engraçado.

Se você achar engraçado quando um personagem engole uma fruta enorme e fica com o formato dela em seu corpo, talvez ria de O Máskara. Eu gosto, mas não acho realmente engraçado. Ver o personagem rodopiar por aí me fez pensar apenas: “olha só, parece bem fiel”.

Não é que o filme seja ruim, mas o tipo de humor dele é do mundo dos desenhos animados, então pode não ser adequado para todos os públicos. Falando nisso, há umas piadas mais adultas. Ao menos duas, pelo que reparei.

A carga adulta também está quase inteiramente vinculada à Tina. Ela é tão obviamente sensualizada que soa estranho quando ela diz que os homens a olham como se fosse um objeto. Ué, ela não faz isso de propósito? Mais adiante retomo os sentimentos da Tina.

A pegada de desenho animado confere a O Máskara uma atmosfera alto astral, divertida. Não é leve no sentido de ser livre para todos os públicos, com mencionei antes, mas é praticamente uma história descompromissada. É como um piloto de um desenho do Máskara.

Há pelo menos duas ou três cenas em que o Máskara quebra a quarta parede. A mais incrível delas é quando ele finge estar morrendo após levar um tiro, é mostrada uma plateia e ele recebe um prêmio por sua atuação. Aparentemente, o mafioso ajeita o cabelo nesse momento. O Máskara contorce toda a realidade com seus desejos.

No começo do filme, é mostrada a saída da máscara de uma caixa no mar. Não é uma origem necessária, pois não há explicação sobre a natureza do acessório, então é dispensável. Ela chega ao Stanley de forma despretensiosa por um impulso heroico dele e nessa cena ele quase a coloca.

Na segunda olhada na máscara, o Stanley tinha acabado de ouvir na TV algo sobre as pessoas usarem máscaras e se olhou no espelho enquanto a segurava. Essa motivação para vesti-la é tão eficiente que torna a quase colocada descartável.

O Máskara é muito sobre autodescoberta e autoestima. O Stanley é retratado como um homem desajeitado que não se dá bem com as mulheres e é feito de trouxa pelos mecânicos. O que a máscara faz é dar vasão a seus sentimentos e permitir a ele fazer tudo o que quiser.

O Máskara é o monstro ID do Stanley (conforme o conceito de Monstros do ID, da Turma da Mônica Jovem). Não é apenas um meio para ele ser mais livre, mas também uma forma de tornar-se escravo dessa liberdade. Até o Stanley entender o que estava em jogo, já havia ferrado a própria vida por seus impulsos.

As aparições da Tina como uma mulher sedutora que trabalhava para a máfia me levaram a supor que ela seria uma demonstração da vida sem freios que levaria o Stanley à ruína. Por outro lado, claramente, a Peggy representava o outro lado. A escolha pelo prudente, pelo caminho do equilíbrio.

Eu imaginava que o final do filme seria com eles juntos após o Stanley unir a personalidade socialmente frágil e a personalidade sem limites. Seria um belo desfecho.

Quando a Peggy entregou o Stanley para a máfia eu fiquei chocado. Meu castelo de ilusões desmoronou. A bem intencionada que gostava dele o vendeu para mafiosos, enquanto a mulher do mafioso, provavelmente, esteve honestamente com ele.

O problema do relacionamento do Stanley com a Tina é que não parece que a evolução foi orgânica. Tem muito a ver com o que eu esperava, que é a direção na qual o filme apontava. Não é ruim, mas é um caminho pouco eficiente. Tudo que o Stanley fez foi apontar para o céu e falar brevemente sobre o pôr-do-sol. É assim que nasce o amor? Ou será que o beijo do Máskara é hipnotizante?

O Máskara trabalha razoavelmente bem esse drama do Stanley, mas não é um arco de personagem memorável. Pelo que me lembro, o Sim, Senhor (também com o Jim Carrey) usa melhor essa ideia.

A vilania é bem básica e o clímax do filme é bem bom. A fuga do Stanley da prisão é legal e não é muito simples, contando com o apoio do cão saltador. A sequência no Coco Bongo contra o novo Máskara é divertida e empolgante.

Gostei particularmente da sacada da Tina de mexer com o ego do mafioso para fazê-lo tirar a máscara. Rola uma pancadaria e termina com o velho Máskara engolindo a bomba. Essa foi a cereja do bolo.

A ação é simples, mas diverte. O humor involuntário do Stanley bancando o herói é melhor do que muitas piadas mais explícitas. Achei curioso que o policial continuou querendo prender o Stanley, sendo que ele tentou e conseguiu parar o mafioso.

Essa solução de livrar o Stanley colocando toda a culpa no mafioso faz sentido e fortalece a tônica de episódio piloto. O desfecho com a Tina jogando a máscara na água, o amigo indo atrás e o cão levando a máscara de volta foi engraçadinho, mas senti falta de ver o que aconteceu com a Peggy.

O Máskara é um filme bacana que vale a pena pela experiência de ver uma pegada de desenho animado em uma obra live action. Não é um baita filme, mas uma obra visualmente interessante. Ele faz o que se espera de um longa-metragem, algo que muitos filmes famosos não fazem.

Jim Carrey e seus personagens excêntricos.

Observação: a cena da dança dos policiais prova que o Máskara é capaz de controlar as pessoas.

Observação 2: a sacada do roteiro de usar o pijama como um vestígio do Stanley para o policial foi muito boa. Se o filme é atento aos detalhes, ganha vários pontos comigo.

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