Entenda como Liga da Justiça consertou o Snyder Cut

Em 2017, depois de muito tempo esperando ansiosamente, fui ao cinema assistir a Liga da Justiça. No fim da sessão, eu tinha certeza de que havia recebido praticamente tudo o que esperava e que aquele era o melhor filme de heróis de todos os tempos.

Com o tempo, minha empolgação esfriou e constatei que Liga da Justiça era um feijão com arroz extremamente bem feito. Quando a campanha pelo Snyder Cut começou, fiquei animado. Seria a oportunidade perfeita para ele se redimir de seus erros e entregar um filme de alta qualidade.

Outro ponto positivo era que os fãs da DC não poderiam mais fazer suposições sobre o quão melhor teria sido a versão do Snyder. Eu não partilhava da opinião de que o corte do Whedon era ruim e queria saber a extensão de suas alterações no filme.

Eu gostei do Snyder Cut, mas como um extra de Liga da Justiça, não um filme em si. Enquanto eu enxergava filmes bem similares, vi fãs da DC odiarem a versão do Whedon e idolatrarem a versão do Snyder. Por várias vezes eu elenquei as razões para considerar o corte do Whedon superior e normalmente as respostas eram risos e zombaria.

Tudo o que os odiadores do Whedon dizem é: Superman boca de sacola, Lobo da Estepe vem e me bate, piadas demais, Ciborgue complexo e Flash voltando no tempo. Estes pontos merecem discussão, mas não são os elementos mais importantes de um filme.

O crucial em uma análise cinematográfica é observar a obra como um todo. O Snyder Cut não tem 4h de duração por ter um enredo complexo, mas por ser enrolado e ter uma salada de elementos. Esse foi um dos maiores erros de execução de Batman vs Superman e o Snyder conseguiu piorar mais ainda no Snyder Cut.

É claro para mim que a versão do Snyder é um filme mal acabado. Prova disso é a gigantesca cena do futuro distópico que é muito mais uma prévia do que um gancho para um próximo filme. Ela é praticamente despropositada, pois a única informação nova foi quanto à composição da resistência.

O futuro Injustice já havia sido suficientemente demonstrado pelo sonho do Bruce em Batman vs Superman. É como o que eu critico na franquia Jogos Mortais, de pincelar uma história-macro no final do filme e ir esticando ao longo de vários filmes.

A diferença é que o Snyder faz isso de forma mais arrastada e sem ter muito para onde ir, como se ele esquecesse que está fazendo um filme e fizesse o que uma série faria. Ou mesmo uma novela. Nessas outras mídias, é aceitável que haja trocas de núcleo pouco úteis para o todo do capítulo.

A forma mais eficiente de entender o que Whedon fez com a versão do Snyder é compará-las considerando uma ordem de lançamento inversa.

Para enxugar o filme, reduzindo seu tempo de duração e sua quantidade de elementos, ele diminuiu as cenas de cada personagem (o Aquaman do Snyder tem um coral feminino antes de mergulhar na água, por exemplo), tirou o Darkseid, encurtou o arco de personagem do Ciborgue e cortou a viagem no tempo.

Whedon também alterou o tom do filme inserindo muitas piadas e a maior das diferenças: trocar o Superman depressivo do Snyder por um Superman esperançoso.

Há algumas diferenças menores, mas extremamente relevantes para a consistência do filme. O Whedon fez os heróis discutirem, algo essencial para tornar o grupo orgânico e crível. É natural que eles desconfiem uns dos outros e o discurso do Aquaman sentado no laço é uma excelente justificativa para a quebra das barreiras emocionais entre eles (além de ser uma boa piada).

O atrito do Bruce com a Diana é ótimo para cutucar a questionável decisão dela de se afastar da humanidade e desenvolver o relacionamento deles. O apoio do Alfred a um envolvimento amoroso dos dois traz o outro lado daquele objetivo do Bruce de deixar um legado, o qual é sua principal motivação em Batman vs Superman.

Esse desdobramento consistente dos personagens acrescenta uma camada a eles. O vilão foi o mais beneficiado por esse mecanismo.

O Lobo do Snyder veio atacar a Terra pelo Darkseid e quer se redimir de alguma coisa que não foi explicada. O Lobo do Whedon veio atacar a Terra pelo Darkseid e quer se redimir porque atacou a Terra no passado e foi derrotado por não ser objetivo.

Essa motivação faz com que o Lobo seja o caso raríssimo de um vilão que tem um plano, vem pegar o que ele quer e vai embora, pois o que importa é o plano, o objetivo, não deixar a Terra de joelhos.

Essa segunda camada torna o Lobo do Whedon melhor e ainda resolve a afobação de colocar o Darkseid como um vilão direto já no primeiro filme da Liga da Justiça, o que tira peso do Lobo e enfraquece o enredo.

Tornar o personagem mais profundo é muito mais importante do que fazer uma computação gráfica melhor. Aliás, prefiro o Lobo com aparência mais humana, o que me ajuda a ter empatia.

Repare bem: com menos tempo de tela, o Whedon fez a Liga da Justiça ser um grupo mais orgânico, deu uma camada a mais para o Bruce e fez o Lobo da Estepe passar de vilão genérico para vilão interessante e até inusitado.

Não estou dizendo que Liga da Justiça é espetacular, mas o Whedon fez alterações que melhoraram os personagens e a consistência do filme.

Outro detalhe importante é que a volta do Superman do Snyder foi justificada pelo mecanismo de destruição e reconstrução da Caixa Materna, o que remete ao arco de personagem do Ciborgue. É bom, mas perderia o peso com o Whedon por ele ter reduzido o tempo de tela do Ciborgue.

O Whedon descartou a reconstrução e simplificou conceituando a Caixa Materna como uma bateria bem forte. A energia dela passou para o Superman e acordou suas células. Como a caixa era muito forte, podemos supor que isso fez o Superman voltar mais forte que antes, algo que fica sem explicação no Snyder Cut.

Não é um erro do Snyder, mas uma oportunidade que o Whedon aproveitou para tornar o filme mais consistente. Esses elementos melhorados por ele são muito mais relevantes do que o excesso de piadas.

Chega a ser ofensivo ver pessoas ignorarem esses pontos positivos e tratarem o Liga da Justiça como se fosse um filme ruim. Pior é ver alguém dizer isso e achar o Snyder Cut bom, sendo que o Whedon, basicamente, apenas tornou o filme mais alegre, enxuto e consistente.

Sim, a cena do Flash voltando no tempo é épica e ela é bem fundamentada por cenas como a volta do Superman, mas isso não é mais importante do que a construção do grupo ser orgânica e o Lobo da Estepe ser um vilão com uma camada a mais e peso narrativo superior.

Vi gente dizer que o Ciborgue é figurante no Liga da Justiça, sendo que ele é o personagem mais profundo e trabalhado. Até a ideia da finalização dele na solução do problema existe. Com o Snyder, o Ciborgue diz para a caixa que não está quebrado. Com o Whedon, o Ciborgue diz que gosta de estar vivo.

A piada do pé (que acho exagerada demais) completa sua mudança de astral, assim como o soquinho no Flash (se bem me lembro, essa cena existe no Snyder Cut, mas o Whedon a fundamentou melhor colocando a piada do Flash querendo cumprimentar o Ciborgue e ficando no vácuo).

O Superman do Snyder ficou abaladíssimo quando matou o Zod e não tentou matar o Batman mesmo precisando, mas viu a Mulher Maravilha matar o Lobo da Estepe sem nenhuma necessidade e não disse absolutamente nada, sendo que ele mesmo conteve o Lobo por um bom tempo sem matar.

Mesmo que eu considere que tudo o que o Snyder fez é coerente com a proposta dele de um Superman sombrio e “realista”, o personagem no Snyder Cut não faz o mínimo para ser considerado coerente e definitivo (que seria repreender a Mulher Maravilha por matar sem necessidade).

Até o fim o Snyder não fez um Superman convincente e o Whedon conseguiu isso com pouquíssimo esforço. Não estou falando sobre tom, mas sobre qualidade de roteiro. O Snyder praticamente não demonstrou evolução concreta na mentalidade do Superman.

Bastava uma fala dele do tipo: “meu pai biológico estava certo e o adotivo estava errado”. Não. Ele ouve a voz dos dois na nave e parece combiná-las em uma decisão, sendo que a opinião de ambos foi contraditória. Jor-El disse para Kal salvar os humanos e Jonathan disse para Kal deixar as crianças morrerem para ninguém descobrir sobre ele.

Um elemento que o Snyder só jogou de qualquer jeito foi o Caçador de Marte. Ele estava lá o tempo todo, se apresentou para o Batman no final, mas não fez nada durante todas as lutas colossais que aconteceram no Universo Estendido DC? O filme o mostra incentivando a Lois a voltar a ser jornalista, mas apoiar na batalha que é bom, nada.

Um dos méritos do Snyder Cut foi mostrar o Coringa com um texto bom, mas ainda a atuação ruim do Jared Leto.

Liga da Justiça tem problemas, mas fez o beabá da narrativa melhor que o Snyder Cut (com menos tempo de duração).

Observação: como o Flash do Whedon não voltou no tempo, um futuro filme sobre o futuro distópico seria mais consistente considerando o Snyder Cut do que o Liga da Justiça.

Observação 2: na cena do Flash voltando no tempo tem o problema de a Caixa Materna desintegrar a Terra instantaneamente, sendo que o objetivo dela é conquistar, não destruir. Visualmente é estranho e pouco convincente, além da incoerência.

Observação 3: maior problema de ambos os filmes é a posição no UEDC e apresentar o Aquaman, o Flash e o Ciborgue, defeitos estruturais que o estilo Snyder trouxe ao universo compartilhado.

Observação 4: é importante salientar que a escolha do Whedon por alterar o tom do Superman torna o personagem incoerente com o que foi apresentado nos filmes anteriores. Não é um caso isolado, pois a Crise nas Infinitas Terras das séries fez o Superman de Smallville desistir dos poderes, o que contradiz totalmente o enredo-macro da série.

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