Crítica | Turma da Mônica — Lições (2021): um filme sobre crescer

E também sobre pais e filhos

Ficha técnica no IMDb

Uma travessura escolar de Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali leva seus pais a tomarem uma atitude drástica: separar os amigos.

A experiência de assistir a Turma da Mônica — Laços foi emocionante por eu ver em tela uma excelente caracterização de personagens que eu acompanhei durante toda a minha vida. Com poucos deslizes, aquele filme é um presente para fãs da Turma da Mônica.

Lições faz um trabalho similar, mas sem o mesmo vigor e a mesma genialidade. Seu roteiro vai além do básico e faz os personagens evoluírem, mas as viradas dos arcos de personagem são menos impactantes do que em Laços. O filme, como um todo, é menos impactante.

A premissa de Lições pressupõe uma história mais séria, só que o tom do filme é leve e a ausência de um rompimento voluntário entre os protagonistas impede o drama de ter o peso do desaparecimento do Floquinho e da excelente cena da floresta (aquela em que o Cebolinha magoa a Mônica de verdade).

Essa combinação de menor peso dramático e um histórico de ótimos desenvolvimentos de personagem colabora com um resultado final menos marcante que o anterior. Não é que Lições seja fraco, mas Laços foi melhor até no que o presente filme se propunha a fazer: amadurecer os protagonistas.

A ideia de Lições é fazer as famílias dos personagens concluírem que a convivência do grupo é prejudicial. O estopim para isso é um acidente extremamente surpreendente que funciona como uma piada de gordo.

Como a Mônica foi quem mais sofreu, faz sentido que a mãe dela tome a atitude mais drástica. Isso ocorre também porque a Mônica é o protagonista do filme, enquanto no anterior era o Cebolinha.

Por um lado vemos o impacto da mudança de escola para a Mônica e, pelo outro, o impacto em seus amigos. A tristeza e o desconforto da Mônica são bem empregados, embora eu considere exagero ela perguntar onde fica a sala 3 e ser ignorada.

O lado da Mônica

Um ponto importante desse trecho é o sentimento de impotência transmitido pela surpreendente cena em que a Mônica gira o Sansão e o valentão o segura como se não fosse nada. Lembrei na hora do Homem-Aranha segurando a mão do Soldado Invernal.

De maneira inesperada, a Mônica se viu incapaz de proteger o Sansão. Incapaz de se proteger. Isso em um mundo novo é assustador e dramático. Talvez seja a segunda cena mais pesada de Lições.

Além da altamente irritante pressão da mãe para que ela deixasse os amigos de lado, o que impulsiona a decisão da Mônica por aceitar essa influência é o ciúme que sente ao ver a Magali com a Milena.

Essa virada é convincente principalmente porque a Milena já havia tentado ser amiga da Magali antes, o que torna o momento natural.

A aceitação leva ao momento mais pesado do filme. O Cebolinha vai até a janela da Mônica para conversar, se incomoda com terem pegado o Sansão e ela o repreende, diz que ele deve crescer.

A cena começa de maneira tão romântica que as palavras da Mônica a tornam extremamente triste. É como inverter o sentimento que se criava no espectador desde o romântico fim de Laços. Isso tem peso para mim porque tem peso para os dois personagens.

A conversa com a Tina é muito eficiente em mostrar para a Mônica que crescer não exige abandonar o que se gosta. Ela, o Rolo, o Zecão e a Pipa provam que é possível estar aberto ao novo, preservar o antigo e ser feliz.

É um arco redondinho, mas pouco impactante, pois a Mônica nunca esteve brigada com o grupo. É por isso que me incomodou tanto a cena do reencontro. A direção faz parecer que é um momento incrível e dramático, mas não é, pois não se trata de uma reconciliação e não faz muito tempo que eles não se veem. Nem é como se eles estivessem separados por uma viagem.

O enredo do filme impede que essa cena seja esplêndida, independente do esforço técnico para torná-la melhor. Digo isso porque, por natureza, Lições não tem como ser um filme esplêndido, o que não é demérito de ninguém.

O outro lado

Para falar sobre o desfecho, é preciso abordar o arco dos demais personagens. Diferente da Mônica, todos eles têm um drama e um desafio, como em Laços.

O Cebolinha passou a se consultar com uma fonoaudióloga, o Cascão foi inscrito na natação e a Magali entrou nas aulas de culinária da Tia Nena.

A separação da amiga fez a Magali ficar mais ansiosa e comer mais ainda. Com a ajuda da Tia Nena, ela aprendeu a se controlar e que se divertir aliviaria a ansiedade. Quando ela escolhe não comer a maçã na peça, não é um ponto de virada impactante, pois eu já a vi evoluir em sua compulsão alimentar ao longo do filme. É como em Monstros do ID: ela foi vencendo a gula aos poucos.

Os casos do Cebolinha e do Cascão são opostos. Não havia como preparar a virada deles sem já fazer a virada em si, mesmo com a natação e a fonoaudióloga. Isso fez eu me surpreender muito com o “Romeu”.

Quando veio a péssima cena da Milena questionando a Magali sobre a maçã, o que era desnecessariamente redundante, dado que o arco dela estava claríssimo, eu percebi que o roteiro fez o que Laços fez, só que sem o mesmo nível de brilhantismo. Aí ficou fácil imaginar o que o Cascão faria.

Achei a cena arrastada, mas o problema do Cascão foi construído bem com um fator psicológico, então o peso dramático alivia a enrolação. O quarteto evoluiu no filme anterior e neste, o que torna Lições uma sequência válida e necessária para o amadurecimento dos personagens principais.

Quando o Cebolinha diz para a Mônica a fala correta do Romeu, é como se admitisse gostar dela. É um excelente momento embasado na triste cena da janela e no final de Laços. Se houvesse um filme com eles mais velhos e namorando, já haveria base o suficiente para tal.

O valentão

O valentão que roubou o Sansão participa de três cenas muito boas. Aquela em que o confisca, aquela em que a verdade é revelada e aquela em que se redime.

O plano do Cebolinha, da Magali e do Cascão para resgatar o Sansão é bem divertido e eu fiquei extremamente surpreso com o Cascão usando a meia para torturar o valentão. É tipo o BOPE no Tropa de Elite.

O Cebolinha dizendo “lespeito” foi sensacional. Me senti vendo um meme. Foi um dos poucos momentos em que ri de verdade.

A redenção do valentão é bacana, compreensível e brinde de um roteiro que faz mais do que o necessário. O clima de velho oeste nas aparições do valentão é bem legal.

A resolução

Gostei do uso de Romeu e Julieta no começo de Lições por ter uma atmosfera mágica, algo bem típico de quadrinhos (como a aparição do Louco em Laços), mas, ao longo do filme, estranhava a presença da peça como algo central na trama.

Quando o quarteto se reuniu, fiquei chateado, pois faltava muito tempo de filme e aparentemente seria uma coleção de cenas qualquer-coisa. No momento em que a Mônica e o Cebolinha deram as mãos, eu percebi que estava redondamente enganado.

A peça escolhida foi Romeu e Julieta porque a história principal do filme é a separação do Cebolinha e da Mônica por suas famílias brigarem. É óbvio, estava lá o tempo todo, só que eu não vi. Essa sacada bem fundamentada ficou ainda melhor na minha experiência por ser uma surpresa.

Talvez a turma não tenha percebido, mas a peça ensinou aos pais deles que não podiam forçar a separação dos filhos por seus próprios incômodos. Eles refletiram e mudaram de ideia. Um ponto de virada bem fundamentado que quase encerra a estrutura temática de Lições.

O encerramento de verdade vem com a decisão da Mônica. Crescer não significa deixar de lado os amigos, mas ela pode deixar de levar o Sansão sempre que sai. É a resposta da Tina: algumas coisas nós mantemos, outras nós adquirimos.

Na cena do papo final da Mônica com a mãe, senti que a atriz que faz a mãe mandou muito bem. Por outro lado, a principal atriz do filme me pareceu deveras artificial em vários momentos, o que não é incomum entre os atores mirins.

Esse tema do crescimento é bem abordado, mas achei exagero o uso do casulo e da borboleta, embora a analogia seja boa.

Humor

Lições tem momentos inspirados, mas, no geral, não é um filme engraçado. O que mais me incomodou foi péssima piada inicial do Do Contra, mas não há grandes problemas no roteiro. Diferente de Laços, não há uma cena que transponha perfeitamente o humor dos quadrinhos, como a do Louco ou a inicial de Laços.

Parte técnica

Assim como Laços, Lições usa e abusa do amarelo pôr do sol. O que lá eu via como uma atmosfera fantasiosa, aqui soa exagerado. O maior problema é que Lições tem cenas estranhamente escuras, como se, literalmente, fosse pôr do sol o tempo todo.

Várias cenas são exageradamente arrastadas, o que incomoda e dificulta a imersão. A inserção da trilha sonora feliz em alguns momentos me pareceu atrapalhar o clima, a música que toca na hora da virada do Cascão é perfeita e a trilha da cena do abraço é horrível.

Talvez a pior coisa de Lições seja aquela música. É emocionante, mas um emocionante triste, trágico, não feliz. Não tem nada a ver com o clima do filme ou do momento. Seria pesado demais até em filmes com finais mais tristes, como Homem-Aranha 3.

A sequência da festa também me irritou. Detesto musicais.

Aparições de personagens

Com o universo enorme e consolidado da Maurício de Sousa Produções, era de se esperar que Lições trouxesse aparições de personagens, como Laços fez.

Essencial para o arco da Mônica, a turma da Tina tem o tom certo, é engraçadinha e satisfatória. A caracterização dos personagens é boa e acho particularmente agradável ver a Tina e o Rolo como um casal. Inclusive, a Pipa tem um chaveiro do Bugu e a Tina costura uma estrela na mochila da Mônica (seria a estrelinha mágica ou a Marianinha?).

A controversa Milena é inserida de modo orgânico, é razoavelmente importante para o arco da Mônica e origina a história de Magali e Mingau. Não sou especialista em Milena, mas achei o cabelo da atriz perfeito.

Caracterização boa é aquela que de cara você sabe quem é o personagem. Assim que a Tia Nena e a Marina apareceram, percebi suas identidades. Elas são figurantes funcionais e há um momento bacana do Franjinha se interessando pela Marina. Este devia ter aparecido antes de mostrar seu talento como cientista, mas sem maiores problemas.

Não sei se eu dei bobeira ou se o Nimbus não apareceu antes de ser relevante para a história. Aquela boa piada dele com o crânio (Cranicola?) podia ser substituída por um truque de mágica, o que seria uma ótima referência e faria sentido no contexto da distração do público.

O Dudu é bem utilizado e soa muito natural no enredo. É relevante para a Mônica achar que a Magali a esqueceu.

O Humberto é engraçadinho e tem a ótima piada dele cantando na peça. Foi mais usado do que eu esperava.

O Do Contra teve uma péssima cena inicial na qual ele simplesmente se recusa a seguir ordens. O humor dele é simples e mesmo assim o roteiro não soube fazer no início. O melhor momento é durante a peça. Talvez você não tenha percebido, mas o Do Contra ficou de costas enquanto todos estavam de frente na hora de agradecer ao público. É como as boas piadas que Ser ou não Ser faz.

O Tonhão da Rua de Baixo é só um valentão qualquer. Funcional.

Eu desgostei da aparição do Maurício em Laços porque foi demorada sem uma piada excelente. Em Lições é muito melhor. O mais legal é o duplo sentido da pergunta dele sobre “quem criou esse monstro”, o que pode se referir aos pais da Magali ou a ele mesmo. Esse é o Stan Lee brasileiro.

Achei zoada a participação do Chico Bento, especialmente pela música. Eu estou vendo o Chico, não preciso de uma música redundante que diz que ele é o Chico. Além disso, ela não agrega nada ao filme nem funciona como gancho.

Considerações finais

A crítica ficou grande, mas gosto de Turma da Mônica e acredito que os fãs se importam com esses detalhes, assim como eu. Para esse tipo de público, o filme funciona muito bem, embora não com a mesma eficiência de Laços.

Sua temática de crescimento é uma sequência ótima para a trama de Laços, é bem feita e até uma boa lição para os mais jovens.

Narrativamente o filme é redondo e faz mais do que o básico em vários momentos. É digno de nota superior a 8. O jeito que ele apresenta elementos e depois os resgata, tornando-os mais importantes, é muito bom e devia ser padrão na produção de ficção.

O quarteto protagonista é bem feito, o arco de personagem da Mônica é ótimo, a relevância da turma da Tina é bacana e o melhor elemento do filme é o romance da Mônica com o Cebolinha. É fofo, é emocionante e tem um nível comparável ao meu casal favorito do cinema (Peter Quill e Gamora, de Guardiões da Galáxia).

Para o espectador se importar com a lição que fez a Mônica se machucar e com a lição que ela ensinou à mãe, é preciso ter assistido a Laços e, possivelmente, ser fã de Turma da Mônica. Por isso, embora seja bom, Lições não é um filme que funciona de maneira independente (muito mais do que Laços).

Gostaria de registrar que me agrada como o título de ambos os filmes sintetiza sua estrutura temática. Se essa característica estiver presente nos próximos filmes, será uma qualidade fundamental para elevar o patamar da franquia.

O valor de Turma da Mônica

Nós sabemos que o Brasil não é uma potência cinematográfica e que os filmes mais populares daqui remetem ou a comédia ou a dramas sociais (pessoas pobres, favelas ou policiais). Podemos dizer que filmes que fujam dessas características têm menos chances de fazerem sucesso, mas Turma da Mônica é diferente.

Turma da Mônica é um patrimônio cultural brasileiro. Curupira, Mula Sem Cabeça, Caipora, todas essas criaturas são figuras distantes do brasileiro médio. A bossa nova pode ser até hoje o maior símbolo de brasilidade no exterior, mas não é para o brasileiro médio.

Turma da Mônica é diferente. Gerações e gerações de jovens aprenderam a ler, ou pelo menos exercitaram a leitura, com Turma da Mônica. Mesmo as pessoas que não tem interesse e não leem gibis conhecem a turminha.

O potencial natural dessa franquia de filmes é enorme e pode levar o cinema brasileiro a outro patamar de popularidade. Não quero obrigar ninguém a nada, mas não seria legal ter a Turma da Mônica como um grande sucesso nos cinemas, nas bancas e um símbolo atual de brasilidade?

Sei que no futuro pode não haver mais turminha, mas eu torço pela nossa indústria de entretenimento, e, com filmes do calibre de Laços e Lições, sei que estamos num bom caminho.

Observação: Lições força a barra para ser emocionante. Trilha forçada em cenas arrastadas que não tem o peso dramático que o filme tenta fazer parecer que tem.

Observação 2: pensando sobre esse problema da emoção forçada, receio que a minha análise esteja contaminada por eu gostar de Turma da Mônica. Até que ponto eu não estou passando pano para os defeitos do filme?

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s