Crítica | Lulli (2021): quase sobre sinceridade e diálogo

Ficha técnica no IMDb

Após ser eletrocutada por uma máquina de ressonância magnética, uma jovem estudante de medicina ambiciosa começa a ouvir os pensamentos dos outros.

A interessante premissa de Lulli leva o espectador a supor que a personagem evoluirá e se tornará uma pessoa melhor. Esse é mais ou menos o rumo da narrativa, mas ela não é conduzida com cuidado o suficiente para que tal objetivo seja alcançado.

O resultado dessa falha é que o filme é quase sobre sinceridade e diálogo. “Quase” porque a Lulli não possui um arco dramático consistente. É possível dizer que ela mudou, mas a estrutura temática de Lulli não impacta o bastante no ponto de virada final. Se tematicamente essa virada é fraca, narrativamente é precisa.

A protagonista é apresentada como uma mulher narcisista que, normalmente, tem os olhos voltados ao próprio umbigo. O desdém dela em relação à indecisão do namorado pode ser insensível, mas é compreensível. O problema é ela não saber que o Diego é alérgico a camarão.

O narcisismo da Lulli colocou em risco a vida do Diego e isso foi demais para ele. Essa foi, infelizmente, a única consequência que a protagonista sofreu por sua conduta inadequada, o que é grande parte do problema temático do filme.

A atitude seguinte da Lulli não é sobre não ouvir os outros, é sobre ela ser uma completa idiota. Tentar aplicar um medicamento num paciente sem a orientação da professora é algo obviamente inadequado. Aquilo é um hospital universitário, não um parque de diversões.

Gosto do jeito que o roteiro repete a ideia de a Lulli causar uma reação alérgica, mas esse comportamento é inexplicável. A ocasião me deixou com uma dúvida: em que momento do curso ela estava?

O papo com a mãe indicava o início, mas não fazia sentido o começo do curso já ter contato com os pacientes. De todo jeito há um problema: ou ela estava no começo e estar com os pacientes não faz sentido ou ela estava avançada e era só muito burra. O fim do filme esclarece que estavam nos dois últimos anos do curso.

A próxima cena de irresponsabilidade carrega a mesma aura inexplicável dessa. Após um problema elétrico durante um exame, ela correu para dentro da sala sob a alegação de verificar a saúde do paciente.

Além da justificativa não ter respaldo prático para tamanho desespero, o Diego foi atrás dela e ambos receberam um choque mágico. Ele ficou com amnésia e ela adquiriu a habilidade de ler o pensamento de quem a toca.

Querer dar uma origem para o poder é bom, mas o mecanismo foi forçado. Houve o detalhe de ela não conseguir ler os pensamentos dele, mas isso não foi usado para nada. A interessante habilidade que move o filme causou estranhezas de execução.

Por depender do toque, o filme faz umas cenas de contato físico meio estranhas. A cena inicial da Vanessa alisando a Lulli é a pior delas.

É evidente que o roteiro vai buscar o que é pertinente para a trama, mas as pessoas pensam muito mais do que frases certinhas. Há momentos em que a habilidade parece ler a verdade, não o pensamento. Não é natural falar algo enquanto pensa outra coisa.

A artificialidade do roteiro nos leva a momentos como a Paola pensando que o Diego é como um filho para ela. É pouco natural e desnecessário, dado que seus pensamentos anteriores apontavam naquela direção sem ser explícito.

Muita gente conhece o conceito de diálogo expositivo. Lulli inventou o pensamento expositivo.

Falando na falta de naturalidade do filme, ela se estende às piadas. Não é simplesmente um roteiro fraco, mas parece saído de um seriado de TV como Os Caras de Pau (do Marcius Melhem e do Leandro Hassum). Fica tudo com uma pegada de programa de humor, algo feito para ser engraçado. Eu critiquei uma aura parecida na personagem Jane de As Loucuras de Dick e Jane.

Não é exatamente ruim, mas é estranho. Achei engraçada a piada com a leitura da mão, mas pareceu muito forçada, artificial e extensa. Entre os atores, quem mais me incomodou foi a que interpreta a Vanessa.

Ao longo do filme a Lulli vai usando sua habilidade para atingir seus propósitos pessoais e os de sua irritante amiga Vanessa. Há pouco esforço para mostrar um retrocesso do narcisismo da protagonista.

Ela chega a ajudar um paciente a se reconciliar com o filho, mas esse paciente a lembra do pai, o que torna a atitude um reflexo do que ela queria para si, não uma ação totalmente altruísta. Não quero desqualificar totalmente a benfeitoria, mas é um ponto relevante.

O ponto de virada da Lulli é quando ela vê o Diego passar mal e se lembra de sintomas que ele tinha, o que permite que ele passe por uma cirurgia e seja curado. É uma boa ligação com a reação alérgica inicial, mas não uma prova de que a Lulli mudou. Pelo menos não por si só (e acho que ela ouviu os sintomas antes de ter o poder, o que faz o momento não decorrer diretamente do poder).

O caminho para fazê-la amadurecer e deixar de ser narcisista era trazer consequências para suas ações, mas o filme passa a mão na cabeça dela quando faz o Diego voltar com ela, sendo que a Lulli o enganou depois de ser extremamente babaca com ele.

Lulli tem parte de seus problemas resolvidos sem o uso da sinceridade e do diálogo. É o que acontece com a protagonista. A Vanessa resolve sua desavença com a Elena inexplicavelmente a chamando para morar com ela, sendo que dez minutos antes a detestava, e, aparentemente, mentindo para ter o caminho amoroso livre.

Seria lindo se os personagens simplesmente conversassem. A Vanessa poderia parar com a bobagem de querer que a Lulli lesse a mente dele ou a própria poderia ter a iniciativa de conversar com o Ricardo para saber se ele tinha interesse na Vanessa.

Seria lindo se a Lulli sentasse com o Diego, explicasse o que houve, seu receio de terminar, seus sentimentos e ele a perdoasse por perceber uma mudança real nela. Do jeito que foi, não senti que a Lulli mudou, algo essencial para que um filme com essa premissa seja bom.

Por outro lado, o relacionamento do Júlio com o Ricardo é bem construído. O mais interessante é quando o Ricardo canta uma música romântica olhando para a Elena, a Vanessa e o Júlio. Pode passar batido, ser entendido como uma paquera hétero e ser na verdade uma paquera homo.

Fiquei esperando por uma revelação de forma mais bombástica, mas o filme tratou a situação como óbvia. É coerente e tirou o peso humorístico que a revelação teria (o que não é uma qualidade ou um defeito).

Essa subtrama do Júlio e suas inseguranças esportivas é bem legal, assim como o diálogo do Ricardo sobre a situação, a história do paciente com problemas familiares e do Diego com o pai. Esses devem ser os melhores elementos do filme.

Uma última escolha inadequada do roteiro foi fazer a Lulli perder a habilidade por não parar de tocar o Diego na hora do choque. É óbvio demais para um estudante de medicina e a médica ainda a avisou.

Ao final há uma cena após dois anos e depois com a médica Lulli, mas ambas acrescentam muito pouco à personagem, pois eu não a vi crescer devidamente. Com isso, a narração inicial fica menos relevante também.

Eu esperava por uma oportunidade de avaliar a atuação da Larissa Manoela para verificar se a minha impressão de anos atrás estava correta. Eu achava que ela interpretava bem ela mesma, a Maria Joaquina. Em Cúmplices de um Resgate eu sentia que a gêmea má era a Maria Joaquina de óculos e cabelo roxo, enquanto a gêmea boa parecia uma pessoa ruim se fingindo de boa, como a Marian boazinha de Chiquititas.

Em Lulli, a Larissa é meio que uma Maria Joaquina, mas não a ponto de parecer o mesmo personagem. Preciso ver uma história em que ela não interprete alguém narcisista para checar adequadamente.

Um pequeno incômodo é que a Larissa parece muito menininha. Não sei se o problema é a atuação ou a lembrança que tenho dela. Comente sua opinião sobre isso.

Lulli é um filme razoavelmente divertido e interessante, mas não consegue fazer de sua protagonista uma figura marcante ou muito bem feita, o que, somado aos seus traços artificiais, resulta numa obra pouco satisfatória.

Talvez o mais estranho em Lulli seja que a leitura de pensamentos é uma curiosidade, não um elemento essencial para o desenvolvimento dos personagens. O Júlio não foi para a partida ou conheceu o Ricardo por causa da leitura de pensamentos. O reencontro familiar e a resolução da Elena também não dependeram da habilidade.

Observação: considerando que os poderes são facilmente substituíveis sem afetar a trama e o casal principal tem uma resolução que faz o salto lógico que ignora as mancadas da Lulli, quanto mais penso no filme me sinto tentado a concluir que ele é ruim.

Observação 2: é curioso que a Lulli só tem 2 amigos.

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