Crítica | Garo — A Flauta Secreta (2013): visualmente interessante

Ficha técnica no IMDb

Há muito tempo, uma sacerdotisa Makai chamada Higari se tornou muito poderosa. Depois de mexer com poderes que ninguém deve exercer, ela teve que ser detida e acabou selada por outro sacerdote Makai chamado Sougen. Usando seu corpo e sua própria vida, ele criou a flauta Tougen.

Garo me deu a impressão de ser parte de uma obra maior ou a adaptação de uma obra já existente. Senti isso porque os conceitos da trama são complexos e parecem jogados sem grande preocupação com o entendimento do espectador. Além disso, a protagonista e sua mestra mencionam amigos, como se fosse uma referência que o fã da obra original entenderia.

Aparentemente, Garo é tanto uma adaptação quanto parte de uma franquia de filmes.

Um ponto que se destaca é a existência de diálogos expositivos artificiais e trechos bobos que são reforçados por atuações meia boca.

O filme acaba sendo meio difícil de acompanhar, pois as personagens vão sacando poderes do bolso e eu não conheço a extensão deles. Isso faz com que as batalhas sejam demonstrações sem grande apelo dramático.

A confusão também vem pela montagem um tanto brusca. No início, enquanto a lacaia 1 explicava à Jabi sobre a flauta, a Rekka ajudava a lacaia 2, que teve a flauta roubada. Ou a lacaia 1 estava mentindo sobre ter a flauta ou a cena da Rekka não era simultânea.

Como a segunda opção está correta, o filme usou um mecanismo preguiçoso para enganar o espectador. Inclusive, tal mecanismo me fez projetar um enredo diferente e mais interessante: a Jabi seguiria com a lacaia 1, enfrentaria a Rekka e descobriria que foi enganada.

Garo escolheu queimar o cartucho do duelo emocionante rapidamente, o que já tira peso emocional do restante do filme. É estranho o jeito que a Rekka e a Jabi lutam sem serem claras quanto ao motivo de buscarem a flauta. Imagino que aquele mundo tenha a presença constante do medo de uma sacerdotisa cair nas trevas, mas ainda soa estranho.

Pelo que entendi, as lacaias só precisavam descobrir qual das duas era a flauta e a lacaia 1 as atraiu para a floresta porque lá seu poder é maior, o que significa que a luta entre mestre e discípulo não era necessária. Essa constatação me incomoda, pois confere um ar de artificialidade a Garo (ar que está presente ao longo de todo o filme).

Apesar de os conceitos do mundo serem meio jogados, até perto do final eu estava acompanhando sem maiores problemas. Não parecia que o filme estava inventando detalhes do nada, mas sim explorando um universo coeso que eu desconheço.

O porém narrativo fica para o rapaz que surge do nada e é usado em combate sem que possua relevância dramática. Era melhor usar uma das personagens que apareceu no começo.

O grande problema começa quando as lacaias põem seu plano em prática. O ritual com os objetos entrando nas notas musicais foi excessivamente arrastado e presença das personificações na mente da Rekka não foi útil para a resolução do conflito.

A atmosfera de luta contra o tempo é boa, mas o filme não soube executá-la até o fim. O encontro da protagonista com o pai não tem peso, pois eu não me importo com eles. Cena emocional sem emoção + falta de combate principal = sequência fraca. Não é de todo ruim, mas fica devendo.

A batalha dupla contra dupla teria sido um fim regular, mas desemboca na libertação da vilã de modo pouco convincente. A lacaia 2 matar a lacaia 1 foi muito surpreendente e uma sacada que usa inteligentemente a tensão sexual entre elas.

Entretanto, a libertação não depender de algo conectado à Rekka tirou a minha imersão. Foi fácil demais e não me pareceu que as lacaias pretendiam matar a Rekka assim que possível. Tudo estava concentrado na protagonista e, de repente, o principal não dependia dela.

Outra parte prejudicada pela facilidade foi a derrota da vilã (que tem uma aparência bizarra). Um sacerdote se matou para aprisioná-la, mas a protagonista fez uma dancinha com a mestra e já a derrotou sem sequer suar.

Detalhe que não foi estabelecido que a Rekka tinha uma habilidade especial para derrotá-la ou que a vilã estava enfraquecida. A conexão com a cena inicial não torna a batalha melhor, embora traga um nível interessante de coerência.

O final tem uma carga emocional típica de fim de episódio de Pokémon (com o pessoal dando tchau para o pôr do sol), o que faz Garo parecer mais um episódio de uma série do que um filme. O que mais pesa para a semelhança com uma série é a qualidade dos efeitos visuais.

As lutas são razoavelmente bonitas, mas parecem mais uma dança do que um combate. É tudo muito artificial, como se as sacerdotisas não quisessem se acertar, apenas mostrar a habilidade que possuem. É uma impressão que tive com a segunda trilogia Star Wars. A realização de batalhas em locais mais escuros não ajuda em nada.

Os efeitos visuais têm risíveis deficiências de execução, mas representam ideias legais. Não critico muito porque isso depende de orçamento, mas aquelas cenas de apresentação dos personagens foram extremamente toscas. Aí não é execução ruim, é ideia ruim.

Os designs das personagens provavelmente tiveram o intuito de sexualizá-las, mas são trajes bonitos. Outro momento de provável sexualização foi quando personificações das notas musicais tocaram a coxa e os seios da Rekka, algo que não possui explicação ou função.

Coloco na conta da sexualização também estranhos momentos de tensão sexual entre a lacaia 2 e a Rekka, entre as lacaias e entre a Rekka e a Jabi. No caso das lacaias, as cenas ajudam a tornar surpreendente a libertação da vilã, mas, considerando todo o resto da obra, é possível deduzir que houve uma motivação sexista para esses momentos.

O que mais achei estranho foi o da Rekka com a Jabi, afinal, a relação delas é de mestre e discípulo. A arrastada cena delas de mãos dadas pode ser interpretada sem conotação homossexual, mas o jeito que o rapaz questiona o toque de mãos sugere que exista algum motivo especial para a ação.

Garo é um filme de 1h que possui uma mitologia tão vasta que o torna confuso e difícil de acompanhar. Suas lutas são teatrais e quase não há peso emocional em seus eventos, algo potencializado pela falta de desafio. Não é um filme ruim, mas é como um episódio de Power Rangers.

Observação: a cena da Rekka com o pai é muito parecida com a cena do Naruto com o Minato.

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