Crítica | Naquele Fim de Semana (2022): tenta ser grande e falha no básico

Ficha técnica no IMDb

Depois que sua melhor amiga desaparece em uma viagem de férias na Croácia, Beth corre para tentar descobrir o que aconteceu e acaba se envolvendo em uma teia de mentiras.

Naquele Fim de Semana tenta ser como aqueles filmes de suspense misteriosos que terminam com uma grande revelação. Dois exemplos dessa tentativa são Fratura e Antes de Dormir. Para tal, o roteiro aposta em uma narrativa intrincada que reúne várias camadas de revelações até o plot twist final. Embora tente abraçar o mundo, o roteiro comete deslizes absurdamente óbvios que sabotam o todo.

A dinâmica da Beth com a Kate estabelece a amiga como uma pessoa inconsequente que coloca os desejos acima da razão. Isso fica claro quando ela sugere à Beth que se divorcie e traia o marido.

Após a noite de farra, a Beth não se lembra de tudo o que aconteceu e tem alguns flashs de cenas dela sob efeito de entorpecentes, em atrito com a Kate e esta gritando: “puta”. Perdão pelo uso da palavra, mas preciso dela para justificar o impacto emocional que o laço das duas teve em mim.

Com essa polvilhada de conflito, eu esperava            que o final do filme revelasse que ambas brigaram. Considerando a ênfase que é dada a possibilidade de a Beth ser mandante do crime, a polvilhada parecia ter grande relevância. Na verdade, o atrito é absolutamente irrelevante e a referida palavra foi usada quando a Kate xingou os ladrões.

Se o roteiro prepara uma conclusão consistente e opta por outra inconsistente, há uma falha grave em sua construção.

Eu fiquei surpreso com a morte da Kate e a revelação de que ela era amante do Rob. Isso embasou bem a suspeita da polícia. Na hora do interrogatório fiquei confuso quanto a como a polícia soube da traição e considerei a possibilidade de o policial ter lido as mensagens quando pegou o celular.

A escolha de Naquele Fim de Semana foi bem mais complexa. Usar o senhorio esquisitão como um bisbilhoteiro à lá 13 Câmeras e O Recepcionista pareceu muito fora da curva de acontecimentos necessários para o andar do filme, como se o enredo fosse desnecessariamente incrementado.

Combatendo a perspectiva anterior, o roteiro usou as câmeras de forma superconveniente para a protagonista descobrir novas pistas. Nesse momento fui apresentado ao que gerou um dos furos de roteiro mais burros que vi nos últimos tempos: a Kate sai do hotel em um carro e volta noutro.

Em vez de pedir ajuda ao senhorio para levar as imagens à polícia, a Beth brigou com ele e por pouco não o matou. Sua hostilidade o levou a apagar as imagens e foi mais um degrau em seu comportamento inescrupuloso.

Ela usou o rosto da amiga morta para desbloquear a tela do celular escondida do policial, escondeu informação da polícia sobre o que se lembrava de ter acontecido na noite de farra, roubou a chave do senhorio para entrar no quarto secreto e ainda faria mais.

Imaginei que esses trechos serviriam para embasar que ela era capaz de tomar atitudes criminosas. Considerando a hipótese policial de ela ser mandante do homicídio, havia ali a chance de fazer um plot twist fabuloso.

Outra reviravolta possível seria o taxista ser o assassino, algo que teria peso emocional, pois Naquele Fim de Semana soube executar bons diálogos da protagonista com ele. Mais um bom plot twist que o roteiro preferiu não usar.

É forçado a Beth reconhecer a placa do carro do policial, mas é o tipo de conveniência que podemos relevar. O problema é que ela age como se isso fosse uma prova de que o policial quis a Kate, foi rejeitado e a matou, sendo que não havia nenhuma evidência disso, mesmo no vídeo que ela viu no quarto secreto.

Quando o policial caiu e morreu, eu senti que o filme estava passando dos limites de camadas. Garotos de programa, grupo criminoso, adultério, senhorio bisbilhoteiro, protagonista mandante e policial envolvido. Até aqui não havia nada de muito mal feito, mas era história demais para 1h30.

Ou melhor, esse trecho da perseguição policial já é uma bizarrice das grandes. Se o taxista e a Beth foram liberados pela polícia, por que os delegados em pessoa foram atrás deles com vários policiais? Se eles não eram foragidos, por que fugiram?

Além disso, se a protagonista suspeitava do policial, por que disse contou a teoria a ele em vez de guardar a informação para um depoimento? Ela assumiu o risco de ser uma nova vítima.

Essa saída não me agradou, mas nada é tão ruim que não possa piorar. A policial afirma que a teoria da protagonista estava correta e diz que conseguiram as imagens de câmeras de segurança. Uma das telas mostra a Kate com um homem perto da água.

Aí eu te pergunto: se o policial quisesse matar a Kate, por que a deixaria sair do carro? Nas imagens ela não era arrastada, então não vimos evidência de que ele cometeu o crime, mas havia a tela com a Kate e seu algoz perto da água. Poderia ser só uma omissão narrativa, mas era outra demonstração de um dos mais burros furos de roteiro que vi nos últimos tempos.

A Beth vai para a casa do Rob, coloca a mão no bolso de uma blusa dele e pega uma pedra que pertencia ao colar que ela deu para a Kate na viagem. Baseada apenas nisso, ela conclui que ele matou a Kate e tem uma excelente sacada para conseguir uma prova contra ele e levá-lo à justiça. Enfim chegamos aos furos.

Por que o Rob guardou a pedra do colar no bolso? Se a Kate queria que o caso deles terminasse e queria o bem da amiga, por que não disse de uma vez o que havia acontecido em vez de jogar a Beth para um adultério que a faria se sentir extremamente culpada?

E o mais importante: aquela polícia é tão incompetente que não viu que o Rob entrou em contato com a Kate depois que o policial a deixou no hotel? Aquela gravação da Kate perto da água não foi o suficiente para perceberem que aquele era o Rob e não o policial?

O roteiro é tão burro que fez a polícia condenar o policial sem ter evidência alguma de que ele havia matado a Kate e claramente tendo a possibilidade de ver que o Rob esteve com ela (mesmo que eles tenham se visto em outro lugar, não na frente do hotel).

Para um filme tão bem feito, apesar de excessivo na quantidade de elementos, é inaceitável ter um plot twist tão ruim. Criou crateras no roteiro, deixou de usar o atrito da protagonista com a amiga, as indicações de que a Beth era capaz de tomar atitudes suspeitas e o atencioso embasamento para o laço dela com o taxista.

Naquele Fim de Semana flerta com a chance de ser um grande filme de suspense misterioso e termina cometendo erros óbvios, básicos e absurdos. Mais uma pérola da ruindade da Netflix.

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