Crítica | 127 Horas (2010): tenso e dramático

Ficha técnica no IMDb

A história do montanhista Aron Ralston, que ficou preso após uma queda num desfiladeiro no Utah.

O início do filme capricha em belas paisagens desérticas e na demonstração de que o protagonista é um aventureiro nato que sabe o que está fazendo. A cena em que ele e as moças se jogam na água é surreal. Mesmo sabendo que não aconteceria nada ruim ali, fiquei bem tenso.

Em particular, o som da água me agradou. O trecho serve também para construir uma conexão entre o protagonista e o público. Eu esperava que 127 Horas demorasse mais nesse pedaço, que costuma ocupar meia hora em filmes de terror, mas em 15 minutos o acidente aconteceu.

Um toque de brilhantismo é que nesse momento o nome do filme é apresentado, como se um narrador dissesse: “a história começa aqui”.

Dentro da estrutura temática de 127 Horas há uma linha de sobrevivência, uma linha dramática e ambas vão se entrelaçando. O Aron faz várias ações para lidar com a pedra e o espectador tem que tentar entender a lógica delas. O que há de diálogo expositivo vem com uma ótima justificativa dramática.

O Aron liga a filmadora e grava uma mensagem para seus pais e a pessoa que encontrá-la, usando-a como um diário. Nessas cenas ele explica o que está fazendo e as condições do lugar, o que funciona para esclarecer eventuais dúvidas do espectador. Alguns flashbacks são bem empregados para tais esclarecimentos.

127 Horas é um bom exemplo de casamento da temática com a narrativa. A forma com que a sobrevivência se intercala com o drama pessoal torna o andar do filme variado o suficiente para não entediar e ainda transmitir a sensação de passagem de tempo.

Uma das consequências de situações de sobrevivência é a pressão psicológica e o filme a usa para desencadear devaneios no Aron. Ele passeia mentalmente pelo que deseja, pelo que gostaria de ver e pelo seu passado, por momentos em que ele poderia ter agido diferente.

Esses mergulhos na mente do protagonista combinam com a câmera próxima, necessária num ambiente estreito, e com o ato de se filmar. Essa confluência de fatores solidifica o drama de 127 Horas e faz com que eu me importe muito com o Aron.

Eu torço por ele conforme ele lida com o desafio da água e da comida e eu sofro com ele em seus devaneios. O final é o mais causa impacto. O toque tragicômico da “brincadeira” do Aron é interessante e explicita que ele sabe que sua situação é praticamente terminal e que ele é o responsável por ela pelo jeito que se afastou das pessoas.

Essa sensação de fim da linha é essencial para que a decisão drástica seja orgânica. Não só pelo aspecto racional, mas pelos perceptíveis arrependimentos do Aron. Uma boa cena que destaca isso é a da chuva.

Inicialmente, a chuva é uma esperança de água, mas logo se torna uma ameaça pela inundação. O desespero prático rapidamente muda e deixa claro que é tudo devaneio, mas o importante aqui não é surpreender o espectador com a manutenção do problema (como faz o excelente 1408). A intenção é destacar o sofrimento do Aron e o que ele mais deseja.

Em geral, os devaneios são uma experiência muito interessante, embora não saibamos muito sobre a vida do Aron. Caprichar nesse apreço do espectador pelo protagonista é um dos pilares do incrível final de 127 Horas. Outro pilar é a primorosa execução.

O filme já havia estabelecido que o Aron não conseguiria atravessar o braço com a lâmina por causa do osso, então a decisão dele foi coerente. É impactante e aflitivo, com destaque para o jeito que o filme demonstrou a dor. O mais importante é que não é rápido, o que amplia a imersão.

A ênfase dada ao Aron bebendo água é bem pensada, mas achei bizarro ele descer daquele jeito logo após sair do aperto. Sabiamente, diferente de 119 Graus, 127 Horas não picotou a cena do resgate. Em vez disso, caprichou na sequência final.

A carga dramática da trilha sonora pode parecer excessiva, mas, considerando tudo o que o filme fez e como fez, me pareceu válida. Foi um desfecho emocionante e é satisfatório ver as informações sobre a vida do verdadeiro Aron.

Um detalhe técnico do filme é que ele divide a tela para mostrar mais de uma imagem ao mesmo tempo. Na maioria das cenas esse recurso foi pouco relevante, mais como um mero capricho.

127 Horas é um excelente filme de sobrevivência que sabe fazer o espectador se importar com o protagonista, tem criatividade o bastante para tornar os devaneios úteis e interessantes e desenvolve bem os desafios da situação.

Já que não encontro pontos negativos, é justo dizer que 127 Horas é um filme perfeito.

Observação: vale ressaltar que 127 Horas brilha com uma narrativa centrada no interior do protagonista, enquanto o excelente O Túnel brilha com uma narrativa centrada no exterior do protagonista. Filmes de sobrevivência não dependem do diálogo interno para serem bons.

Observação 2: assisti Morte no Nilo e gostei de algumas paisagens desérticas, assim como em 127 Horas. Outra semelhança na minha experiência foi que assisti ao presente filme usando um headphone, o que deixa o som bem mais próximo da experiência cinematográfica. Me pergunto quantos filmes dramáticos eu apreciei pouco por usar um fone comum em vez de um headphone.

Observação 3: aproveitando a ocasião, sobre o Morte no Nilo, é um filme de mistério muito bem conduzido. Ele foi bom o suficiente para dar uma resposta lógica que me pegou de surpresa, como um hábil ilusionista. O problema é que o Poirot não tinha base alguma para deduzir a causa da queda da pedra e a parte da tinta vermelha me pareceu pouco natural.

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