Crítica | Capitã Nova (2021): roteiro burro, muito burro

Ficha técnica no IMDb

Em um futuro sombrio, uma piloto precisa voltar no tempo para impedir um desastre global, mas um imprevisto acontece e ela volta a ter doze anos de idade.

Há algum tempo eu assisti a Interestelar e comprovei que, como várias pessoas dizem, o filme é muito bom. Lendo a sinopse de Capitã Nova fiquei empolgado por sentir que a ideia era semelhante.

Claro que eu não esperava um nível de qualidade similar, pois Capitã Nova tem a metade do tempo de duração de Interestelar, mas imaginei que veria uma obra razoável. Triste engano.

O começo do filme dá a entender que a Terra se tornou um ambiente inóspito e que a capitã Nova fará algo para salvá-la. É um início legal, mas se não existisse seria muito melhor, pois haveria um ótimo mistério: quem é a garota que veio no objeto voador não identificado?

O mistério tornaria o filme bem mais interessante. Não só pela alta qualidade da revelação, mas também porque minha experiência foi prejudicada pelos incontáveis momentos em que Capitã Nova oferece detalhes estranhos, ruins ou sem sentido.

A maior parte desses detalhes se concentra nas atitudes dos personagens.

Nas

Nas, o garoto que acompanha Nova, não tem motivo para fazê-lo. Ele continua indo com ela de um lado para o outro sem saber o que ela pretende e indo contra as autoridades. Até obedecer ao robô na floresta e tirá-la do local da queda da nave foi difícil de aceitar.

O homem que consertou o carro deles não tinha motivo para protegê-los da polícia, afinal, ninguém explicou o motivo de eles estarem fugindo. Após o protagonista magicamente fugir da SWAT na casa do Simon, correu até a casa desse homem e foi acolhido, embora ainda não houvesse explicação para sua situação.

Veja bem, ele correu. Da casa hospitaleira a dupla foi para a casa da reunião dos empresários e depois foi à casa do Simon. Como é possível ele ir da casa do Simon à casa hospitaleira correndo?

Talvez sejam lugares próximos, o que aliviaria o jeito estranho que os protagonistas andam de um lado para o outro, chegam a ver o mar e aparentemente não pegam nenhum transporte coletivo ou particular.

Vale ressaltar que é estranho a polícia ir averiguar a casa hospitaleira, sendo que o Nas estava dirigindo aparentemente no meio do nada em direção ao meio do nada sem que ninguém soubesse seu objetivo. O mesmo vale para a última vez em que ele é interrogado.

Depois de ouvir a Nova, a policial foi falar com o Simon e disse que a investigação confirmou a história dela. Em seguida, perguntou ao Simon se a Nova dizia a verdade. Se a investigação confirmou o relato, por que ela fez essa pergunta? É uma contradição irritante.

Outra atitude estranha da policial foi deixar o Nas ir com a Nova no final, sendo que a protagonista não lhe explicou seu plano.

O robô

O robô deveras chato em alguns momentos tem sua cota de atitudes estranhas. Quando a Nova estava no hospital militar, ele fez um esforço hercúleo para chegar à casa hospitaleira e dizer ao Nas que a Nova estava machucada e precisava ser levada ao futuro para se salvar.

O robô poderia muito bem ter dito aquilo para as pessoas na base militar, o que seria muito mais fácil do que o Nas convencer os militares da mesma teoria. O robô também não viu o estado de saúde da Nova e, se ela foi razoavelmente tranquila até a nave, seus ferimentos não eram tão graves.

O pior de tudo sobre este personagem é que o robô poderia não ter alcançado o Nas antes de sua bateria acabar, o que arriscaria a missão. Isso é o pior porque ele não pareceu buscar o objetivo da missão, apenas o bem estar da protagonista.

O senso de urgência dele me fez pensar que havia um limite de tempo para ficar no passado, mas não, foi só uma preocupação hospitalar mesmo.

Capitã Nova

É na protagonista que residem os maiores problemas de Capitã Nova. Ela não está preparada para a missão e seus planos são bem burros.

Ao longo do filme é notável como a Nova não sabe reagir às situações. Ela está quase sempre vacilante quando é questionada sobre sua missão ou tem que tomar decisões. Em vários momentos parece que ela deixa o Nas decidir por ela ou reage de maneira inexplicável, como quando ele disse que ela é gótica e ela deu um chilique.

O mais importante e mais burro é que a Nova não parece treinada para convencer as pessoas de sua história e alcançar seu objetivo. O Nas a leva onde ela quer por sorte e no encontro com o Simon ela fala apenas o que qualquer um poderia dizer sobre a exploração de terras polares.

Ela sequer mencionou ser uma viajante temporal e não apresentou provas de suas afirmações. Como ela esperava convencer o Simon dessa forma? No segundo encontro, a Nova apresentou uma gravação do Simon do futuro. Ué, por que ela não fez isso na primeira vez?

Mesmo essa gravação não contém informações convincentes quanto ao futuro da Terra. Se a ideia era convencer, eles precisavam provar que a viagem no tempo aconteceu ou explicar de maneira técnica os problemas causados pela exploração de terras polares.

Considerando que o futuro da Terra dependia da missão e que a Nova era uma militar, esse despreparo dela é uma gigantesca burrice do roteiro. E não para por aí.

Depois que a Nova volta para o futuro, descobre que casou com o Nas. Isso é coerente com a ridícula cena em que ele se aproxima para beijá-la e é um furo de roteiro. Se a alteração dela criou esse novo detalhe, a memória nova deveria aparecer automaticamente na cabeça dela, não ser uma descoberta (mas isso é uma confusão causada pelo conceito de viagem em uma linha temporal contínua).

Para preservar seu relacionamento com o Nas, ela decide viajar de volta ao ponto em que se despediu dele, não ao mesmo ponto da viagem anterior. O plano final da Nova foi impedir na marra a exploração de terras polares.

Ou seja, por motivos amorosos ela decidiu fazer algo que claramente não impediria a Terra de ser devastada por mudanças climáticas, sendo que suas viagens no tempo não tinham riscos ou limitações. A Nova é uma das protagonistas mais detestáveis que já vi.

O final de Capitã Nova dá a entender que o roteirista acredita que paralisar o magnata antes dele apertar o patético botão vermelho automaticamente o fez mudar de ideia em relação a explorar terras polares. É burro, muito burro.

O final educativo

A premissa de Capitã Nova carrega um viés temático de “vamos salvar a Terra” que encaixa nas campanhas de conscientização quanto à degradação ambiental. No final, o filme deixa fugir do controle esse viés e coloca várias naves sem explicação para visitar locais ambientalmente problemáticos.

Fica meio subentendido que os militares do futuro usarão as informações coletadas para fazer mais missões temporais e resolver os demais problemas. A falha do roteiro é justamente esquecer que a chave é a conscientização.

Assim como a paralisia do magnata não o impede de no dia seguinte apertar o botão vermelho, desbaratar um esquema de extração ilegal de madeira não significa que no outro dia a Floresta Amazônica não estará sendo alvo de outro esquema.

O que o roteiro tenta tornar um final esperançoso não resolve os problemas apresentados nem deixa uma mensagem eficiente o bastante para o público. É como se Capitã Nova falhasse em tudo o que tenta.

A cereja do bolo

A última bizarrice do filme é que o homem da casa hospitaleira consertou o robô do futuro e adicionou humor à sua programação. É inacreditável. Ele nem foi construído como alguém inteligente e fez algo que está décadas à frente da capacidade humana.

Humor

O filme tem alguns momentos de humor pouco relevantes. A piada com o parceiro da policial contando a história para os militares é arrastada demais, mas a da policial no quadriciclo é sensacional.

Conjunto da obra

Capitã Nova é um filme com uma intenção nobre, uma premissa interessante e um dos piores roteiros que já vi. O aparente desleixo do roteirista torna Capitã Nova péssimo.

Observação: quando apareceu aquele garotinho cabeludo no futuro, pensei que fosse acontecer algum plot twist temporal que mostrasse que ele era o Nas.

Observação 2: curioso como o filme não tem momentos de emoção. Nenhuma cena da Nova com os pais ou um aprofundamento da questão familiar do Nas.

Observação 3: a quantidade de problemas no roteiro sobrepuja tanto o enredo que eu nem comentei sobre a Nova ser mais uma ferramenta do que uma pessoa, já que ela não evolui e não tem conflito emocional, apenas faz coisas.

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