Crítica | Deep (2021): a escolha sempre foi deles

Por que o cientista precisava falar inglês?

Ficha técnica no IMDb

Quatro estudantes de medicina que sofrem de insônia decidem participar de um experimento neurocientífico secreto chamado Deep.

Deep é um filme que vai bem no começo e no meio, mas erra radicalmente no final. Além de detalhes que me desagradam, um ponto crucial da trama não faz sentido algum. Isso deixa um sabor especialmente amargo no final da experiência porque Deep estava sendo um filme legal.

Parte técnica

A parte técnica de Deep é interessantemente criativa. Ele tem uma estética de episódio de série, pois usa texto na tela, narração e uma ou outra cena que me lembraram de Todo Mundo Odeia o Chris.

Talvez essa diferença se deva mais ao que eu costumo assistir do que a uma inovação deste filme, mas fez eu encará-lo com uma boa vontade que comumente não existe.

A trilha sonora é usada de modo a tornar vários momentos empolgantes. Mais de uma vez Deep faz sequências sem diálogos que mostram vários acontecimentos embalados por uma trilha sonora agitada. É um jeito eficiente de elevar o astral do espectador.

Eu assisti dublado, mas é perceptível que a atriz que interpreta a Cin é mais canastrona que os demais. Já me disseram que o cinema asiático é assim, mas alguns trechos dela me soaram bem estranhos.

Destaque positivo para os efeitos visuais de sonolência.

O desenrolar da trama

O filme se baseia nas consequências de ficar sem dormir. Para preparar o espectador para tais consequências, ele tem um início expositivo. É literalmente uma aula sobre o assunto. Por mais que seja conveniente, sem o foreshadowing pareceria que as alucinações vieram do nada.

Outro acerto é apresentar a Jane como uma moça que tem transtorno obsessivo compulsivo, é dona de casa e tem uma irmã desagradável. Esse ambiente favorece a insônia dela e me ajuda a criar uma conexão emocional com a protagonista.

O Win e o Peach são menos explicados, mas a Cin também tem a insônia relacionada à pressão familiar. É importante abordar esse tema e justifica a permanência de ambas no experimento.

O problema financeiro da Jane a faz buscar o experimento deep, o que dá a ela uma carga emocional semelhante à que senti com o protagonista de Round 6. Não sei se eu estava sonolento ou a explicação foi vaga, mas demorei um pouco a entender a ideia do experimento.

É engraçado que o cientista fala casualmente: “ah, e você morre se dormir. Não esqueça”. Pareceu-me uma consequência muito exagerada.

Quando as outras cobaias conheceram a Jane, me incomodou a falta de um problema financeiro nelas, que foi a causa da escolha da Jane.

A parte técnica ajuda muito esse período do grupo interagindo e se ajudando a ser legal. Por tabela, acabei me importando com os dramas pessoais deles. É raro eu me importar tanto com um grupo de personagens de um filme mais ou menos de terror.

A fase 2 aprofunda a tensão com as alucinações e a dificuldade maior para subir a porcentagem. O terror dessa parte é funcional. Gosto também da descoberta sobre o efeito positivo que exercícios físicos têm sobre o aumento da porcentagem. A sensação de que os personagens estão indo para algum lugar é bem legal.

Vale destacar na festinha o momento em que parece que a Jane vai desmaiar e ela começa a dançar. Foi surpreendente e meio vergonha alheia.

Depois vem a melhor parte de Deep. A paixonite do Peach pela Cin era um elemento fofo e a descoberta de que ele era obcecado por ela me pegou de surpresa. Justificou aquela sensação dela de estar sendo seguida e criou um mal-estar no grupo.

Pensei que fosse uma alucinação, principalmente devido aos vídeos repetidos, e o trecho foi o estopim para um momento de risco de vida. A partir daí, não haveria motivo forte o bastante para os personagens entrarem na fase 3 do experimento deep.

Pausa para o drama: fiquei chateado com o fora que a Jane deu no Win, mas a cena dele no bar foi sofrência demais para o meu gosto.

A revelação de que a June havia participado do experimento deep foi embasada pelo momento em que ela vê o cartão da empresa, mas não havia motivo emocional para ela escolher o experimento em vez de um emprego comum (temos que nos lembrar de que ela ficou acordada durante dias na fase 2).

Diante da necessidade hospitalar da avó, infelizmente, Deep fez a June entrar na fase 3, não a Jane. Era a justificativa perfeita, mas o roteiro escolheu um caminho torto que destruiu sua alta qualidade.

Os problemas do final

A atitude da Jane de pedir aos amigos para entrarem na fase 3 não faz sentido algum. A June entrou naquilo por vontade própria, não por ter sido enganada. Além disso, não havia evidência de que era mais fácil os quatro conseguirem do que ela.

Claro que também não faz sentido os amigos toparem se colocar em risco para livrar a barra da June e ela ficar no mesmo lugar que eles, já que ela não estava mais no experimento.

O atrito físico no grupo faz sentido e é orgânico. Até aí eu estava imerso no filme, mas veio o plot twist: a sala do vilão com câmeras vigiando os mocinhos pertence à professora. Gosto muito do conceito da sala de vigilância, mas teve um incômodo ar de galhofice.

A reviravolta faz sentido, pois foi a professora quem indicou todos para o experimento. Gostei da virada, mas, em seguida, a protagonista corre para a enfermaria e tenta ligar para a polícia. Dúvida: se a polícia podia ajudar a lidar com o chip, por que não ligaram em vez de tentar sobreviver à fase 3?

O truque da parada cardíaca do Win foi detestável. O roteiro tirou aquela sacada da cartola sem uma pista convincente e teve duas inconsistências: como a professora pegou o corpo na enfermaria sem brigar corporalmente com os alunos e não percebeu que havia algo de errado? Por que ela não trancou a porta após sair?

Quando o Win levantou eu desisti e passei a considerar Deep um filme ruim. E ele foi mais longe. A professora basicamente disse: “vocês querem ver a minha motivação de vilã? Está bem aqui, atrás desta cortina, perto de vocês o tempo todo”.

Eu entendo a motivação e ela é consistente, mas não precisava ser dita. É um diálogo expositivo sem a mínima necessidade e piora o que já estava ruim.

A luta corporal que se segue não faz sentido. A professora não ganharia nada atacando os alunos e a sequência de ressuscitação acidental da Jane é muito, muito boba. Qual a necessidade de fazer aquilo? O auge da galhofice.

O maior problema de Deep é que os personagens agem como se a professora fosse uma pessoa má. Até a ideia de ligar para a polícia não faz sentido. Ninguém os obrigou a entrar no experimento deep e ela inclusive os ajudou a sobreviver.

Podemos dizer que ela foi malandra ao indicá-los para o experimento, mas os personagens ignoram o fato de que a escolha sempre foi deles.

Considerações finais

Eu consegui gostar do final “felizes para sempre”, pois aprendi a torcer pelos personagens, mas a ilógica decisão do grupo de entrar no experimento para livrar a barra da June prejudicou muito a minha experiência.

No fim, apesar da parte técnica legal, sua narrativa 2/3 boa, a interessante premissa e o plot twist bacana, Deep é um filme ruim.

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