Crítica | Jumanji (1995): aventura engraçada e dramática

Ficha técnica no IMDb

Duas crianças encontram um tabuleiro mágico e precisam lidar com as consequências místicas do jogo.

A cena inicial é uma aventura numa floresta à noite. É praticamente incompreensível e significa apenas que Jumanji é um jogo centenário. Não vejo necessidade para a existência do momento, mas ele reforça uma quebra de expectativa a seguir.

O filme mostra Alan, um garoto que é perseguido pelo namorado ciumento de uma amiga. Bullying é um clichê que costuma fazer eu me importar com o personagem.

É interessante que quando o valentão e seus amigos agridem o Alan, a cena é censurada com a placa do começo do filme. Esconder a violência traz um tipo diferente de apreensão e o trecho indica que aquele é o local da aventura na floresta. Duplamente útil.

O drama familiar do Alan se incomodando com a pressão familiar é interessante e é sutilmente engraçado quando ele faz uma mala para fugir de casa.

A aparição da Sarah é justificada pela perseguição anterior e o estopim para que ambos joguem o Jumanji é o som de batida emitido pelo tabuleiro. Esse som é colateralmente usado como trilha sonora de suspense, causando um efeito construtivo muito positivo (isso ao longo do filme inteiro).

Embora o grito da Sarah seja tosco, a descoberta das características mágicas do jogo é assustadora: peças que se movem sozinhas conforme o soltar dos dados e a materialização das consequências da jogada.

O efeito do Alan sendo sugado foi meio ruim, mas a sacada da passagem de tempo foi ótima, especialmente pelo filme ter me ensinado a gostar do personagem. Eu imaginava que a história fosse começar ali, tendo aqueles dois como protagonistas, o que deixou tudo melhor.

Em mais uma introdução de personagens, conhecemos Peter, o menino calado, e sua irmã mentirosa, que chamo de Mary Jane porque ela foi interpretada pela Kirsten Dunst e não assimilei o nome da personagem.

O drama da orfandade da dupla e a mudança para um lugar novo os torna razoavelmente interessantes. Eles começam a jogar pelo mesmo motivo que a dupla anterior e precisam continuar para que os elementos mágicos sejam desfeitos, o que é um bom motivo.

Há uma dose generosa de bom humor nas maluquices do jogo e na reaparição do Alan, mas há também um drama comovente na descoberta da morte dos pais dele — principalmente porque um homem velho estava na fábrica e supus que fosse o pai.

A vontade que o Alan tinha de não seguir as tradições decorria da sensação de que seu pai se importava mais com o nome da família do que com o filho. Ao descobrir que a fábrica faliu por conta do desânimo que acometera o pai, ele teve certeza de que foi amado.

O que vem depois é uma série de maluquices advindas do jogo e uma correria generalizada para lidar com os problemas e finalizar a partida.

Existem dificuldades violentas, como fugir do estouro da boiada, do caçador e de um jacaré, mas há empecilhos mais complexos. Todos que entraram na partida precisam continuar para o jogo avançar, mas, a princípio, o Alan não quer jogar.

Tanto ele quanto a Sarah ficaram traumatizados, então é natural que sejam mais resistentes a lançar os dados. Peter resolve a questão do Alan usando psicologia reversa e o Alan consegue fazer a Sarah jogar com uma pequena travessura. É orgânico e satisfatório.

Indo um pouco além, a necessidade de ir procurar a casa da Sarah para poder continuar a partida é muito boa, o reencontro dos velhos amigos é emocionante e o desmaio serve como quebra de expectativa engraçada sem forçar a barra.

Assim, Jumanji reúne no grupo de sobreviventes os quatro personagens que eu aprendi a gostar. Isso não costuma acontecer nos filmes de terror que assisto, motivo para grande parte deles ser quase irrelevante.

Há efeitos colaterais interessantes na composição do grupo. As crianças podem contribuir com criatividade, o Alan com o conhecimento que ele adquiriu por 26 anos na floresta e a Sarah com a experiência natural de um adulto.

A Sarah e o Alan são trabalhados especialmente em dois momentos. Num deles, o Alan demonstra rancor pela Sarah ter parado de jogar, que foi o que o condenou a 26 anos na floresta. No outro, eles têm uma discussão de relacionamento após o Alan fugir do caçador. Consegue ser engraçado e dramático sem perder o sentido.

Um detalhe interessante de Jumanji é que o policial engraçadinho é um personagem relevante no passado do Alan, o que dá uma camada a mais para ele. É comum que esses personagens da comédia sejam só um alívio cômico, mas ele serve para validar o passado e dar peso ao final do filme.

Inclusive, um dos poucos erros de lógica do roteiro é o Alan prender o policial à viatura, sendo que ele já era um aliado.

Jumanji é excelente em construir cenários caóticos ao longo da partida. Além da hostilidade ambiental, há o caçador como vilão e tudo converge num clímax sensacional com o Alan fazendo sua última jogada. Tem até a clássica frase de efeito antes da vitória (ou seria palavra de efeito?).

O filme não faz o espectador considerar a possibilidade de os protagonistas perderem, mas constrói a epicidade de um jeito que eu fico feliz pela vitória, mesmo ela sendo previsível. A aventura é impecável em ritmo, diversão e criatividade, mas restava encerrar o drama.

Jumanji é corajoso e preciso. Sem um momento de despedida dos personagens, todas as magias são desfeitas e o tempo regride. É tudo muito emocionante: a resolução familiar do Alan, o laço dele com a Sarah e a certeza de que, 26 anos depois, os personagens que acompanhamos estarão felizes.

Com uma estrutura temática eficientíssima e uma estrutura narrativa altamente empolgante, Jumanji é uma demonstração magistral do equilíbrio entre boa execução e bom significado.

Resta uma dúvida: será que Zathura, lembrete da minha infância, é tão bom quanto Jumanji?

Sobre as piadas do filme

É muito engraçado o Alan correndo para agradecer por ser liberto e as crianças fugindo com medo.

Quando o Alan pergunta se as crianças sabem dirigir e decide guiar o carro, a menina coloca o cinto. Sutil, mas gostei.

O Alan diz algo que revela ao espectador que ele se limpava com folhas de bananeira. É boba, mas é piada para o espectador, não para os personagens do filme, então funciona.

Na loja, quando a Sarah pega o jogo do caçador, a menina aponta o verificador de preço para os olhos dele para desnorteá-lo e grita “verificação de preço”, como se fosse o golpe de um personagem de mangá. Pela associação que fiz, ficou muito bom.

A Sarah e o Alan presos no chão é engraçado depois de ser assustador, o que dá um toque especial.

O Peter usa o machado para quebrar o cadeado do porão onde encontraria o machado, percebe o que está fazendo e olha para a câmera como quem diz: “eu sou muito burro”. Deve ser a melhor piada do filme.

Aparentemente há uma piada com um rinoceronte cansado que fica atrás da manada, mas não tenho certeza se é essa a intenção. Achei engraçado.

Diálogos a destacar

No meio do caos e dos saqueamentos:

Mary Jane — O que está acontecendo?

Sarah — Parece que houve uma liquidação.

Passa um veículo automotor de duas rodas:

Sarah — Você viu três macacos numa moto?

Mary Jane — Vi.

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