Crítica | Turma da Mônica Jovem vol. 24: erra na reta final

O vol. 24 de Turma da Mônica Jovem é a parte dois de Caderno do Riso, uma aventura inspirada em Death Note. O início do volume faz algo que me lembro de não ser comum na franquia: resumir os eventos do volume anterior. É estranho porque há uma seção antes da história que sempre faz esse resumo, então não havia necessidade.

Em histórias de investigação, ou há diálogos expositivos ou as deduções parecem tiradas do nada. A conversa das meninas com o Licurgo na enfermaria é uma boa justificativa para um diálogo expositivo que avance a investigação.

A Magali acredita que o Grande Palhaço ter atacado a Carmem foi um erro, um descuido, e, para irritar o Licurgo, joga no ar a possibilidade de este ataque ter sido para despistar. O jeito do Licurgo é um incentivo para deboche, mas despistar ou errar eram alternativas muito menos prováveis que o palhaço ter atacado a Carmem por razões pessoais.

Citei este trecho também porque ele é bem engraçado. As piadas do Licurgo costumam ser muito boas.

No núcleo protagonista, o Cebola conversa com o Ângelo sobre o Segundo Palhaço e as consequências de seus atos. É interessante como o Cebola fica tranquilo e até feliz pensando que talvez o Segundo Palhaço concorde com seus ideais, mas fica furioso quando percebe que o caderno está sendo usado para fazer famosos pagarem mico.

O objetivo do Cebola era curar o mau humor nocivo, não ridicularizar as pessoas. Como eu entendo essa discordância, me importo mais com o iminente confronto entre os palhaços.

A interação do núcleo L me leva a uma dúvida. O Licurgo faz um raciocínio lógico sobre ter havido dois inícios e dois avanços no modo de operar do Grande Palhaço, mas a conclusão dele é que quatro abordagens diferentes indicam quatro palhaços.

É uma boa piada com quebra de expectativa ou uma escolha narrativa ruim que desperdiça uma chance de criar um grande momento detetivesco? Mais me incomodou do que divertiu, mas não podemos nos esquecer de que isto é Turma da Mônica, não Death Note.

As páginas vão passando e a investigação avança, até uma pessoa contar ao mundo sobre o Caderno do Riso. O Cebola não estava em risco, mas essa revelação facilita a procura pelo caderno e há uma tensão absurda no momento em que o Licurgo está prestes a verificar o “diário” (um disfarce que o Cebola fez para o caderno).

Ênfase também no perigo que representa a desconfiança da Mônica. Ela percebeu que o Cebola estava estranhamente nervoso desde a divulgação do vídeo sobre o caderno.

A apreensão e a curiosidade do leitor são atiçadas pela falta de avanço real. Eu não sei quem é o Segundo Palhaço, mas sei que ele fechou o cerco para ferrar o Cebola. Essa tensão elevada aumenta a qualidade do momento em que o Cebola conta seu plano genial.

Ele armou um ataque que seria disparado apenas se o Licurgo suspeitasse do caderno. Um último recurso para forjar um álibi. Esse conceito do ataque engatilhado embasa bem o segundo plano genial.

Sabendo que o caderno controla o que o risonho diz, o Cebola programou um ataque de riso cujas condições anulam a possibilidade de outro ataque de riso acometê-lo antes. Pode parecer forçado, mas tem sentido o bastante para eu aceitar.

O Segundo Palhaço ser a Denise não é uma grande reviravolta e possui bases sólidas: ela é ligada em celebridades e tentou convencer as pessoas de que só existe um Palhaço. É o suficiente para mim.

O fato de ela ter descoberto o caderno por acidente quando tentava bisbilhotar o “diário” do Cebola é muito bom. O roteiro podia simplesmente usar o clichê de “estava ouvindo atrás da porta” e colocar mais uma dedução duvidosa.

Nesse ponto o roteiro parece equiparar o ataque à Carmem e o ataque à Mônica. Isso é um erro, pois os ataques jocosos e vingativos da Denise não tinham o objetivo de testar a capacidade do caderno ou curar casos de mau humor extremo.

Uma crítica feroz que preciso fazer ao roteiro é quanto ao plano do Cebola para pegar a Denise. Ele fez um caderno falso e colocou entre as coisas dela, para em seguida acusá-la de ser o Palhaço.

A ideia dele para garantir que, se testado, o caderno funcionaria, foi colocar uma folha do verdadeiro após as páginas escritas do falso. A alegação dele é que as pessoas sempre escrevem na primeira página em branco, mas isso não faz sentido.

Escrever matéria de escola sim, mas anotações gerais podem ser escritas principalmente nas últimas páginas. Depositar tanta fé nessa ideia é absurdo e ela funcionar é forçado. A Petra Leão poderia ter encontrado uma saída mais consistente.

A sacada para incriminar a Denise também obrigaria o Cebola a parar de usar o Caderno do Riso. Aproveitando a deixa, o Ângelo tentou pegar o caderno à força, o objeto escapou de suas mãos e acabou nos pés da Marina.

Esse é um jeito extremamente preguiçoso de fazer o “vilão” perder. Acidentes acontecem, mas esse foi exagerado. Além disso, se o Cebola pensou em escrever que a Marina não conseguiria escrever nem falar seu nome, por que não escreveu que a Marina esquecesse a identidade do Grande Palhaço?

O Cebola não é impulsivo e burro. A melhor alternativa para ele seria tentar esse ataque amnésico ou convencer a Marina de que o que ele fez foi por bem.

Depois a Marina desenha a identidade dele, o Ângelo foge com o caderno, a Mônica intimida o Cebola e a página final é o protagonista vestido de palhaço enquanto todo mundo ri, inclusive a Denise. Eu odeio esse final.

Além de ele ser afobado em derrotar o Cebola provavelmente por um senso “politicamente correto”, a rabugice da Mônica e sua cara de pau de desprezar as benfeitorias do Grande Palhaço foram premiadas.

O pior de tudo é que a Denise foi a grande canalha. O Cebola fez testes com o caderno, impediu guerras e atos de violência, mas ele é ridicularizado enquanto a babaca egoísta da Denise fica livre, leve e solta rindo dele.

Lembrando que a Denise e a Mônica foram canalhas com a Magali em Surge Uma Estrela, mas parece que os roteiristas gostam de passar pano para elas e manter certas características que fazem pouco sentido.

Digo isso porque, em dado momento, o Licurgo diz que o Cebola tem nenhuma iniciativa romântica. É uma piada com a falta de relacionamento dele com a Mônica, mas eles já se beijaram e ficaram amorzinho mais de uma vez. Como podem seguir nesse clima de “coisa implícita”?

Outro detalhe interessante é que o Cebola diz que a Marina só repara nele quando ele não quer, o que indica que ele tem uma queda por ela. Acho que isso não costuma ser explorado e os personagens geralmente não fogem dos casais básicos.

Caderno do Riso é uma história muito engraçada, tem elementos fantasiosos interessantes, um enredo empolgante e momentos de tirar o fôlego, mas a virada final da derrota do Cebola arrebenta a lição de moral da trama e traz um sabor amargo.

Faltava pouco para a Petra fechar uma saga ótima, mas ela transformou tudo em um “legal, mas”. Não é tão ruim quanto Surge Uma Estrela ou Ser ou Não Ser, mas me incomodou um bocado.

Como versão de Death Note, Caderno do Riso funciona muito bem. A mudança das regras talvez torne o caderno poderoso demais, mas a não-fatalidade dos ataques mais ou menos tira o excesso de vantagem que o protagonista tem sobre seus adversários.

Os planos e contraplanos são interessantes e inteligentes, carregando o mesmo tipo de conveniência e forçação de barra que Death Note. Meu consolo é o plano final do Cebola contra a Denise ser menos exagerado que o do Light contra o Near.

Falando em Denise, ela é a mudança mais significativa em relação ao original. Eu já defendi a Misa na crítica do vol. 4 de Death Note, pois entendo sua função narrativa, mas a Denise agrega muito mais que um simples bônus de quebra de tensão, ela gera grande expectativa e entrega um desafio a altura.

Há muitos e muitos anos eu li um artigo que defendia que a ideia de um Segundo Kira era ótima, mas que a ação da Misa na história estragou essa ideia. Caderno do Riso não segue esse caminho.

Não que seja simplesmente melhor, mas a Petra Leão construiu e manteve uma atmosfera de duelo intelectual muito boa, não tratando a personagem feminina como mera escada para o protagonista. Esse é um exemplo de representatividade funcional e orgânica.

O vol. 24 de Turma da Mônica Jovem é legal principalmente por eu ler como um fã de Death Note, mas sei por experiência própria e de pessoas próximas que Caderno do Riso é uma aventura muito boa até para quem nunca ouviu falar no quadrinho japonês.

Semelhanças e referências à Death Note

O Licurgo fica comendo doces sentado com os pés na cadeira e chamado de “detetive L”; a Denise diz que um possível novo nome para ela é “Nisa-Nisa” em uma página na qual está com um visual semelhante ao da Misa.

Observação: faz mais de um ano desde o meu último post sobre Turma da Mônica Jovem e as edições da primeira série eu parei de analisar no mês maluco de post todos os dias. Nas duas ocasiões eu me cansei da franquia, mas recuperei o interesse e pretendo continuar falando sobre os volumes da primeira série mais frequentemente.

Observação 2: se você gosta desses posts de Turma da Mônica Jovem, comente. Quanto mais gente acompanhar os posts, mais é provável que eu continue falando sobre o assunto.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s