Crítica | Contos do Dia das Bruxas (2007): limões virando limonada

Ficha técnica no IMDb

Na noite do Halloween, uma pequena cidade descobrirá que algumas tradições nunca devem ser esquecidas.

Ao longo dos anos, em quase todos os Halloweens, eu assistia a Contos do Dia das Bruxas na TV. Já analisei várias antologias no Blog do Kira, mas, ironicamente, não falei sobre esta, que provavelmente foi a primeira que assisti e uma das melhores. A resenha de hoje tem gostinho de infância para mim.

Segmento inicial

É uma história bem básica. Pelo que entendi, a ideia é que apagar a chama na abóbora permitiu a entrada de uma criatura mística no terreno do casal. Destaque positivo para o sujeito de máscara que parecia ser o verdadeiro terror, mas não era.

Achei meio pobre o desfecho, mas os ataques fantasmagóricos compensam a falta de qualidade do final. Para uma cena inicial, foi boa.

Existe um problema narrativo na primeira história. Como o lado das mulheres fica aparecendo ao longo do lado do homem, o clima acaba sendo parcialmente atrapalhado. Dificulta um pouco a análise e a experiência. Detestei isso.

Pai e filho

Um garoto come doces dados por um estranho e é vitimado por ele. Essa história serve como um alerta, então tem certa função social. O clima dela é mais de humor negro do que de terror, afinal, são feitas várias piadas na parte do enterro do corpo.

O humor não é engraçado, mas o final contém um toque de sagacidade do roteiro e da direção. Como sabemos que o pai é um assassino, quando ele pega a faca, supomos que vá matar o filho.

Eu pensei na possibilidade de ele enfiar a lâmina na abóbora, sendo essa uma quebra de expectativa. Quando a faca foi mostrada suja de sangue, minha teoria se provou errada. A real quebra de expectativa me surpreendeu. Outro motivo para esse efeito é que o conto estabeleceu o filho como uma criança comum e frisou os cortes na abóbora.

Não assusta nem diverte, mas o final é interessante.

O vampiro

Um casal está num momento íntimo num beco ao lado de uma festa e a mulher percebe que está ensanguentada. Achei que o homem fosse mordê-la, mas essa virada foi satisfatória. Apesar de o movimento final dele, lá na festa, ser bobo, a sacada de ela ser ignorada porque outros estão com sangue de mentira no corpo é inteligente.

Segue a estrutura narrativa problemática que mostra várias histórias sem terminá-las. Outro detalhe é que Contos do Dia das Bruxas gosta de mostrar personagens de uma história aparecendo ou sendo referenciados em outra. Nessa, surge o casal da cena inicial. Na da molecada eles mencionam as abóboras que o garoto azarado chutou.

Este trecho tem a função de estabelecer o vampiro como uma figura naquele universo, mas é muito fraco. É como um dos desenhos de intervalo comercial do Cartoon Network, só que ruim (isso até o vampiro aparecer novamente).

A molecada

Este é uma história de bullying e assombração. Como a guria foi chamada para ir com o grupinho, tendemos a supor que não há rusga alguma entre eles. Isso faz com que seja um choque a descoberta da brincadeira de mau gosto.

Essa revolta fortalece o valor que dou ao momento em que a guria se vinga. Só com isso o conto já é bom, mas há um lado sobrenatural bem empregado. A lenda do ônibus das crianças indesejadas é assustadora e foi aproveitada adequadamente com o conceito de Halloween e das abóboras protetoras.

No geral, é um segmento satisfatório. Funciona e cumpre o dever de um conto de terror, mas não faz nada muito inteligente.

A chapeuzinho vermelho

Este conto é bem interessante. Ele resgata o vampiro, faz uma tremenda quebra de expectativa com ele sendo a vítima e insere outro plot twist relacionado ao objetivo das personagens principais.

A história tem aquela ideia clichê do virgem que é empurrado pelos “amigos” e o espectador aceita essa motivação principalmente pela carga sexual que existe no conto. Quando a protagonista esclarece que a primeira vez que ela quer ter é em outro sentido, há uma quebra de expectativa.

A gente acha que o vampiro vai vitimar a chapeuzinho vermelho, mas ele acaba sendo comido pelo lobo. É um jogo temático bem bolado. Um ponto negativo é que o conto exagera na sexualização das personagens. Tem um certo contexto temático e narrativo, mas exagera.

Em dado momento, a irmã conta que a mãe delas dizia que a protagonista era a mais frágil da ninhada. A outra personagem reage como se não tivesse entendido, mas ela sabia sobre a natureza delas, então é meio contraditório.

Há detalhes que se perdem devido ao jeito que o filme picota essa história. No começo, quando as personagens estão se vestindo, uma delas fala como se homens e mulheres tivessem o mesmo sabor. Achei a frase estranha, mas ela é bem inteligente, considerando o plot twist.

Por outro lado, a inserção solitária do vampiro adiciona empolgação ao momento em que ele cruza com a chapeuzinho vermelho. Entre altos e baixos, é uma história acima da média de segmentos antológicos.

Slasher simplão

Este conto é bem tedioso. Ele não executa mal, mas é tempo demais sem elementos interessantes. O que tem de positivo é se ligar ao conto “pai e filho” e a revelação final acerca da identidade do protagonista, mas isso é muito pouco. A sacada do garoto abóbora se importar muito com aquele doce é o soco no estômago que garante meu veredito: ruim e chato.

Apesar de ter sido enfatizado o momento em que o abóbora o abriu, não me pareceu que o doce significava algo. Além disso, não o vi no ônibus escolar.

O final

De maneira bem bacana, o final de Contos do Dia das Bruxas mostra os personagens dos contos e repete a cena inicial, deixando claro que o menino abóbora foi o algoz do casal. Fechando com um toque de brilhantismo, o motorista do ônibus recebe uma visita das crianças afogadas.

É um desfecho redondo e pertinente para uma antologia que tenta tornar seu enredo relevante para além de cada conto. Não é tão bom quanto O Mal Está ao Seu Lado, mas acima da média das antologias. Gosto quando os filmes tentam ser mais surpreendentes e relevantes.

O conjunto da obra

Contos do Dia das Bruxas é uma coletânea de histórias medíocres que foram organizadas de um jeito que o todo supera a qualidade da soma das partes. Parabéns ao diretor, pois fez uma bela limonada.

Observação: as crianças-zumbis aparecem na cena inicial e na parte dos lobos há uma fantasia de cachorro-quente, então deve ser possível observar várias dessas pequenas referências do filme a ele mesmo. Deve caber uma análise minuciosa de cronologia para verificar se é coerente, mas é quase irrelevante para o todo. Fica como curiosidade.

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