Crítica | A Cripta dos Sonhos (1973): você tem pesadelos recorrentes?

Cinco homens pegam um elevador que os leva até o subsolo. Eles não pretendiam ir para lá e, após a porta se fechar, não há botão para chamar o elevador. Presos no lugar, eles se servem de bebidas e começam a contar sonhos que tiveram.

Fiz essa sinopse com base nos primeiros momentos do filme. É muito rápido e tão direto que chega a ser forçado. O ponto positivo é que a sala da conversa tem toda uma forma geométrica diferenciada quando vista de cima.

Sonho 1

A primeira reviravolta violenta é surpreendente e a segunda não deveria ser, mas me surpreendeu. Sabendo que o protagonista matou o detetive, é natural supor que ele seja um criminoso, mas o clima familiar do encontro dele com a irmã desviou a minha expectativa.

A atmosfera sombria ampliada pela trilha sonora e pelos avisos sobre o risco de caminhar pelas ruas à noite é muito boa. A revelação sobre a natureza do lugar é eficiente e eu não imaginava aquela resposta. O mais curioso foi o plot twist final sobre a irmã.

Embora os efeitos especiais sejam pouco convincentes, a situação é bem pensada e a atmosfera é conduzida bem o suficiente para o conto ser muito bom. Não é preciso fazer algo mirabolante ou genial, basta saber contar uma boa história.

Sonho 2

Uma esposa dedicada e seu marido obcecado por organização. Apesar de estar em uma antologia de terror, esse conto é quase inteiramente uma aventura do dia a dia. Por mais que seja incômodo o jeito que o marido trata a esposa, parece estar tudo mais ou menos dentro da normalidade.

As trapalhadas finais começam bem, mas o escalonamento na hora de pegar o prego e o martelo é muito exagerado. Extrapolou a minha suspensão de descrença e deixei de achar legal. A reviravolta violenta combina com a obsessão que a esposa desenvolveu por organização, mas aquela gargalhada fatal soou desnecessariamente caricata.

É uma história interessante, mas não tão boa quanto a anterior. O mais relevante dela é que o sonhador morre, o que significava que não necessariamente o protagonista do sonho anterior havia de fato matado a irmã.

Sonho 3

Um mágico compra ou rouba o truque de outros para abastecer seu show. O conto já me treina para desgostar dele na primeira cena, quando ele estraga a mágica do cesto. Essa lógica de mágico ladrão obcecado é bem interessante.

O elemento misterioso da corda que sobe atrai a atenção, mas o desfecho tem uma execução tosca. Era óbvio que a corda atacaria o mágico, mas foi demorado demais e, visualmente, não funcionou.

Não é ruim, mas é bem sem graça e pior que os anteriores.

Sonho 4

A história de dois homens que armam um plano e pretendem se trair é muito interessante. O desfecho do caixão gera uma rima temática interna bem legal, a qual é reforçada pelo conhecimento da intenção de ambos.

Se o conto terminasse ali seria muito bom. Infelizmente, o roteiro deu mais uma volta com a inserção dos estudantes e a conveniente batida do carro. O que era bom acabou meio chato. Estragaram o conto.

Sonho 5

Tem o pior início de contação. O protagonista passa de uma frase para a outra imóvel como uma estátua, só que o diálogo tem um contorno de mudança de mentalidade. Se você não viu o filme, é difícil explicar, mas é mais ou menos assim a fala:

Protagonista: — Por que sempre o mesmo pesadelo?

Outra pessoa: — Na verdade está preocupado com o seu pesadelo, não é?

Protagonista: — O meu começa numa ilha tropical…

Não parece que a atuação segue o fluxo natural do raciocínio de uma pessoa de verdade. Isso me incomodou um bocado.

Um pintor usa magia para se vingar de três homens. Esse conto tem certa semelhança com Death Note, algo que me agradou muito. Ele também trabalha a mensagem “cuidado com o que deseja” e “a vingança nunca é plena”.

O desenrolar da história dele é bom e o filme soube bolar o desfecho de cada um dos homens. Destaque positivo para a ousadia vilanesca que o pintor teve ao finalizar um dos homens diante de seus olhos.

Já era óbvio que o autorretrato traria consequências para ele, mas fiquei muito surpreso com a falta de ar. Se o conto acabasse ali seria incrível, mas, infelizmente, o roteiro quis dar mais uma volta. A mancha no quadro foi interessante, mas não havia motivo para o protagonista ficar obcecado com o relógio. Pelo contrário, voltar ao escritório o tornaria suspeito.

Gosto de histórias que frisam a consequência de pedidos mágicos, como 7 Desejos. O conto é bem pensado.

História-macro

O final meio arrastado de A Cripta dos Sonhos explica que os cinco personagens na verdade estão mortos e que os pesadelos deles ocorreram na vida real. Isso me pegou de surpresa porque eu fatiei a experiência assistindo dois dos contos e algum tempo depois os demais. Pensando no que ocorre de semelhante nos cinco, a revelação é bem óbvia.

A Cripta dos Sonhos é uma antologia acima da média. Ela tem seus deslizes de execução e alguns contos falham no final, mas, no geral, ela é uma experiência válida. Poderíamos dizer que ela não fica devendo em nada.

Um comentário

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s