Crítica | A Casa que Pingava Sangue (1971): a casa não importa

Introdução

Um investigador ouve relatos de crimes ocorridos em uma casa relacionada ao caso que investiga. Essa é uma forma eficiente de tornar crível a sequência de contos. Simples, mas funcional.

Conto 1

O fato de o protagonista ser um escritor de livros de terror combinado com o ator de filmes de terror que sumiu indica que o elemento-chave do filme é ter vítimas relacionadas ao mundo do horror. É uma característica interessante.

A história é bem conduzida dentro da proposta de mostrar um escritor assombrado pelo estrangulador que criou. O mais legal é que existem trechos que mudam a nossa compreensão do que está acontecendo.

No começo há a dúvida: é real ou imaginação? Quando a mulher não vê o vilão, entendemos que é tudo assombração mesmo. Daí, a revelação de que o protagonista tentou estrangulá-la é um desdobramento lógico e até previsível.

Se esse fosse o desfecho, estaria de bom tamanho. O acréscimo do plano da mulher me surpreendeu e desgostei do rumo da trama, mas o final retomou a assombração e finalizou de forma surpreendente e satisfatória.

Restou uma dúvida quanto à aparição do estrangulador em dois lugares diferentes, o que não sei se foi uma encenação inexplicável ou realmente uma assombração. Esta foi a única questão em aberto e não prejudicou o todo.

Além do terror eficiente, a ideia de fazer um escritor ter problemas psicológicos devido ao exercício da escrita é bem interessante. O balanço do conto é muito positivo.

Conto 2

Este conto não é assustador. Uma parte dele explora a vida do inquilino e dá a entender que ele já teve uma parceira e ela morreu. A sequência de closes na foto dela enquanto ele anda por aí é muito boa e triste. Conectei-me emocionalmente com o personagem.

As coisas começam a ficar estranhas quando ele vai ao museu de cera e vê a cabeça semelhante à feição de sua amada. Apesar do toque sobrenatural, eu ainda encarava a história como uma trama dramática. A chegada do amigo dele muda a situação.

A partir daí é criada uma atmosfera de terror com base na obsessão que a cabeça gera naqueles que a veem. Como gostei do drama, esse pedaço foi um grande tanto faz para mim, até que veio a revelação final.

O bom plot twist encaixou no efeito hipnótico da cabeça e me lembrou de Tomie, um mangá de terror do mestre Junji Ito, mas não ficou clara a relação da cabeça com a amada do protagonista. Essa falta de conexão me fez achar o conto medíocre. É bom, mas não parece ter sido explorado ao máximo.

O grande problema é que o sobrenatural estava no museu de cera, não na casa, como sugere a proposta do filme.

Conto 3

Um homem e sua filha se mudam para a casa. Este conto é desenvolvido de maneira bem misteriosa. A sustentação desse desconhecimento é muito eficiente e o torna suficientemente interessante para ser bom.

A professora funciona como o ponto de vista do público dentro da trama e ajuda a nos situar perante o mistério da garotinha. O conto destrói esse ponto positivo com o diálogo sobre bruxas. A partir dali eu sabia que a garota tinha pavor de fogo porque a mãe era bruxa e foi queimada.

Bastava não mencionar bruxa e feitiço e o conto manteria certo mistério. Essa sacada do enredo é interessante, mas a execução é torta e esburacada.

Certo, o pai tem medo da filha por ela ser uma bruxa. O que isso tem a ver com ela ser impedida de conviver com crianças ou ter brinquedos? De que adiantava ele tratá-la mal? Não faz sentido. É o oposto do que ele deveria fazer.

É ruim o jeito que a garota supera o medo de fogo após alguns minutos de conversa e é pior ainda a professora ficar olhando o boneco queimar na lareira sem se esforçar para tirá-lo de lá.

O último destaque negativo vai para a cena do desaparecimento das velas. O pai bate na garota (de um jeito muito mal feito) e não faz mais nada. Eu esperava que ele vasculhasse outros cantos da casa e encontrasse velas acesas ou algo assim.

O terceiro conto de A Casa que Pingava Sangue é tão ruim que nem parece fazer parte do conjunto.

Novamente, a história não parece ter uma conexão forte com a casa.

Conto 4

Este conto conseguiu a proeza de ter ainda menos conexão com a casa. O ator e a atriz vão morar na casa e do nada já corta para o estúdio. Daí em diante não há sequer referência à casa. Não faz o menor sentido.

Como o conto não tenta esconder que é sobre vampiros, o que resta é o desenvolvimento da ideia. É legal, razoavelmente empolgante e interessante. A cena da atriz com o ator na casa dele indicava que o final seria ela o incentivando a vestir a capa e ele se tornando definitivamente um vampiro. Seria um bom final.

Infelizmente, o conto escolheu outro caminho. A atriz veste a capa, se revela uma vampira e avança. Não há qualquer explicação sobre o que a capa fazia e o motivo de o vampiro anterior precisar se livrar dela. É muito ruim.

Geralmente, quando uma história passa perto de um bom desfecho e escolhe uma saída burra eu acho patético. É o caso deste conto.

Achei engraçado o momento em que o ator se desculpou e a atriz deu em cima dele. Certamente ela gostou da mordida.

História-macro

O investigador decide ir à casa e há uma sequência tediosa dele se movendo entre os cômodos. É tediosa porque eu sei que a casa não tem nada demais. Três das quatro histórias dependem de elementos de fora da casa (museu de cera, menina bruxa e capa vampira), então não há tensão nesse pedaço final.

Para a minha surpresa, a última ameaça foi o ator, agora transformado em vampiro. O duelo dele com o investigador é absolutamente ridículo e desnecessário. A atuação da vampira também foi ridícula e não fazia sentido o investigador ter tanto medo, sendo que havia acabado de vencer o vampiro.

A última cena do filme é o corretor da casa dizendo que ela se adapta à personalidade do hóspede. Essa tentativa de justificar a antologia é furada, pois a casa não fez nada em três histórias. A casa não fez o museu de cera, não fez a menina saber bruxaria nem fez o ator obter a capa. Tudo o que a casa fez foi a magia do estrangulador criado pelo escritor.

Só vi a personalização da casa no caso dos livros que o escritor apreciou e no caso do jardim e da música que o solitário curtiu. Esses elementos nem tem conexão com o terror das histórias.

A Casa que Pingava Sangue é uma antologia fraca e seu único conto satisfatório é o primeiro. Tendo histórias problemáticas e pouco conectadas à proposta de serem histórias ocorridas na casa, a única conclusão possível é que o filme é ruim.

Curiosamente, o último post do blog foi sobre A Cripta dos Sonhos, uma antologia de 1973 que é bem melhor que esta.

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