Crítica | Dragon Ball Evolution (2009): preguiçoso, exagerado e extremamente injustiçado

Em seu aniversário de 18 anos, Goku ganha uma esfera do dragão mística de presente de seu avô. Existem apenas seis outras no mundo todo, e reza a lenda que será concedido um desejo a quem possuir todas as sete. Quando uma força obscura provoca uma tragédia, Goku e seus amigos embarcam em uma jornada épica para recolher as sete esferas do dragão e salvar o planeta.

Apesar de ouvir muito sobre o quão Dragon Ball Evolution é ruim, eu nunca tinha o assistido por mais que alguns minutos, não por ele ser ruim, mas por desinteresse mesmo. O filme é completamente massacrado pelos fãs de Dragon Ball, mas, no fim das contas, Dragon Ball Evolution me surpreendeu positivamente.

Fazer uma adaptação de um mangá para o cinema pode ser uma tarefa complexa, especialmente quando a obra original utiliza muitos elementos visuais e fantasiosos. Temos o exemplo do Death Note produzido pela Netflix, o qual conseguiu a proeza de ser oposto à obra original e absurdamente ruim enquanto filme isolado.

A tarefa de Dragon Ball Evolution em termos de adaptação era mais difícil e foi executada com muito mais eficiência (o que nem chega a ser um elogio, considerando que o Death Note é horrível, mas um ponto necessário a se ressaltar).

Para julgar o filme de forma justa, é preciso saber dissociar a qualidade enquanto adaptação e a qualidade enquanto obra isolada. Me parece que a maior parte do ódio por Dragon Ball Evolution vem de fãs que exigiam uma adaptação mais fiel ao mangá, não uma crítica ao que de fato o filme oferece.

Eles queriam voos espetaculares e uma luta devastadora nível Superman VS Zod em O Homem de Aço, só que esse tipo de qualidade visual custa muito caro. Dragon Ball Evolution foi inteligente ao modificar o conceito do Ki e apresentar uma escala de poder mais próxima de filmes comuns de artes marciais.

Não estou dizendo que a adaptação foi boa ou que o filme é bom, mas existem distorções que são necessárias para que o filme possa funcionar. Inclusive, Dragon Ball Evolution tanto mexe na mitologia para criar sua trama quanto insere elementos cujo propósito é obviamente agradar ao fã de Dragon Ball. E nesses momentos o filme escorrega.

O fanservice aparece algumas vezes envolto de conveniências e coincidências forçadas que atrapalham muito o desempenho de Dragon Ball Evolution enquanto filme. Exemplos: o encontro do Goku com a Chichi no lugar onde lutadores treinavam; o Mestre Kame ter uma esfera do dragão; a armadilha do Yamcha levar a uma esfera do dragão; o Goku trocar de roupa antes da batalha final…

O que mais me incomodou foi a Chichi: uma garota que o Goku gosta e que viu a manifestação do ki dele ser uma lutadora e estar com ele num lugar de treino antes da batalha final. É compreensível o interesse em mantê-los como casal e é coerente com o mangá a Chichi saber lutar, só que no filme isso não funciona.

Além de ser estranho ela aparecer, acaba não servindo de nada, pois ela não luta contra a assecla do Piccolo no final do filme. Acaba que a Chichi apenas flutua como par do Goku num romance mal trabalhado. Ela tem tempo de tela demais para não ser dado motivo algum para ela estar envolvida com um rapaz (babaca) e se jogar no Goku. O que me leva a um ponto muito estranho de Dragon Ball Evolution: ele tenta ser uma coisa e muda de ideia no meio do caminho.

O filme começa num clima meio Homem Aranha de protagonista com poderes e necessidade de compreender o peso de tê-los. Há uma cena em que o Goku se contém (parecida com uma cena do jovem Kal-El em O Homem de Aço) e outra em que ele não esconde quem é e humilha os valentões (parecida com a cena do basquete de O Espetacular Homem Aranha).

Ambas as cenas indicam que o arco de personagem do Goku é sobre ele amadurecer e estar certo quanto ao que deve ou não deve fazer (e as consequências de suas escolhas). O problema é que, além de isso não ser explorado no resto do filme, a escolha do Goku por sair de casa escondido não foi bem trabalhada, o que tira a percepção de que ele errou e reduz muito o peso da morte do vô Gohan (ou devo dizer tio Ben?).

Outro elemento que surge e não perdura é o fator aventura. Existem traços da ideia de uma jornada em busca das esferas, a qual começou com o excelente encontro da Bulma com o Goku. Só que a busca pelas esferas do dragão em Dragon Ball Evolution é quase que apenas uma referência. E por este motivo o Yamcha me parece completamente descartável. O mini romance dele com a Bulma gerou uma cena clichê ridícula de quase beijo e nada nele se aproveita.

Além dessas ideias que vão sendo esquecidas, Dragon Ball Evolution não trabalha bem o que existe. As relações entre os personagens são jogadas. O roteiro faz um esforço mínimo para demonstrar laços entre Goku, Bulma e o Mestre Kame, fora que o Yamcha seguir o grupo apenas por ganância, sem sequer ter uma prova de que realmente ganhará algo com isso, é mais um fanservice vazio.

O fato de Goku, Chichi e o Mestre Kame serem artistas marciais quase não serve para nada (não há um treino relevante, o jeito de lutar não é relevante e a resolução que leva à derrota do Piccolo, ainda que legal, não é tão lógica quanto o roteiro faz parecer). O filme sequer cria uma luta realmente perigosa para os personagens principais além do confronto com o próprio Piccolo, o qual é rápido demais.

Mesmo que eu sinta parte do peso da situação, o uso e falha do Mafuba é apressado. Além disso, para um vilão que cria monstros minions de seu próprio sangue, é estranho que Piccolo estivesse apenas acompanhado pela sua braço direito. Aí faltou a sabedoria dos mangás de luta: separar o time principal em lutas 1×1 contra os minions do chefão, dando algum destaque para os coadjuvantes.

Agora preciso bater palmas para Dragon Ball Evolution. O plot twist de que Goku era o Oozaru que destruiria o mundo é genial. Ele é coerente com a caracterização do protagonista como alguém especial, que inclusive tem “flashs” do futuro.

No início do filme eu achei muito idiota a ideia de tratar o Oozaru como alguém em vez de uma transformação, e, pelo meu preconceito com Dragon Ball Evolution, previ o pior. Sem meu pré-julgamento, provavelmente eu não acharia tão bom o plot twist.

A luta do Goku com o Piccolo não foi lá grande coisa, mas senti que pegaram muito pesado com ela. O maior erro de adaptação foi não usar o momento para um fanservice maravilhoso de choque de golpes ou do Goku atravessando o Piccolo.

Deixando de lado meu papel de advogado do Diabo, achei muito estranho o roteiro colocar a “aceitação” do Oozaru como passo para o Goku ampliar seu poder, quando em nenhum momento de Dragon Ball Evolution essa questão fora trabalhada. Seria muito diferente se, desde o começo, Goku soubesse que se cedesse à raiva causaria a destruição do mundo. Assim, o desenvolvimento de personagem dele seria sobre evitar o que ele é e decidir aceitar o que ele é.

Não sei se deixei passar a explicação, mas não foi dito quem enviou o Goku para a Terra. Sendo o Piccolo uma criatura milenar, não pode ter sido ele e não houve menção quanto a ser trabalho de sua braço direito, então isso fica como um furo de roteiro (se você tem uma teoria ou entendeu a explicação disso, diga nos comentários). Mais um momento em que a tentativa de se aproximar da obra original torna o filme no mínimo estranho.

Essas tentativas também desaguaram na esquisita ambientação de Dragon Ball Evolution. Não há muito senso de movimento e ao mesmo tempo os personagens passam muito rápido de um deserto absurdo para uma cidade futurista e um local com lagos de lava. Uma cena tecnológica esquisita é quando o carro começa a voar. É coerente com Dragon Ball, mas parece deslocada.

Claro que o problema também está no ritmo apressado de Dragon Ball Evolution. É muito lugar para ir e coisa para fazer em menos de 1h30 de filme, o que, naturalmente, faz com que as situações fiquem rápidas, fáceis e superficiais, ainda que sejam boas ideias.

Uma boa ideia do filme foi o conceito do ki como ação elemental, algo totalmente diferente de Dragon Ball, mas muito interessante. Lamentavelmente, isto não foi relevante para o transcorrer das cenas de ação e sequer foi bem explorado, pois não foram dadas maiores informações quanto à diferença entre o uso de cada elemento (sem contar o uso inexplicável do Mestre Kame para acordar o Goku).

E nesta boa ideia está provavelmente o maior erro de Dragon Ball Evolution enquanto adaptação: a distorção da essência do Kamehame-há. O que devia ser um raio de energia vital destruidor virou um nível alto de manipulação elemental. A execução diferenciada (e a perda da oportunidade de fanservice) é o prego no caixão que impede Dragon Ball Evolution de estar no coração dos fãs da franquia.

Não chega a ser um erro, mas é um tanto clichê que o Goku consiga usar o golpe justamente quando é necessário. Seria melhor estabelecer o Kamehame-há como uma técnica do Goku, mas algo que é perigoso de ser usado por gastar muita energia ou algo do tipo. Aquela luta final podia ter sido muito melhor do que foi, em tensão e execução.

Como é Dragon Ball, não podia faltar uma aparição do Shenlong. O que mais gostei foi que o Shenlong surgiu cheio de brilho e foi embora rápido, como que para encobrir as falhas na computação gráfica. Essa parte técnica do filme foi complicada. A qualidade é baixa, mas pelo menos não fizeram um Oozaru do tamanho original, já que ficaria muito pior.

E como ficou um dos pontos mais fortes da franquia Dragon Ball? As lutas têm seus movimentos exagerados e espalhafatosos (que me lembraram um pouco Matrix), mas existem altos e baixos na qualidade dos combates.

A humilhação dos valentões é legal em conceito, mas peca em não ser um plano-sequência (problema presente na luta com os minions e em muitos, mas muitos filmes de ação). Por outro lado, a cena seguinte (que é 1×1) é bem melhor.

O Goku piadista fazendo o valentão passar vergonha sem nem ao menos tocar nele é muito bom (seria excelente se o filme fosse Homem Aranha Evolution), mas não há aquela luta fantástica que se espera de um filme com o nome de um legendário anime de luta.

Uma cena que preciso destacar é aquela em que a Chichi enfrenta uma impostora idêntica a ela. É muito estranho o Goku ter sido burro o suficiente para atacar uma delas apenas porque a outra pediu ajuda. Um protagonista humano, que erra, é bom, mas o filme podia ter sido mais inteligente.

Inteligência que faltou a James Wong (diretor de Premonição 1 e 3) ao escolher a cena final. Encerrar com uma luta da Chichi com o Goku é reduzir Dragon Ball Evolution a um romance adolescente que ele não é. O final teria sido muito melhor se contasse com uma despedida do Goku no túmulo do Gohan antes de partir em uma aventura com a Bulma.

Além do tiro no pé com a última cena, Dragon Ball Evolution contém uma pós-créditos que escancara um furo de roteiro: Piccolo está vivo. Ele ter sobrevivido deixa claro que Goku foi irresponsável (muito fiel ao Goku do Dragon Ball Super, não?) ao pedir para Shenlong reviver o Mestre Kame em vez de pedir que o Piccolo fosse banido da Terra, nunca pudesse ressuscitar ou algo do tipo.

Outra burrice dos personagens principais foi não checar se o Piccolo estava morto ou pelo menos falar sobre a hipótese de ele ter escapado. Essa revelação serve de gancho para uma continuação, mas como não houve, fica apenas como um enorme ponto negativo em Dragon Ball Evolution.

Quando se olha o filme como um todo, é possível reparar em algo bem curioso. É comum que as adaptações para o cinema americanizem as obras e isso geralmente é apontado como um grande defeito, como no caso de Percy Jackson e do já mencionado Death Note.

Seria automático criticar a americanização de Dragon Ball em Dragon Ball Evolution, só que depois da festa da Chichi o filme ignora quase que completamente a ambientação colegial e a intriga do Goku com os valentões. Nem sei o motivo de esse lado do enredo existir, porque ele não serve para nada.

Fica a pergunta para James Wong: qual o sentido em criar um início tão desconexo do mangá Dragon Ball se ele não faz nenhuma diferença durante a maior parte do filme?

Uma questão menor, mas que me incomodou, é que em alguns momentos os personagens falam sem que seja mostrada a boca deles se mexendo. E isso me leva a melhor coisa do filme: a dublagem. As vozes do Goku, da Bulma e do Yamcha foram dubladas pelos dubladores clássicos, o que dá uma certa nostalgia ao ato de ver Dragon Ball Evolution.

Por último, os personagens e as adaptações:

Mestre Kame: parece que confundiram o bom humor e a aparente falta de poder do Mestre Kame com loucura, porque o personagem age como um grande pirado várias vezes. Há uma ou outra piada legal envolvendo ele e seu gosto por mulheres, com destaque para a seriedade com a qual encara a situação. Teria sido legal ele se sacrificar para proteger a Terra e faltou explorarem mais o lado “mestre” dele, porque não pareceu que ele ajudou o Goku a evoluir.

Chichi: de Chichi só tem o nome e a habilidade com artes marciais. É como se pegassem uma garota genérica e dessem a ela aptidões para poder estar com o protagonista sem ser um peso morto. Não que a original tenha muitos traços de personalidade, mas esta é só o chaveiro do Goku.

Yamcha: bandidinho ganancioso genérico. Podia ter sido valorizado como lutador, mas não foi. Nem sei porquê foi incluído no filme.

Piccolo: vilão verde que quer dominar o mundo. Não tem exatamente um plano e precisaria de mais tempo de tela para que eu me importasse com ele. É bem imponente e funcional como ameaça.

Bulma: tem uma dinâmica muito boa com o Goku e um bom motivo para estar com ele na jornada (seu projeto de geração de energia com as esferas). Não tenho nenhuma crítica negativa à adaptação do personagem e ele é bem redondo no filme.

Goku: começa uma jornada que não termina e termina uma jornada que não começou. Faltou desenharem o arco de personagem dele e caprichar em sua exibição de habilidades, mas esta parte não foi ruim. Gostei muito do uniforme, mas a forma como ele vestiu do nada escancarou o fanservice. Podia ter sido muito melhor.

Dragon Ball Evolution é um filme que comete vários erros, mas nada que o torne digno do tanto de ódio que recebe, especialmente porque não são falhas incomuns. Ele tem algumas ideias boas, algumas ideias ruins e, no geral, é um filme preguiçoso demais para ser bom.

Alguns destaques:

A cena do valentão quebrando o próprio carro é a minha preferida.

Talvez a Chichi seja só o arquétipo da garota que fica com o valentão e se interessou pelo Goku porque ele virou o novo valentão.

Como nunca vi ninguém elogiar a Bulma desse filme?

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