Crítica | O Dragão Chinês (1971): lutas razoáveis

Levado por seu tio a Bancoc para viver com os primos, o jovem Cheng passa a trabalhar na fábrica de gelo local, cujo proprietário está envolvido com tráfico de drogas e prostituição. Com a escalada da violência, Cheng revela-se profundo conhecedor das artes marciais e enfrenta a quadrilha inteira.

O Dragão Chinês foi o primeiro filme que Bruce Lee protagonizou e foi o início de sua curta jornada nos filmes de ação. A história é simples, os personagens não tem nada de muito relevante e as cenas de ação ficam devendo.

A condução narrativa é tão simples que chega a incomodar, pois não há muita criatividade no transcorrer dos conflitos, inclusive contendo uma cena particularmente estranha. Comecemos do começo.

A premissa de O Dragão Chinês é o clichê que chamo de “sem amigos na nova cidade, Dre”, o qual consiste em um protagonista que acaba de chegar num lugar novo e precisa de ajuda para se instalar e se adaptar (credito o nome à minha irmã, uma fã de Karatê Kid).

O início do filme estabelece dois personagens centrais: o protagonista, Cheng, e seu primo, Chien. Chien é valente, gosta de defender as pessoas e brigar. Cheng, ironicamente — já que é o personagem de Bruce Lee —, prometeu para a mãe que não iria se meter em brigas. Tal fato é relembrado por seu colar, o qual, sempre que entra em cena, aciona uma trilha sonora que tenta ser tocante.

A diferença de atitude dos dois não tem nenhuma serventia temática. É possível dizer que a única função da promessa é não deixar o Cheng lutar até a metade do filme, o que não tem exatamente qualquer sentido.

Em Smallville isso era feito com a onipresente kriptonita, mas lá o propósito era limitar um personagem que necessariamente é absurdamente poderoso, o que é diferente do caso do Cheng. Há outras implicações para este detalhe, mas falarei sobre elas mais adiante.

Além dos dois, existe uma infinidade de coadjuvantes que são absolutamente irrelevantes individualmente. O que importa é apenas de que lado eles estão. O Dragão Chinês é isso: mocinhos contra bandidos. Praticamente não há enredo. O roteiro não se preocupa nem com o que é óbvio, aparentemente na tentativa de fazer humor.

Dois primos do Cheng descobrem sobre o tráfico de drogas feito pela fábrica de gelo, se recusam a cooperar e são eliminados. Dois primos vão cobrar explicações sobre os desaparecidos e são mortos. Todos os trabalhadores se recusam a trabalhar enquanto não souberem o paradeiro dos sumidos, o supervisor manda uma galera atacar eles e o Cheng finalmente luta, colocando-os para correr. O gerente chama o Cheng e o promove a supervisor. Sabe o que acontece depois? Ele e seus primos ficam serelepes, pulando e comemorando. É incoerente e ridículo.

Há uma tentativa de colocá-los contra o Cheng porque ele passou a “aproveitar a vida” e fazê-lo em detrimento de resolver a questão dos desaparecidos. A ideia é interessante, mas não foi desenvolvida bem o suficiente para ser digna de elogio.

Uma sequência que sustenta tal tentativa é a do jantar, na qual o Cheng fica bêbado e acaba dormindo com uma prostituta. Há um momento de nudez parcial dela que achei curioso: ela agia como se fosse realizar o serviço, mas o Cheng estava dormindo de bêbado, logo, ou a cena é gratuita ou é o preparativo para um estupro.

Quando o chefe decide aparar as arestas, O Dragão Chinês toma uma decisão equivocada: matar os coadjuvantes em offscreen. Por mais que aqueles personagens não significassem muito para mim, significavam para o protagonista e eu sentiria muito mais sua perda se os visse morrer. Além disso, soou tão rápido que me tirou um pouco do filme.

Essa opção resulta no desejo de vingança do Cheng, que vai até a casa do chefe para fazer a limpa. O final do filme tem a luta deles, que é até que legal (há uma cena em que o Cheng liberta um pássaro de uma gaiola. Bem legal). Aí o final final é a prima do Cheng chegando na casa com a polícia, que o leva algemado (sem sequer averiguar os demais corpos).

Desgostei desse desfecho, mas não é como se ele estragasse o enredo, já que o enredo é ruim por si só. E isso nos leva à única coisa que pode ser considerada aproveitável neste filme, não por ser boa, mas por ser seu objetivo: as lutas.

As cenas de ação da primeira metade do filme, antes de o Cheng lutar, são bem meia boca, para não dizer ruins. Na verdade, todas as lutas que não envolvem o Cheng são deficitárias. As atuações são ruins e as coreografias pouco inspiradas.

O pior é que, em geral, os atores parecem se mover em câmera lenta e esperar que alguém os atinja. Não ajuda em nada O Dragão Chinês apostar em cenas de vários contra vários, as quais parecem mais uma dança que uma briga de rua.

Quando Cheng está em ação, a qualidade de Bruce Lee se sobressai absurdamente. Não sei se foi proposital, mas ele é muito mais rápido e eu acredito que ninguém consegue reagir. Nas outras lutas parece combinado, nas dele não. Apesar deste meu elogio, Bruce Lee não salva a ação do filme.

Muitos movimentos, em especial os saltos, são exagerados. As coreografias não são muito boas e mesmo o uso de ferramentas como facas e correntes possui seus problemas, afinal, os danos demoram a aparecer e os golpes parecem bobos, quase despropositados.

É possível se divertir? É. Apenas isso. O Dragão Chinês é um filme que pode servir de distração numa tarde de sábado, mas está muito longe de ser bom. Espero que os demais filmes do Bruce Lee sejam melhores que este.

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