Crítica | O Voo do Dragão (1972): Bruce Lee VS Chuck Norris

O título desta resenha se deve ao infeliz fato de que O Voo do Dragão é um filme quase que completamente descartável. A única coisa nele que o torna memorável é o embate entre Tang e Colt, ou melhor, entre Bruce Lee e Chuck Norris.

Uma quadrilha obriga uma jovem oriental a vender seu restaurante em Roma. Para protegê-la, o tio dela envia de Hong Kong um especialista em artes marciais.

Em seu terceiro longa, desta vez trabalhando como diretor e roteirista, Bruce Lee deixou de lado o maior ponto positivo de A Fúria do Dragão e ainda repetiu erros que, em O Voo do Dragão, tornaram-se insuportáveis, dado que os mesmos me irritaram nos dois antecessores.

O humor e o drama

O filme tenta fazer humor. Só tenta mesmo. Suas tentativas são desastradas e esbarram no patético, nível humor de TV. Curiosamente, na primeira aparição de um vilão, ele está se vestindo igualzinho ao Paulinho Gogó (personagem de Maurício Manfrini que, durante muito tempo, arrancou gargalhadas de Carlos Alberto de Nóbrega). São piadas como: o Tang toma um monte de sopa e tem que ir ao banheiro; ele segue orientações de sua amiga sobre convívio social e acaba sem querer saindo com uma prostituta. Uau, que engraçado.

Um aspecto que joga contra o humor é a atuação muito canastrona do Bruce Lee. Ele está pior que nos dois filmes anteriores e é muito artificial. O fato de o personagem ficar dando golpes no ar sem motivo não ajuda em nada. Evidente que a baixa qualidade de interpretação se estende aos demais personagens de O Voo do Dragão.
Se o humor exagera, o drama falta.

Tang Lung, o protagonista, é simplesmente uma máquina de lutar que serve ao seu mestre, prezando pela eliminação da ameaça. Só isso. Não há desenvolvimento de personagem, não há laços bem construídos, não há contexto amoroso explícito, não há nada. Tang é apenas um recurso de roteiro para que cenas de ação ocorram.

A ação

Primeira luta: parece uma esquete de baixo orçamento. A luta é muito pobre, simples e rápida, sem ter a beleza das dos filmes anteriores. Depois de meia hora esperando por ela, foi decepcionante. E ela é um justo cartão de visitas.

Em geral, os inimigos são bem pouco efetivos e quase não atacam com velocidade. Os atores reagem de forma muito irreal ao longo das lutas. Eles ficam se jogando demais e esperando serem acertados. Várias vezes os golpes nem chegaram e os atores já estão se jogando para simular o impacto. Bem ruim.

Também é ridículo como os inimigos não conseguem usar armas de fogo por serem, por exemplo, atingidos por um dardo do Tang. A qualquer momento poderiam tê-lo matado com um tiro, mas tentaram apenas uma vez. Para que gastar dinheiro importando mestres de artes marciais se poderia insistir no sniper?

O bom da ação é o Bruce Lee. Como eu já disse em outras resenhas, ele é rápido e quase dá para acreditar que não tem como reagir aos seus golpes. Quase. O ponto positivo é que ele não grita tanto neste filme.

O enredo

A maior escorregada de O Voo do Dragão é no enredo, mais especificamente na falta dele. As coisas vão do ponto A ao ponto B, mas é tudo muito superficial. Que o diga as inúmeras vezes em que os funcionários do restaurante apareceram vestidos para lutar (e quantas vezes eles começaram a tirar a roupa?).

Parafraseando Ciro Gomes, é muito simples. Criminosos querem o restaurante, os donos do restaurante chamam o Tang Lung para defendê-los junto com os demais funcionários e este se recusa a ir embora antes do problema haver se resolvido. A única coisa que quebra a linha narrativa de “vamos para lá, vamos para cá, lutamos lá, lutamos cá” é a traição de um personagem.

A traição, em geral, é um bom elemento porque subverte expectativas, funcionando como um plot twist. O problema é que a falta de roteiro e enredo sólido de O Voo do Dragão me tiraram a sensação de que a revelação foi legal. Eu nem sabia quem era aquele personagem, se havia algo especial nele. Se a história fosse boa, teria sido um momento impactante. Lendo opiniões de pessoas em redes sociais eu descobri quem era ele e fiquei extremamente confuso. Foi um twist sem sentido.

Acerca da apresentação do personagem de Chuck Norris, a reunião dos três lutadores para decidir qual iria enfrentar o Tang foi um jeito bem bobo de demonstrar que o Colt é forte. Tudo para que fosse aumentado o hype para a luta final.
Bruce Lee VS Chuck Norris
Será que pelo menos a famosa luta é boa? Vamos por partes.

O vilãozinho papagaio de pirata explicando a situação para o Tang no coliseu foi bem tosco, adjetivo que também encaixa como uma luva na cena em que o gato mia e age como o “som do gongo”. Foi ridículo também o esquema de o Tang ter que procurar o Colt e vê-lo a distância, como se fosse um jogo de videogame (me lembrei na hora do Kratos se aproximando de Ares, em God of War).

Antes da luta, ambos os personagens fazem um aquecimento que parece uma exibição corporal, apenas para mostrar o quanto eles são incríveis. Achei bem bobo e foi muito conveniente ambos terminarem ao mesmo tempo e se virarem para começar o combate.

A fotografia foi problemática. Várias vezes a câmera mostrou apenas um dos atores agindo, algo que critiquei em A Fúria do Dragão, fora uma sequência tosca de closes no rosto dos atores.

O embate em si tem alguns momentos inspirados de coreografia, alguns cortes chatos que atrapalham a experiência e há uma progressão bem coerente até o desfecho. Colt consegue acertar Tang com força, então Tang aposta na velocidade. Depois de um chute muito bem dado na cabeça do Colt, era natural ele não conseguir mais lutar tão bem. Tang usou de estratégia e conseguiu incapacitá-lo. Até lhe avisou, mas Colt quis insistir e acabou morrendo.

No todo, a luta é legal, mas ainda há a sensação de que os atores se deixam acertar algumas vezes. Não é a melhor luta que já vi no cinema de artes marciais, mas é mais interessante que a luta final de ambos os filmes anteriores.

Outros detalhes

Sublime: só quando o Tang está diante de um cara armado e munido apenas de seus dardos, sendo que os demais funcionários do restaurante ou estão mortos ou incapacitados, a polícia chega. Nem um pouco conveniente, não é mesmo?

Achei interessante a frase final, sobre o Tang sempre ficar sozinho nesse mundo violento. Isso podia ser muito bem explorado, tal como o foi no excelente Logan (2017). Bruce Lee perdeu a chance de dar um arco de personagem válido para seu protagonista. Uma pena.

Conclusão

O Voo do Dragão é um filme bem fraco. Ele tem atuações ruins, drama inexistente, humor ruim e ação meia boca. Se você quiser assistir à luta do Bruce Lee com o Chuck Norris, procure no YouTube, pois ela não é boa o suficiente para fazer valer o esforço de assisti-lo (diferente de Neo VS Agente Smith, em Matrix Revolutions).

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