Crítica | Operação Dragão (1973): boas desculpas, boas lutas

Operação Dragão foi o quarto filme de ação de Bruce Lee e o último que gravou. Foi durante o processo de dublagem da produção hollywoodiana que o icônico artista marcial faleceu, após um ataque anafilático. Depois deste foi lançado Jogo da Morte, cujas gravações foram interrompidas por Bruce Lee devido ao convite da Warner Bros para gravar Operação Dragão.

Lee, um mestre de artes marciais, é enviado para um torneio em uma ilha, a fim de investigar o anfitrião, um traficante de drogas. Além dele, a ilha receberá dois amigos lutadores que terão de se unir a Lee para saírem de lá com vida.

Operação Dragão gira em torno de três personagens: Lee, Roper e Williams. De modo extremamente surpreendente, o filme distribui um generoso tempo de tela entre os dois coadjuvantes principais.

Ambos possuem um flashback no momento em que chegam à ilha. Roper é mostrado como um homem viciado em apostas, mania esta ressaltada ao longo de todo o filme, e há uma sugestão de que sua chegada objetiva arrecadar fundos, para lidar com suas dívidas.

Já Williams não tem um motivo para participar do torneio. Seu flashback indica que sofrera racismo com frequência, mas roubar o carro da polícia não se conecta à viagem para a ilha. Mesmo assim, a tentativa de aprofundar ambos os personagens é louvável.

Lee também possui um flashback, este sobre sua irmã. Ante um iminente abuso, ela enfrentou e fugiu de um grupo de homens. Encurralada, ela escolheu se suicidar. Ocorre que um dos homens da emboscada estava na ilha.

Com isso, Lee tinha uma motivação pessoal para aceitar a missão e seguir em frente, além da própria lógica de bem contra o mal. O objeto de vingança acrescenta um personagem cujo desempenho em combate é relevante, mesmo sem ser o vilão final, algo inédito em termos de filmes do Bruce Lee.

E o vilão é diretamente ligado ao fato de ocorrerem lutas. Sendo dono da ilha, ele não admite o uso de armas de fogo, devido a traumas pessoais, por isso utiliza lutadores como sua guarda. O torneio é realizado justamente para que ele encontre novos talentos para compor seu bando.

Com o desenrolar do torneio e das saídas de Lee para investigar, Operação Dragão desenvolve um enredo funcional, cuja ideia eu compro. O mais interessante é que, embora aspectos relevantes se conectem ao Lee, o protagonista divide muito bem a dianteira das situações, fazendo a história não girar em torno dele, como se ele fosse o único bonzão.

Reduzir o foco no Lee é benéfico por aumentar a qualidade e a importância das lutas que não o envolvem, além de diminuir a possibilidade de o espectador olhar para o protagonista e sentir que ele é vazio. Sacada corajosa, inteligente e eficaz.

Só que nem tudo são flores. A edição do filme torna os flashbacks um pouco abruptos (e algumas cenas também) e a forma com que o filme esquece o torneio e parte para a pancadaria generalizada não me convenceu.

Mesmo que o vilão tivesse confiança em seu melhor lutador, não havia motivo para colocá-lo em desvantagem contra dois grandes guerreiros. Talvez ele o tenha feito para demonstrar força e amedrontar os demais, como o fez quando quis punir os guardas incompetentes.

Ser coerente não torna uma decisão acertada do ponto de vista do entretenimento e da fluidez, contudo, tal erro não afeta muito a experiência.

Quem vê Operação Dragão não está buscando uma boa história bem desenvolvida, mas sim cenas de ação.
As lutas de Operação Dragão carregam dois problemas comuns em filmes do Bruce Lee: os adversários parecem esperar serem golpeados e a câmera às vezes fica num ângulo em que apenas um dos lutadores aparece. O primeiro é algo que pode ser ignorado, pois as coreografias são boas e, no geral, bem executadas.

É possível dizer que todos os combates do filme são bons, não havendo aquela distância colossal entre o desempenho dos atores coadjuvantes e o desempenho do Bruce Lee, recorrente em seus filmes orientais.

As sequências de batalha mais caóticas, como o Lee enfrentando vários guardas, foram muito bem feitas, bem como a sequência dos brancos contra os pretos. Robert Clouse, o diretor do filme, entendeu que quanto mais gente pudesse atacar e não o fizesse, pior ficaria o resultado final. Assim, os inimigos vão se somando aos poucos.

Quando todos entram em cena, surgem, convenientemente, os prisioneiros da ilha, prontos para a briga e trajados com um uniforme padrão, permitindo ao espectador diferenciar os mocinhos dos bandidos (uma falha de outros filmes de Bruce Lee, os quais acabam um tanto confusos). Ironicamente, a única luta que ficou devendo foi a final.

Embora a dinâmica dos espelhos e do uso de lâminas ofereça um risco interessante, o choque dos golpes em si não possui aquela magia típica do final de seus antecessores. A luta não é simplesmente ruim, mas é bem aquém do esperado em comparação com suas concorrentes de O Dragão Chinês, A Fúria do Dragão e O Voo do Dragão.

O final do filme também me pareceu um pouco rápido, como se faltasse explorar mais o regresso de Lee para sua vida.

Operação Dragão é um filme de artes marciais muito competente. Ele faz com primor suas cenas de ação, cria um enredo convincente e trabalha dois coadjuvantes de modo que eu me importe com eles e com seu fim.

Para fãs do gênero, este é recomendadíssimo.

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