Crítica | Jogo da Morte (1978): difícil de assistir

Uma das maiores gambiarras do cinema

O lendário Bruce Lee já estava trabalhando em um filme quando foi convidado pela Warner para gravar Operação Dragão (1973). Devido à sua morte, inclusive antes da estreia de Operação Dragão, o projeto incompleto assim o permaneceu. Robert Clouse, diretor do único longa hollywoodiano de Bruce Lee, reciclou imagens de Lee e, com o apoio de um dublê, produziu Jogo da Morte, o (entre muitas aspas) filme póstumo de Lee.

Bily Lo é um ator de filmes de artes marciais. Sua namorada, Ann Morris, é uma cantora que também está alcançando o sucesso. Agora, o sindicato quer que Bily e Ann se unam a eles em sua “firma de agendamento”. Porém, Bily sabe que eles serão tratados como propriedade e se recusa. O sindicato tenta “encorajá-los”, mas mesmo assim eles se recusam. Eles são ameaçados, Bily forja sua própria morte e se disfarça para combater o sindicato e preparar sua vingança.

O texto acima não é uma sinopse, é um resumo do filme. Jogo da Morte é como um jogo de videogame que tem esse resumo como premissa. A partir daí, o protagonista deve simplesmente ir até o lugar x e bater na pessoa y. Não há plano, é só ir e bater, ir e bater.

O lado dos heróis praticamente não é desenvolvido. É nula também a motivação, e, como já disse, não há plano. Com isso, o filme parece extremamente cru. Isso incomoda muito no decorrer da experiência de assisti-lo.

Deste modo, sobram as lutas. E elas são boas, apesar de repetirem alguns erros recorrentes em filmes do Bruce Lee, como lutadores que esperam ser atingidos e ângulos que só mostram um deles.

Outro aspecto da ação deste filme é ser um tanto espalhafatosa. Há muitas acrobacias e a coisa fica forçada na cena das motos, que é legal, mas bem exagerada (fora uma explosão sem pé nem cabeça que ocorre).

O maior ponto positivo das lutas de Jogo da Morte é que capricharam mais em planos abertos e sequências de coreografia sem cortes.

No final, praticamente a única parte do filme que foi gravada por Bruce Lee, há uma sequência de lutas com uma pegada bem videogame mesmo. Bily chega num prédio e em cada andar enfrenta um adversário diferente.

A primeira luta é focada no uso de nunchakus e é muito, mas muito chata. As cenas de nunchaku dos filmes anteriores contavam com uma exibição das habilidades de Bruce Lee, mas esta luta é demorada demais nessa demonstração e capricha pouco nos golpes. Muita dança, pouca porrada.

A segunda luta tem alguns golpes baixos interessantes e destaco a brutalidade da finalização executada por Bily. Esta não é lá grandes coisas, mas é bem menos datada que as lutas dos filmes anteriores.

A terceira é o espetáculo: Bily contra o gigante. Sem dúvida, é a luta mais legal do Bruce Lee, contando com seus outros 4 filmes. A luta é muito boa e o fato de o adversário ser enorme colabora muito para o sentimento de urgência, medo e desespero (a marca do pé no macacão é muito legal).

Fiquei com a impressão de que em um momento o diretor repetiu uma ação do Bily de maneira ilógica para tirá-lo de uma situação que não fora completamente gravada (o grandão aproximando o rosto do Bily de um pedaço pontudo de alguma coisa).

A quarta luta foi feita pelo dublê, com alguns “truques de edição” que usavam takes do Bruce Lee. Até funciona e gostei da luta, só que o dublê usa um macacão amarelo e o do Bruce parece mais alaranjado, então ficou brusca a troca de atores.

Quando fui comparar as cores dos uniformes, para ter certeza da diferença, notei que o take do Lee derrotando o inimigo parece se repetir na terceira e na quarta luta.

O desfecho do último vilão foi grosseiramente bobo. A rota de fuga dele o levou para a morte. Pior ainda foi o filme ter acabado ali, de maneira abrupta e estranha.

Em síntese, Jogo da Morte possui boas lutas e é o filme que melhor envelheceu nesse aspecto, junto com Operação Dragão. O problema é que o enredo é fraco demais e há um grande obstáculo: como fazer um filme do Bruce Lee sem o Bruce Lee?

Dublê com óculos escuros aparecendo sempre no escuro ou rapidamente, quando de frente, é patético. A melhor saída era assumir uma mudança corporal para não sabotar o desenvolvimento dramático (como um personagem evolui sem que seu rosto seja mostrado?).

O roteiro tentou justificar a relutância de Bily em mostrar seu rosto com a cirurgia facial e uma cicatriz, só que as lutas finais mostram um Bruce Lee intacto. Robert Clouse achou que ninguém ia notar?

Essas dificuldades advindas do fator Bruce Lee tornam Jogo da Morte um filme difícil de assistir, devido ao seu ar tosco. Não ajuda em nada a tentativa do filme de homenagear Lee (a cena em que Bily leva o tiro tem uma montagem ridícula).

Jogo da Morte é tão problemático que não sei se dá para recomendar. Se puder assistir apenas à sequência final (com as lutas que analisei especificamente), deve ser mais satisfatório do que ver o filme inteiro.

Observação: no filme, o personagem de Bruce leva um tiro depois de uma bala real ser colocada na arma, em vez de festim. Na vida real, uma situação assim levou à morte de seu filho, Brandon Lee, durante a gravação de O Corvo.

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