Crítica | Contos do além (1972): melhor que antologias recentes

Introdução

O grupo se perder porque a mulher deixou o broche cair é bobo, mas funcional. O destaque positivo fica para a porta de pedra que se fecha sozinha. É estiloso. O mistério propiciado pelo anfitrião é bem empolgante, mas a guinada para as histórias é abrupta.

É Natal, é Natal

Este conto é um pouco entediante, mas carrega alguns detalhes legais. Agrada-me a mudança de rumo do homicídio para o enfrentamento do maníaco. Essa narrativa cria uma interessante constatação: se a mulher não matasse o marido, poderia ligar para a polícia e se salvar do maníaco.

A cereja do bolo é o desejo da filha pelo Papai Noel, que é o que possibilita o desfecho. É uma boa sacada, embora óbvia. A execução não deixa a desejar e torna a experiência de assistir ao segmento satisfatória.

Cabe destacar algumas escolhas técnicas bacanas. A rádio de músicas natalinas é usada como objeto em cena e trilha sonora, algo que às vezes ocorre em filmes. A sensação de integração melhora substancialmente a qualidade da trilha.

Gosto também do enquadramento que mostra o Papai Noel na janela e a mulher agachada.

Além de certa enrolação, conta negativamente o sangue. Não sou entendido de efeitos visuais, mas achei muito com cara de tinta.

O adúltero

Um homem está fugindo com a amante, sonha que um acidente o matou e que se transformou num zumbi, acorda assustado e seu sonho se realiza. É uma ideia legal, mas o acidente é tosco.

O grande ponto positivo é o mistério sobre a aparência do homem, mas a resposta é óbvia demais. Gostei particularmente da sacada de a amante não recuar diante da aparência dele por estar cega, algo que me surpreendeu.

É um conto feijão com arroz.

O desprezado

Este conto é uma história triste. Um homem ataca um velho bondoso por acreditar que ele diminuía o valor de sua propriedade. Depois de tirar o que importava para o velho, o protagonista aplica-lhe um golpe cruel e fatal.

Tramas de injustiça costumam me tocar. Se tirasse o zumbi do final seria um segmento de alta qualidade, mas a rima abrilhanta o desfecho. Gostei deste conto.

3 desejos

Este conto cita a história da pata do macaco, a qual inspirou um filme já analisado no Blog do Kira. Ambos me agradam pela temática: cuidado com o que deseja. Esse tipo de história serve como lição de moral acerca das consequências dos atos, uma mensagem importante.

Toda a narrativa dos desejos até a mulher fatiar o marido é ótima e orgânica, mas essa decisão dela não faz o menor sentido. Ela sabia que ele estava imortal e cortá-lo daquela forma não resolveria o problema.

É uma guinada final desagradável diante da qualidade do que viera anteriormente. Apesar disso, a surpresa como desfecho do protagonista eleva o nível a ponto de tornar o conto bom. Se tem “cuidado com o que deseja”, tem meu apreço.

O major e seu cão

Um homem administra uma espécie de asilo para cegos e é negligente, o que os leva a arquitetar um plano de vingança. A ideia é funcional e eu estava gostando até a trilha de carne separar o cachorro do dono.

A partir daí, começa uma enrolação tremenda até o desfecho. É muito chato e excessivamente meticuloso, especialmente a parte das lâminas. Não precisava daquela complexidade toda. Se a reviravolta fosse mais simples e dinâmica, teria sido um bom conto.

História-macro

Os contos não são avisos, são a causa da morte dos personagens. É legal, mas A Cripta dos Sonhos, lançado no ano seguinte, faz melhor. As histórias são melhores e o jeito que a história-macro é contada é melhor.
Se eu visse primeiro este, o acharia muito melhor, todavia, Contos do Além não é descartável.

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